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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

CULTURA DO CANCELAMENTO | Entrevista com o editor Telmo Diniz

Revista Mensal
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

“O maior problema que eu vejo é que as pessoas que optaram por esse cancelamento estão reagindo a uma palavra: ‘conservador’. Elas leram ou ouviram que publicarei obras de viés conservador e, de imediato, reagiram a isso. Assim, o que podemos perceber da situação é a força que tem a linguagem”

Na medida em que se multiplicam novos empreendimentos editoriais com foco em publicações conservadoras no Brasil, cresce a sanha dos canhotos canceladores de plantão. Foi o que aconteceu com Telmo Diniz, editor estreante e fundador dos selos Saquarema e QS Comics, antes mesmo que as primeiras obras de suas editoras viessem a lume.

Os fatos se desenrolaram a partir da publicação de uma matéria de Érico Assis, da Omelete, elogiando a publicação da graphic novel Apesar de Tudo, de Jordi Lafrbre, pela QS Comics, e ao mesmo tempo lamentando que tal publicação esteja sendo viabilizada por uma “empresa de viés conservador” (seja lá o que isso queria dizer). Érico foi até honesto em não disfarçar seus posicionamentos francamente à esquerda, mas, como atenta o próprio Telmo Diniz, ele talvez tenha se valido, por meio de seus comentários, de um dog whistle, um apito de cachorro para chamar sua patota canhota a promover o cancelamento da editora.

Intencional ou não, apito funcionou, pelo menos entre os caninos histéricos – um deles, inclusive, em um vídeo em seus stories no Instagram, não poupou o próprio Érico de críticas por promover este “odioso” empreendimento em vez de condená-lo ao silêncio. Além disso, algumas portas que já haviam sido abertas para a promoção das novas QS Comics simplesmente foram fechadas, com colegas editores simplesmente dando as costas ao editor estreante e silenciando-se sobre seu trabalho.

Apesar de Tudo e Esperanças Destroçadas: Tiananmen 1989, as duas primeiras publicações da QS Comics

Entre o silêncio e o ódio furioso, eis a cultura do cancelamento, que se traduz, em última instância, no desejo da pura e simples inexistência, no não-direito de existir, na eliminação física daqueles que não pensam como você – e por “aqueles”, leia-se todo a qualquer conservador. Eis aí as verdadeiras aspirações dos defensores da justiça e da democracia.

A boa notícia é que o mercado consumidor das ditas “obras de viés conservador” é vasto e ávido de novidades, e toda a histeria dos canceladores de plantão só se acaba traduzindo em maior interesse desse público pelos “cancelados”, que, quanto mais são atacados, mais crescem. É isso que prevejo que acontecerá com as iniciativas de Telmo, com quem conversei e cuja conversa resultou na entrevista a seguir.

 

Esmeril News: Telmo, em primeiro lugar, fale um pouco sobre você e sobre como acabou se tornando editor – esta é uma história bastante curiosa.

Telmo Diniz: Foi um longo percurso. Sou formado em Direito. Por cerca de 10 anos fui assessor de um magistrado. Desde as manifestações de junho de 2013 passei a me interessar mais por política. Em 2019 participei como voluntário de um projeto do Movimento Brasil Conservador (MBC). Eu era uma espécie de copidesque do site Brazil Uncovered.

Depois disso criei o PLCA – Prêmio Livro Conservador do Ano, mas o projeto acabou não indo adiante por falta de apoio. Não dá para fazer tudo sozinho. Nessa trajetória, de muito estudo e trabalho, sempre tive contato com os livros. Nos últimos anos tenho acompanhado mais de perto o mercado editorial brasileiro. Criar uma editora me pareceu o rumo natural a seguir.

Esmeril News: Fale um pouco sobre a Editora Saquarema e seu selo QS Comics. Qual é a proposta de tais selos, os títulos já publicados e no prelo etc.

Telmo Diniz: Como o próprio nome sugere a QS Comics publicará quadrinhos. Para ser mais específico, graphic novels. Estão em pré-venda atualmente Esperanças Destroçadas: Tianamen 1989, de Lun Zhang, Adrien Gombeaud e Améziane, e Apesar de Tudo, de Jordi Lafebre. A primeira trata dos eventos que culminaram no Massacre da Praça da Paz Celestial, na China. Já a segunda, vencedora do Prêmio Albert Uderzo de melhor quadrinho de 2020 na Europa, conta a história de amor entre Ana e Zeno, ambos já na casa dos sessenta anos. Por hora são esses os títulos da QS.

Quanto à Saquarema, publicaremos Hipermoral, do filósofo alemão Alexander Grau, e Antifa Revelada, de Andy Ngo, este último um best-seller nos EUA. Temos outros títulos estrangeiros já licenciados, mas a divulgação só ocorrerá no próximo ano. Enquanto a QS nos entretém, a Saquarema nos faz pensar. Em resumo, é essa a proposta.

Esmeril News: A publicação da graphic novel Apesar de Tudo ocasionou um artigo ao mesmo tempo honesto e tendencioso, assinado por Érico Assis, da Omelete, e um certo burburinho entre a ala esquerdista dos geeks, que querem seu cancelamento e não pouparam, inclusive, críticas ao próprio Assis pela divulgação de seus selos editoriais. Comente esta situação.

Telmo Diniz: Acho que o Érico Assis foi extremamente correto em divulgar o que estava se passando nos bastidores do mundo dos quadrinhos. É o que se espera de um jornalista. O artigo poderia, talvez, ser visto como um dog whistle (apito de cachorro em tradução literal), termo americano para o uso de uma linguagem que tenta, sem chamar a atenção, passar um comando para uma audiência específica. Sob essa ótica, o artigo seria um convite tácito ao cancelamento, embora reconheça que o autor de um texto nunca tem controle total sobre a receptividade do que escreve.

Uma coisa que chamou minha atenção no artigo do Érico é que ele afirma que Apesar de Tudo foi a melhor leitura dele neste ano. Acredito que se não tivéssemos uma obra tão renomada em nosso catálogo, o artigo sequer teria sido publicado.

Esmeril News: Em seu artigo o Érico Assis afirma que viu conteúdo político em Apesar de Tudo, enquanto você parece discordar. Para evitar spoiler o Érico não se aprofundou na questão. Você poderia falar um pouco sobre isso?

Telmo Diniz: Apesar de Tudo conta a história de Ana e Zeno, duas pessoas que por anos a fio nutriram um amor platônico um pelo outro e que se reencontram quando já estão na casa dos sessenta. A obra tem um elemento machadiano. Não vou entrar em detalhes, mas algumas pessoas acham que existe uma traição ali, outras acham que não. Eu tenho a minha opinião sobre o assunto e acredito que cada um terá a sua própria.

O Érico acha que esse aspecto da história “pode irritar conservadores que defendem a sacralidade da família”. Achei isso uma tremenda bobagem. Apesar de Tudo é obra de ficção, não um manual de como se deve viver a vida, por isso não acho que tenha qualquer conteúdo político. Em um artigo do próprio Érico ele afirma que “você precisa dar tempo ao quadrinho”.

Acredito que tem um aspecto de Apesar de Tudo que pouquíssimaspessoas se deram conta (na verdade, nunca vi ninguém mencionar), mas sobre isso eu não posso falar, seria spoiler.

Esmeril News: Qual foi o seu sentimento quando se deu conta de que seria alvo dessa Cultura de Cancelamento?

Telmo Diniz: Decepção. Curto quadrinhos e acompanho o trabalho de muitos dos influenciadores e editores desse meio. Enviei mensagens para vários deles informando sobre as graphic novels que a QS Comics lançaria. A resposta foi um silêncio sepulcral. O Sidney Gusman, por exemplo, que além de editor da Panini é um dos criadores do site e podcast Universo HQ (UHQ), chegou a postar um comentário no Instagram, onde dizia que eu podia contar com a equipe do UHQ para fazer a divulgação das obras. No mesmo dia ele chegou a se tornar um seguidor da editora, mas isso durou poucas horas. Embora não tenha apagado o comentário, deixou de seguir nosso perfil e nunca respondeu meus e-mails. Com o Fora do Plástico, uma excelente criação dos jornalistas Pedro Ferreira e Mariana Viana, foi a mesma coisa. Nunca responderam.

O maior problema que eu vejo é que as pessoas que optaram por esse cancelamento estão reagindo a uma palavra: “conservador”. Elas leram ou ouviram que publicarei obras de viés conservador e, de imediato, reagiram a isso. Assim, o que podemos perceber da situação é a força que tem a linguagem. O imaginário dessas pessoas é mais forte que a própria razão. Criaram um espantalho ideológico e o atacam. Tamanho é o poder das palavras que, sem perceber, se tornaram um prato cheio para os demagogos de plantão. Basta usar a palavra certa entre eles e a adesão será imediata. E o que é pior… Acabam por estimular seus seguidores e admiradores a reproduzir o mesmo comportamento impensado. Citando Alexander Grau: “Assim como a estética kitsch, o moralismo kitsch se baseia principalmente no sentimentalismo. Seu campo é a sensibilidade exibida. A bondade é comprovada com sentimentalismo. Quem consegue fingir indignação da maneira mais convincente é considerado extremamente bom. E o melhor fingidor é aquele que nem percebe que está fingindo.”

Esmeril News: Justa graphic novel Esperanças Destroçadas: Tiananmen 1989 “cutuca um bicho” que tem sido poupado pela grande imprensa em todo mundo – sobretudo em relação à pandemia da Covid-19 – o Partido Comunista Chinês, e vem à lume, aqui no Brasil, no final deste biênio pandêmico. Houve algum estímulo para que essa publicação saísse agora ou foi apenas uma feliz coincidência?

Telmo Diniz: Minha intenção ao publicar esta obra, lançada em 2019 na França e até então ignorada pelo mercado editorial brasileiro, era trazer luz sobre um evento que é mais impactante do que normalmente se supõe. Todos conhecem aquela emblemática imagem de um homem que impede o avanço de uma fileira de tanques, mas em Tiananmen ocorreu muito mais do que isso. O fato de vir a ser publicada neste momento foi fortuito.

Esmeril News: Voltando à cultura do cancelamento, da qual está na mira, como encara o fato de ela ser promovida e defendida por aqueles que dizem defender a liberdade, a diversidade, a democracia etc.?

Telmo Diniz: É claro que ninguém pode ser obrigado a falar sobre o que não quer. Se os influenciadores do mundo dos quadrinhos querem ignorar a QS Comics, eles podem fazer isso. O que não podem fazer é impedir a desaprovação que advirá daí. Uma reação tão radical como o cancelamento é esperada em resposta a uma ação também extremada. E qual teria sido a ação praticada pela Saquarema? Nenhuma! Bastou saber que Andy Ngo será publicado e temos aí todo um nicho do mercado editorial (editores, influenciadores e até mesmo lojas especializadas) fechando as portas para a QS Comics. De roldão, fecham os olhos para a premiada Apesar de Tudo. Se não existe compromisso em se divulgar uma graphic novel tão celebrada, com o que haverá?

Esmeril News: Você imaginava causar uma reação tão forte?

Telmo Diniz: Eu achei que causaria um certo burburinho, um incômodo, o que nos levaria a um debate, pelo menos entre os admiradores de quadrinhos. Mas o cancelamento é o oposto disso. É a fuga do debate. Além disso, não estou certo se a explicação seja meramente política.

O mercado editorial sofreu muito nos últimos anos. A FNAC deixou o Brasil, a Saraiva e a Livraria Cultura estão em recuperação judicial e, para completar, as demais livrarias precisaram ficar de portas fechadas em 2020 por conta da pandemia. Resultado: as editoras mandaram muitos funcionários para a rua. Não é à toa que vemos pessoas antes ligadas a grandes editoras criarem as suas próprias. Se foram mandadas embora ou se pediram as contas por terem vislumbrado uma oportunidade, eu não tenho como saber.

Outra coisa que me chamou a atenção nessa história de cancelamento é o grau de afinidade entre todo o meio. Até aí, tudo bem. Acho até louvável que concorrentes, pessoas que trabalham para diferentes editoras, sejam tão próximas. O problema é quando se valem dessa proximidade para boicotar uma empresa que não pertence à “panela”. Aí a coisa ganha outra dimensão.

Esmeril News: Acompanhando o movimento do presente mercado editorial, te asseguro o seguinte: a cultura do cancelamento só vai te fazer crescer e prosperar. Portanto, para finalizar, gostaria apenas que você falasse sobre os planos futuros de seus empreendimentos nessa área: expansão, novos títulos e selos em vista etc.

Telmo Diniz: Faço tudo por conta própria. A empresa não tem nenhum funcionário. Nos termos do Érico Assis, sou um “homem-editora”. Aliás, isso ajuda a entender o porquê de atacarem minha pequena e recém-criada empresa. Quanto ao futuro, vou dando um passo de cada vez. Por hora a meta é cuidar dos títulos recém-lançados, mas uma coisa eu garanto: vai ser difícil nos ignorar por muito tempo.


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