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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

EU OPINO, TU OPINAS…

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

… nós opinamos, vozes opinam daqui, dali, alhures, pra chegar “lá!”

Viajamos no trem do progresso da Maria fumaça (pra não dizer Maria vai com as outras), conduzidos por maquinistas bêbados, sujos de fuligem, fedidos do ranço de gordura que escondem usando perfumes com nomes exóticos: Balenciaga, Azzaro, Saint Laurent, Boticário, confirmando o que dizia o professor de latim há setenta anos: “Qui bene olet, male olet” – tradução livre e oportuna: os perfumados fedem! Como fedem os lixões ao lado dos trilhos por onde conduzem para um futuro desconhecido, incerto, embora alguns otimistas o concebam como… feliz?

Que nem aquelas imagens dos trens que circulam lá longe, na Índia, carregando um monte de gente nos tetos dos vagões, alguns passageiros do nosso trem, utilizando óculos, divisam entre as nuvens negras os desvios que poderiam (talvez, quiçá, por acaso, porventura) conduzir-nos em direção ao sol. Tentam gritando, avisar aos maquinistas. “Porém, (sempre existe na vida um porém zombando da dor alheia” – *) os maquinistas mal ouvem as próprias vozes e estão concentrados em jogar mais lenha, ou leis, na fogueira que mantem a caldeira gerando os gazes fétidos que impulsionam o trem nos mesmos trilhos, dando voltas para chegar a lugar nenhum.

Nos vagões lotados, crianças choram, adultos riem e jovens trocam mensagens e postam fotos em redes sociais projetando encontros e festejos para o fim da viagem. Outros assistem noticiários e filmes de terror da Netflix, HBO, Amazon, todos imersos na realidade virtual, drogados, alienados, manipulados, enfeitiçados. Zombam do tempo em que a comunicação era um exercício efetuado em grupos de interesse sobre leituras ou através de cartas de amor, cartas que encerravam ideias, cartas que atualizavam sobre eventos vividos, cartas que começavam grafadas com: caro amigo, querida, para terminar com: saudades, atenciosamente…

Mas estas são cogitações dos que usam óculos, viciados em escarafunchar bibliotecas e buscar respostas que fundamentem novas “opiniões” sobre a utilização dos achados individuais, teorias sobre a justiça, o bem comum, as leis eternas e os melhores alimentos e bebidas para manter a saúde cerebral e as certezas da fé. Fé em si mesmo e crença no trabalho que gera o bem estar em ondas periféricas com perímetros que se espraiam pelo universo tocando o transcendente.

Que metro serve para medir o grau de felicidade, de prosperidade, de esperança? Qual será a temperatura, o ritmo dos batimentos cardíacos no ato de uma escolha ética? Ou num momento de percepção respeitosa das escolhas de outros semelhantes, escolhas diferentes das que faríamos? Intenções podem ser medidas?

As consequências, os resultados do verbo, das ações concebidas na maternidade da ética, do amor aos semelhantes, do cuidado com todas as formas de vida, com a coragem de erguer a espada e eliminar quem tenta ferir a família, a estabilidade individual… A verdade humana reside no resultado do verbo, da intenção, da iniciativa, da ação. Um resultado que é positivo para uns e destrutivo para outros. A “massa ignara” apenas se atém a sua realidade existencial. Isto nem de longe significa que estamos isolados do mundo periférico. O resultado afeta a todos os semelhantes.

Imersos em tantos temas que nos afetam a distinção entre verdades e mentiras, honestidade e seu anverso, independem menos da “intenção fundamental” que do resultado concreto que surge como luz na escuridão. Os formatos de discussão que afloram entre os integrantes da Esmeril, como de outros grupos conservadores que emergem no ambiente Brasil, todos “antenados” com o planeta, com a história, com a filosofia, com as artes, com as obras imortais fazem a diferença amplificando a consciência de milhões. Gratias agamus Domino Deo nostro!

Além dos encontros presenciais ou virtuais, me confortam: o conceito de sincronicidade desenvolvido por Jung e a Teoria dos Campos Mórficos do Biólogo inglês Rupert Sheldrake. Muitas vezes tenho experimentado as “coincidências” de pensamento e ação, bem como o reforço que ganham através dos canais de oração e meditação. Oração e meditação sem pedidos, mas com agradecimento pelas visões somadas ao quadro da consciência. Cada “achado” é uma pedra preciosa lançada ao lago da vida, reverberando em ondas concêntricas. Ondas eletromagnéticas.

Face, twitter, zap, telegram, gettr, youtube, todas estas plataformas eletrônicas parecem formatadas para servir a um só senhor. Servem para opinar e exibir-se, sobrando um cantinho censurado para os que fazem a diferença e provocam reações construtivas. Os senhores que escarram regras sobre os humanos, são diferente daquele Senhor ensinado por Jesus, que também ensinou que o ego freudiano suscita a vaidade, a velhacaria e inferioriza o homem afastando-o das virtudes que estão orientadas para o encontro dos indivíduos consigo mesmos e com as verdades que conduzem o espírito ao ágape que congrega os cristãos no banquete eucarístico. Se damos topadas buscando verdades no mundo material, imagina como estarão os pés dos que buscam as verdades transcendentais!

Os filósofos gregos estão aqui, bem presentes contribuindo para os debates intelectuais da atualidade. Pouco lembrado, mas presente para os estudiosos, estão o pintor e médico evangelista Lucas, como Mateus ensinando: “Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem.

MAS NÃO FAÇAM O QUE ELES FAZEM, POIS NÃO PRATICAM O QUE PREGAM.” (Mateus 23:2,3). Quem tem a coragem de pensar e agir fora dos limites passageiros postos neste planeta, guiado pela Verdade de termos sido “creados” à imagem e semelhança do Criador? Será verdade que vivemos imersos num mar de mentiras, sem exercitar todas as capacidades do espírito doado pelo Criador? E como fazer para chegar “lá”?

“Chegar lá”, pode ser entendido diferente do progresso material e sim ascender aos píncaros do autoconhecimento, da intimidade com o próprio espírito, utilizando o verbo para aproximar os semelhantes, com humildade, compaixão, fé, esperança, caridade. Fora desses parâmetros afastamo-nos da religação com o transcendente. Afastamo-nos de Deus. Afastamo-nos da Verdade.

(*) Cancioneiro popular das antigas: “Eu Te Amo”, Nubia Lafayette.


Se eu acredito em Deus? Mas que valor poderia ter minha resposta, afirmativa ou não? O que importa é saber se Deus acredita em mim

— Mário Quintana

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