Numa sociedade tão distante do Reino

Naquele dia ele acordou com a notícia do vírus, peste mundial, e sentiu o nó na garganta mais o gosto de fel. Imagens de pessoas queridas e abraçadas, risonhas num tempo distante, quando a esperança da fraternidade e da justiça pareciam vetores naturais das atitudes humanas e permeavam o romantismo de uma gente que valorizava a fé em Deus, o saber, a escola, o conhecimento e respeito, a ajuda mútua e o amor fraterno, creditando-lhes a condição de tesouros que nenhum ladrão poderia roubar. Mas roubaram!

Acordou constatando realidades palpáveis como a resistência para sobreviver. Acordou com a mente flutuando sem a proteção dos mantos da ingenuidade, percebendo os açoites de cada instante, mais dolorosos que as feridas físicas; mais dolorosos e letais que a tortura das guerras e das cadeias. Sentia cada ferida da humanidade, mantida em ignorância abissal pelos que propagandeavam as drogas como recreação. Os neurônios bichados pela insensatez criminosa.

A tortura do silêncio. A tortura do medo permanente. A tortura da vida ausente da convivência com familiares e amigos. A tortura da vida ausente da pátria. A tortura da perseguição surreal de um inimigo oculto. A tortura da clandestinidade. A tortura de esconder o próprio nome, a origem, a história e as razões pessoais idênticas à maneira de pensar ou não pensar, agir ou não. A tortura de assistir as distorções da imagem ignorando a consciência essencial. Sem defesa, era menor e menos aflitiva que o convívio com pessoas ignorantes da própria realidade existencial.
A tortura da dúvida de conseguir, a cada dia, nos limites econômicos, honrar os compromissos.

Pagar o preço da sobrevivência ou ser exposto à execração dos protestos, listas de devedores e inadimplentes. Poder comprar o pão ou mendigar antes de roubar. Poder pagar o preço da educação, da saúde, da segurança ou conformar-se com a esperança de uma promessa de futuro crescimento ou uma cesta básica de produtos contaminados pelos agrotóxicos e potenciais modificadores genéticos, impostos pela “revolução verde” dos macacos, que a partir dos palácios governamentais chicoteavam as manadas adestradas a serviço de poderes tenebrosos.

A tortura de saber ouvir, ver e estar impedido de fazer, de realizar por si mesmo em confraternização com os demais. A tortura da ausência de esperança, sustento mental subvertido, minando a saúde e a resistência a cada dia.

Acordou com a mente lúcida divisando os contornos da obra de seres satânicos, que impediam os sonhos de liberdade num mundo pacífico. Restava apenas ensimesmar-se e calar. Restava só um sentimento de compaixão pelas pessoas alucinadas, ensandecidas e agressivas, cuja condição só poderiam superar seguindo a lição do Mestre: “amai-vos uns aos outros”.

Um dia acreditou que as intenções dos pais, dos governantes, somente poderiam ser positivas; mesmo porque ninguém desejaria ser lembrado como algoz. A natureza do poder, utilizando o discurso da felicidade futura escondia a crueldade, arma letal, esgrimida pelos incapazes de amar, de perdoar, de unir-se para construir e compartilhar. Incapacidade de reconhecer o semelhante no outro. Cegueira surreal.

A concepção filosófica de “ser humano” feito “à imagem e semelhança do Criador” jazia enterrada, esquecida. A vida resumia-se ao cumprimento das tarefas impostas pela ordem coletivista. O espírito, a energia motora das gentes, aguardava o momento de despertar, como quem aguarda uma taboa de salvação.
Lembrou um tempo distante, quando beirando os oito anos, explorava os arredores do mundo em que vivia. A visão do sexo entre animais era um evento corriqueiro, mas a tal da cegonha ainda confundia as mentes imaturas. A ingenuidade o dominava entre os trabalhos domésticos e brincadeiras, temendo os castigos de pai e mãe por desobediência ou mal-feito, mais que o castigo de Deus, que estava ali para proteger cada um, guiando com a mão dos anjos.

Saíam em grupo para nadar no rio, fazer excursões à usina desativada, ajudar no alambique colando os selos do governo nos litros de cachaça, andar de pés descalços e no tempo de fortes temporais correr sentindo as gotas do chuveiro do céu sobre a pele e o cheiro que a terra exalava. A mulher e o sexo eram mistérios menores, guardados em caixas de curiosidade e respeito. Quando muito, entendiam que eram coisas de adultos.

Dois acontecimentos marcaram o fim daquela infância. Um caminhão fechado chegou à vila carregando um aparato de cinema, coisa que ninguém conhecia. Um lençol de casal, branco, foi pregado na lateral da igreja e a gente se amontoou, de pé mesmo, ali no meio do jardim. De repente o gerador do caminhão começou a fazer um barulhão danado fornecendo energia para a máquina, que projetou o filme em que o sujeitinho com traje preto, chapéu e bengala, fazia a gente rir e chorar com a história que ele contava sem falar, todas as almas presentes, em êxtase, diante daquela coisa mágica.
O outro acontecimento foi a chegada do circo com o leão e o menino de borracha que se contorcia até meter a cabeça entre as pernas, como se não tivesse nenhum osso. O mágico encantava fazendo aparecer pombas e lenços coloridos tirados de dentro de um chapéu vazio. Os palhaços faziam rir. Os trapezistas faziam levar a mão à boca ou fechar os olhos.

Alguns aplaudiram mais a moça que andava de pé no lombo do cavalo. Outros gostaram mais do leão que levava chicotadas do domador, um leão triste que fazia cara de bravo, mas obedecia que nem um cachorrinho amestrado. Coroando o espetáculo, a peça dramática: “A vida, paixão e morte de Jesus”. No ato final, quando a cortina fechou, a bandinha atacou um forró pra aliviar a choradeira. Um moleque puxou a cortina revelando a dança dos artistas: “Jesus” dançava com a “Madalena” enquanto soldados e os outros crucificados arrastavam o pé alegremente.

As pessoas mudavam sem perceber. O mundo mudava. O mundo mudou. Mas no âmago ele conservava a semente da ternura e inocência. Ainda balbuciava o “anjo santo do Senhor” antes de dormir.


A alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira.

– Leon Tolstói

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