FILOSOFIA INTEGRAL | Necessidade dos Princípios

Quais são os limites da razão? Não sabemos. Por isso, quando a exercemos, vislumbramos fazer isso sem amarras. Quem pensa quer pensar livremente. Não é por acaso que nos incomoda tanto imposições que parecem cercear o nosso pensamento e nos debatemos por nossa liberdade de expressão.

Por tudo isso é que eu vejo a proposta de René Descartes, de propor uma reflexão sem considerar os ensinamentos dos mestres e a tradição, como uma expressão muito natural dessa tendência humana por liberdade da razão. Ele simplesmente quis experimentar o que seria pensar por si mesmo. No entanto, eu entendo que seu erro foi colocar todos os princípios num mesmo saco e considerá-los todos como potenciais desvirtuadores do pensamento.

Os princípios, na verdade, são ajustadores da razão. Eles funcionam como sinalizadores, balizando-o e ajudando-o a estabelecer as devidas relações, conexões e hierarquias. Por isso, são imprescindíveis para evitar a anarquia do pensamento, permitindo que ele tenha sentido e torne-se inteligível. Esse é o motivo porque não há como prescindir dos princípios.

Francis Bacon, antes mesmo de Descartes, tinha plena consciência disso. Só que, para ele, havia um problema: não queria que esses princípios fossem dados por uma autoridade exterior (no caso, a Igreja). Então, propôs que fossem obtidos da experiência. O problema é que, enquanto os princípios dados pela religião eram incontestáveis, estáveis e universais, os de Bacon eram incertos e voláteis. Acabou, então, que os pensadores posteriores a ele tiveram de praticamente escolher, de forma discricionária, quais balizariam o pensamento de cada um deles. O resultado foi uma miríade de fundamentos na modernidade, fazendo desse período, ao mesmo tempo, encantadoramente diverso e assustadoramente hesitante.

Além do mais, não havia princípios disponíveis para substituir os perpétuos fundamentos medievais. Os modernos, então, foram obrigados a agarrar-se, por fé, a bases de pensamento assumidas a partir de suas convicções pessoais. Sendo assim, a maioria dos axiomas tomados pelos modernos o foram da mesma maneira que os antigos conteúdos de fé. Basta ver o que era a “tábula rasa” de Locke, a estrutura a priori de Kant, a materialidade universal de Marx e a precedência da existência de Sartre ─ todos exemplos de fundamentos estabelecidos por meio de crenças, por convicções que não podem ser rastreadas na experiência e nem colocadas à prova.

Ficou claro, então, que, por mais autonomia que almejassem, por mais independência que buscassem, no fim das contas os pensadores modernos sempre tiveram de se socorrer de princípios para poderem seguir seus raciocínios ─ o que só demonstra a indiscutível necessidade deles.

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