Conto pastoril de José Anselmo Santos

Na vila aconteciam coisas que davam que falar. E que pensar mais ainda. Como daquela vez em que Nestor matou a mulher com um tiro de espingarda e foi preso, humilhado, desfilando pelas ruas com as mãos amarradas no meio de dois soldados, todo mundo cuspindo à sua passagem.

O menino José também cuspiu que nem os outros, mas, no escondido do seu coração, ficou foi com pena de Nestor, que no destempero estragou a vida, porque corno quase sempre tinha razão quando matava mulher e o safado juntos. Só que, daquela vez, o safado era Jair, filho de Josino Canindé, o fazendeiro que mandava na vila.

– Ai de quem defender Nestor, que vai ficar marcado pra vida inteira, que nem gado!

Foi o que falou seu Miro, dono da bodega, mode amofinar a falação dos cachaceiros que não cuspiram quando Nestor passou. Falou e cuspiu mais uma vez, saliva preta, ardida do fumo de rolo que vivia mascando. Todos cuspiram respeitosamente ao redor do cuspe preto que brilhava no chão de tijolos vermelhos.
Cortou uns nacos de carne seca e ofereceu aos bebedores, inaugurando um momento de silêncio desnatural, naquele recinto sempre cheio de vozes altas, risos e disputas.
Continuou a preleção enquanto servia mais cachaça:

Não é a mesma coisa que nem no caso do Passarinho. A gente sabe. E quem falar desta vez, vai se arrepender, vai se arriscar a virar defunto e acabar com a tripa gaiteira arrastada pelos urubus num pasto qualquer.
Januário, o Passarinho, era o cantador mais conhecido do lugar. Tinha uma viola cheia de espelhinhos redondos, enfeitada com fitas coloridas. Mulato bonito, de corpo rijo, braços e pernas compridas, mãos finas como de moça. Cabelos pretos e lisos, penteados pra trás com brilhantina e dono de um sorriso maroto, dentes alvos como tapioca. Um cinturão largo, com apliques de lata e gibão de couro amarelo, que escondia uma peixeira de palmo e meio. Um solteirão cobiçado que se gabava de conquistar qualquer mulher que quisesse, arrematando.

– Casar-me? Nem pensar! Nasci casado com a viola, pra viver alegrando a vida, livre como um passarinho. Casamento só se for na delegacia… – dizia e sorria.

Todo Sábado chegava à bodega bem cedo e esperava outros violeiros vindos dos matos, para emendar desafios até o cair da tarde, enquanto seu Miro esvaziava os litros de cachaça e contava os cobres dos tabaréus de queixo caído com as graças dos cantadores. Passarinho reinava feliz e gaiato. O desafiante começava.

Passarinho te prepara
Para levar uma pisa,
Se ajoelhe nos meus pés,
E tire fora a camisa
E na poesia dos Sete
Vê se você improvisa
…”

A viola dava a deixa no tén-dén-dén-dén, tén-dén-dén-deimmm… Ecoando misturada aos risos e exclamações da plateia, logo silente para ouvir o Passarinho risonho responder: “Menino, neste sistema Sou passarinho que gorjeia Começo na lua nova Acabo na lua cheia. Afine sua viola Tu vais tomar uma sola “E depois, vais pra cadeia…”

O tén-dén-dén-déinnnn da viola soava mais vigoroso e o desafio arrancava mais risos e mais cachaça pra embalar a arte da vadiação mais pura, bonita e livre, rolando na louvação de bicho, atrevimento e mulher, que por ali não aparecia pra não ser malvista ou mal falada.
Nos intervalos da cantoria, os tabaréus pagavam mais nacos de jabá e meladinha (**) pra refrescar as gargantas dos cantadores. No fim da tarde, seu Miro botava umas notas de mil réis na mão Januário Passarinho, que agradecia, enfiava a viola no saco e pegava o rumo de uma festa na roça, pra cantar e dançar a noite inteira.

Foi numa daquelas festas que os gorjeios do Passarinho começaram a desafinar. O que correu mundo na boca do povo depois do acontecido foi que era noite de lua cheia, lá para as bandas da Serra Grande, quando Januário se engraçou de uma moreninha com laço de fita nos cabelos e cheiro de flor. Lá pelas tantas, não se aguentou e chamou a moça na chincha.

Como ela não desgostasse, acabaram os dois deitados na terra macia, no meio das mandiocas. Quando ele viu, que tinha inaugurado a moça, o mal já estava feito. Despediu-se num de repente que todo mundo estranhou, perguntando se ele estava doente,

stava não, era nada não, inté outro dia…‘ Dizem que falou assim e foi saindo, sumindo nas sombras da noite, rezando pra que a moça guardasse o segredo. Mas ela, que estava de casamento marcado com um vaqueiro valente e parrudo de nome Ismael, começou a ficar triste e contou a mãe o mal feito.

Sabendo do acontecido, Ismael, no seu direito, não ia mais se casar com a moça ofendida, mas tomou as dores dela e sabia onde encontrar Passarinho.

Chegou na bodega, no meio do desafio e ficou num canto calado bebendo só refresco de mangaba. Parecia que estava juntando raiva e coragem. Quando acabou a cantoria, ele chegou perto de Passarinho e disse:

-…Muito admiro su’arte… Queria aprender, mas olhe – mostrou as palmas das mãos calejadas e dedos tortos – estes dedos foram acostumados nas cordas de arreios, engancham nas cordas da viola…

O salão da bodega ficou num silêncio que se ouvia até coração bater, parecendo que todos sabiam o que estava pra acontecer, menos Passarinho, que se gabou dizendo:

Isto é arte de nascença, é pra quem pode e não pra quem quer seu menino!…

E foi se virando vestindo a viola com o saco, que já estava de saída. Pra quê? Foi nisso que a peixeira de palmo e meio ficou a mostra, como que se oferecendo pra Ismael, que pulou que nem um gato, puxou a lâmina brilhante da cinta de Januário e disse com voz sufocada na goela:

– Te vira que tu vais morrer Passarinho… Vais deixar de cantar e fazer mal as moças de bem.

Dizendo e fazendo, Ismael enfiou a peixeira no baixo ventre do violeiro. Enfiou, torceu e rasgou pra cima, a buchada caindo e melando tudo, enquanto Januário Passarinho despencava no chão de tijolos com a cara no cuspe, sem dizer um ai.

Ismael jogou a peixeira ao lado do corpo que estrebuchava com a alma se esforçando para sair, limpou a mão num pedaço de papel que estava em cima do balcão, cuspiu e saiu com a consciência tranquila. Ninguém se mexeu. Ninguém disse nada. Aí seu Miro falou:

– Vamo’s’imbóra que vou fechar e alguém vá chamar a polícia… Fico esperando.

O menino José precisava das respostas. Perguntou e a professora disse: não estou entendendo o que você está querendo saber.

O padre falou de uma tal sociedade, maldades e bondades, vida torta, pecado… Para compreender direito, o menino perguntou ao pai, que parou um pouquinho, passou a mão nos cabelos como quem arruma os pensamentos e sentenciou.

– Estude! Mais pra frente você vai saber. É muito complicado pra você entender agora.

Mas ele queria porque queria saber já! Uns matavam e iam presos, outros provocavam e assustavam com arruaças e ficava tudo por isto mesmo. Que nem os filhos de Canindé, coronel de Getúlio Vargas, dono de tanta terra, cana, gado e mais o engenho, casas grandes na vila e na fazenda, até carro, o único que existia por ali.

Os filhos dele mandavam e desmandavam, faziam e desfaziam deixando todo mundo de bico calado. Prenderam Ismael que matou Januário Passarinho, prenderam Nestor que matou a mulher em “defesa da honra”, mas não prendiam os filhos do coronel, que continuavam na farra e no cinismo tirando o cabaço das moças, como se nada. A honra tinha duas caras, como a justiça tinha duas serventias.

*Vaqueiros e Cantadores, Luís da Câmara Cascudo, Editora Global, 1937

*Batida de mel de abelhas com cachaça. N.A.


Justiça é consciência, não uma consciência pessoal mas a consciência de toda a humanidade. Aqueles que reconhecem claramente a voz de suas próprias consciências normalmente reconhecem também a voz da justiça.

– Alexander Solzhenitsyn

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Revista Esmeril - 2021 - Todos os Direitos Reservados
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