SANQUIXOTENE DE LA PANÇA | “Lutar pelos Paulistas”

Paulo Sanchotene
Paulo Sanchotene
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é mestre em Direito pela UFRGS e possui um M.A. em Política pela Catholic University of America. Escreveu e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. É casado e pai de dois filhos. Atualmente, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, onde administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna).

Deboche caritas est


Neste 9 de julho, republico texto feito para a edição da Revista Esmeril sobre a Revolução Constitucionalista de 1932 (Julho/2020). É um presente meu para os queridos paulistas. Não o teria escrito se não nutrisse afeto e admiração pelo estado. Só a amizade verdadeira permite algo assim. Aos que desejem reclamar, reitero que o Rio Grande do Sul quis se separar DUAS vezes da União, mas não nos deixaram. Agora nos agüentem…  


Terça-Feira, 17 de Quintubro de 524

[para saber mais sobre o calendário tupiniquim, clica aqui.]

A Revolução Constitucionalista de 1932 é um evento que estabeleceu marca indelével no imaginário político paulista. Tanto isso é verdade que no dia 9 de julho se celebra no estado uma festa cívica em recordação daqueles bravos homens dispostos a sacrificar suas vidas pelo bem de São Paulo.


Trata-se do dia em que os paulistas sentem-se mais paulistas. É também a melhor época do ano para os demais brasileiros tanto evitarem ir a São Paulo quanto para comerem pizza com ketchup sem o risco de ouvir duas horas de argumentos sobre como isso é um absurdo. Como se vê, é uma data importante não só para os paulistas, mas para todo o Brasil.


Lidero, não sou liderado”, reza o lema da capital de São Paulo. Pois era justamente esse o problema em 1932. Dois anos antes, Getúlio Vargas dera um golpe-de-estado e acabara com a República Velha, um regime praticamente de partido único (o Partido Republicano) capitaneado pelos paulistas.


A liderança do regime era para ser compartilhada com os mineiros, mas houve uma diferença no entendimento da repartição. Os mineiros achavam que era 50-50; já os paulistas defendiam 75-25. Indignados, os mineiros chamaram os gaúchos.


Agora, não se chama os gaúchos, assim, à toa. Se é forçado a chamar os gaúchos. Os gaúchos somos a última saída, quando todos os recursos foram exauridos, e as esperanças já foram abandonadas. É como o Felipão em 2002 ou o Dunga em 1994. Se os mineiros o fizeram, certamente as alternativas haviam se esgotado.


Deve ter ocorrido um diálogo mais ou menos assim no Palácio da Liberdade:


Nu’nten’o qui há c’us paulis, uai!
Us paulis taum cegs i surds. Trem doid, is! Num quérim uvi a Razaum. Els insist qui num fizer nad. Nun dian convirsá. Nun vej solçaum.
Agor, qui nós fazems? Chimam’us gaúch?
Us gaúch?! Tem cirtez?
É, uai! Nes ors, quan’um te’ma convirs, u qui rest é chimá us gaúch…
Bõ. Iscrev pr’u Vargs, intaum, sô. El num gost dus paulis e vai nus judá.


Não é só o Vargas que nutria certa desconfiança em relação aos paulistas. A relação entre gaúchos e paulistas é complicada há tempos.


No resto do Brasil ensina-se que os bravos bandeirantes partiam de São Paulo para desbravar o interior do Brasil sendo responsáveis pela expansão do nosso território. Tudo verdade, claro. Porém, no RS, aprende-se que os piratas bandeirantes partiam de São Paulo para invadir nosso território sendo responsáveis por matar nossos padres e escravizar nossos índios. Tudo verdade, também.


Claro, gaúchos temos relação complicada com todo mundo, principalmente com outros gaúchos. Não se trata de uma implicância para com paulistas. E é exatamente por isso que se deve evitar chamar os gaúchos para intervir em problemas.


No século XVIII, os impérios português e espanhol, duas das maiores potências da época, tiveram que se juntar para derrotar os gaúchos. No início do século XIX, o maior militar brasileiro, Duque de Caxias, foi nomeado presidente de província para impedir a independência do RS. Anos mais tarde, os paraguaios se renderam no Rio Grande do Sul, às margens do Rio Uruguai. Por fim, sem termos adversário externo, os gaúchos entramos em guerra civil – assim, como que para não perder o hábito. Entre combates e armistícios, o conflito durou três décadas.


Ainda assim, sabendo de tudo isso, os mineiros chamaram os gaúchos. A situação em 1930 deveria estar realmente insuportável.


Desta vez, seguindo o apelo vindo das Alterosas, os gaúchos, ao invés de lutarmos pela independência, fomos ao Rio tomar o controle do Brasil das mãos dos paulistas. O resultado foi: “Veni. Vidi. Vici.”; ou, no caso, “Vim. Vi. (Amarrei meu cavalo no obelisco.) Venci.


Sabemos que se seguiram 15 anos de ditadura fascista, mas isso é irrelevante. Vitória é vitória.


É o que vale. Não se joga fora. Ademais, os mineiros preferiram isso ao que havia antes – para ser ter uma idéia do que havia antes…


Os paulistas, evidentemente, não aceitaram o resultado. Em 1932, tentaram dar o troco. Junto com eles, ¿estavam quem? Os gaúchos, ¡evidentemente!


Getúlio Vargas era correligionário do Partido Republicano, o partido “único” da Republica Velha. Pois parte do PRR (Partido Republicano Rio-grandense) estava descontente com o Vargas. Afinal, Getúlio queria mandar no Brasil inteiro sozinho, ao invés de mandar em quem mandava nos estados como faziam os paulistas.


Nesse conflito, os gaúchos vencemos de novo! “Sabemos que se seguiram 15 anos de ditadura, etc.” “Vitória é vitória, etc.” E, sim, fica fácil vencer quando se luta nos dois lados em litígio, mas isso também é detalhe.


O relevante aqui é que essa história revela toda a importância da Revolução Constitucionalista de 1932. O conflito deixou de herança uma data cívica para os paulistas. Porém, fez isso e mais.


A peleia garantiu que os gaúchos não sejamos os únicos brasileiros a celebrar uma guerra perdida. Ademais, acrescentou ao nosso linguajar cotidiano uma nova expressão.


É graças à participação gaúcha também no lado derrotado em 1932 que, quando alguém perde uma disputa qualquer, ao invés de dizermos “perdeu”, nós gaúchos falamos:

– ¡Bah! Ele lutou pelos paulistas




P.S.: Preciso confessar que o último parágrafo não é verdadeiro. A tal expressão não existe. [Melhor dizendo, não existia; pois passou a existir com a publicação deste texto.] Porém, seria injusto considerá-la uma “invenção”. É melhor considerá-la como uma “correção histórica” elaborada pelo autor.

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