Deixe a correnteza seguir seu caminho

Para Lenita era a melhor comida do mundo, a mais cheirosa, ainda mais quando acompanhado de arroz papa no leite de coco. Pimenta só umas gotinhas. Nem caruru, que era o mesmo camarão com quiabo mais castanha de caju, amendoim, dendê e tempero a gosto ela trocava por camarão com quiabo, simples, com aquele caldinho e azeite doce misturado ao arroz com leite de coco.

De tanto gostar era o prato que aparecia à mesa duas vezes por semana, quando seu Calu encostava a canoa no portinho do rio e saía com o cesto entregando peixe e camarão à freguesia. Chegava à bodega com o camarão separado, escolhido.

– Aqui a encomenda de dona Lenita, seu Valdo.

– Foi boa a pesca Calu? Estão bonitos… Tem até um pitu aqui…

– Como sempre, na vontade de Deus.

– Vai levar alguma coisa hoje?

– Mais tarde pego gás para os candeeiros. Vou indo que tem chão pela frente, seu Valdo.

– Deus lhe acompanhe Calu.

A conversa já parecia um disco arranhado de tanta repetição, por tanto tempo. Mas naquele dia foi diferente. Vamos voltar no antes, para falar de uma pessoinha que cruzava a cidade várias vezes por dia, um doidinho, que recolhia todos os papéis, maços vazios de cigarros e ia enchendo os bolsos. Não falava. Sorria para todos. Só ficava alvoroçado quando um bando de crianças começava a provocá-lo com brincadeiras, umas inocentes e outras cruéis.

– Parem com isso meninos! Ele não pode se defender!

A turminha corria e o doidinho era sempre acolhido por alguém maior, que oferecia uma fruta, um pão, um copo de água. Fome ele não passava. Aqui, ali, acolá, sempre havia um prato de comida. Dizia-se que os doidos sabem de coisas que a gente não sabe. Que vêm coisas que a gente não vê. Que ouvem vozes que a gente não ouve. Por isso ficam deslocados da realidade e Beatriz afirmava que os doidos eram puros como os anjos e viviam com a cabeça num mundo que não conhecemos.

Naquela semana choveu muito lá pelas cabeceiras do rio e a enchente tinha carregado uma parte das estruturas da ponte nova, ainda em construção. O vão primário continuava forte, resistindo à força da correnteza e era uma verdadeira romaria subindo ao ponto mais alto daquele pedaço de cimento apoiado em vigas de madeira, para ver de cima a força das águas que avançavam pelos pastos, deixando tudo que nem um mar amarelo deslocando pequenas ilhas.

Passavam restos de coberturas das casas destruídas, galhos de árvores arrancadas, até uma canoa pequena passou e Ginaldo falou que ia procurar depois e achar enganchada em alguma galhada. O doidinho também foi ver a correnteza e ficou encantado com as ilhas cheias daquelas flores azuis das baronesas.
Talvez por querer tocá-las, atirou-se e a gente gritou “ai meu Deus!”.

Mas não havia o que fazer, não tinha salvação para o pobre doidinho. Sumiu, apareceu ali adiante, sumiu mais uma vez e depois só se ouvia ou outro comentário e a gente voltando pra casa de cabeça baixa, as mulheres dizendo “que Deus o tenha” … Foi uma tristeza só. E motivo para conversas e especulações durante dias.

Como disse antes, a conversa entre Valdo e Calu naquele dia foi diferente. O rio já voltara ao leito normal, correnteza normal, as águas na cor normal e Calu voltou da pescaria fora do normal. Chegou na bodega, descansou o cesto no chão e pediu pela primeira vez na vida:

– Bote uma aí, seu Valdo e me dê um naco de jabá pra tira gosto.

– Que é isso Calu, você não bebe… E os camarões de Lenita, cadê?

– Tem camarão hoje não… Me dá a disgramenta aí, seu Valdo.

A cachaça foi servida, o naco de carne também. O homem arriou-se no banquinho perto do balcão, olhou o sol lá fora, o silêncio, tudo parado… Derramou no chão o gole para o santo, bebeu um trago, emitiu um aha e olhou para Valdo, que estava esperando pra saber da novidade. Calu emborcou o resto da pinga, mastigou a jabá e deu um pulo dizendo, “hoje não vendo nada não…”

– Mas cadê o camarão que Lenita está esperando?

– Tem não seu Valdo… Hoje não, porque pesquei tudo ali no remanso, debaixo da ingazeira grande… Quando vi, enganchado nos galhos estava o corpo do doidinho. Fui puxar pra fora e deixar no jeito, pra voltar com gente e trazer pra enterrar. Foi aí que vi os camarões que nem um formigueiro… comendo o corpo. A cara não tinha mais olho, nem a boca tinha beiços… E no lugar da barriga… Nem sei o que dizer… Coisa feia de ver.

O corpo foi resgatado numa rede e enterrado na presença de gente caridosa e compassiva. A história do Calu correu de boca em boca. Uma cruz com a inscrição “João doidinho” foi fixada na cova.

A professora pediu aos alunos pra rezar um “Pai Nosso” pela alma que de tanto vagar pela vila já era considerada um ser familiar, pelo menos digno de compaixão.

No dia seguinte a meninada estava silenciosa e a professora adivinhou que a tragédia perpassava os pensamentos. Tomou o giz e escreveu no quadro negro: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Logo abaixo escreveu: “Tudo que você come se transforma em sangue e músculos”.

Rosilda levantou a mão. “Fale”, disse a professora.

– O camarão comeu o doidinho. Se a gente come o camarão vai comer o doidinho?

A gargalhada foi geral, seguida de silêncio. Mas a Rosilda insistiu:

– Não vou comer camarão! Nunca mais.


Na página “IMPÉRIO SATANISTA” a referência: (1) LITERATURA BRASILEIRA Sermão de Dia de Ramos (1656), do Padre António Vieira.


Está morto: podemos elogiá-lo à vontade.

– Machado de Assis; O Empréstimo

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