Foram encontrados quatro micro-organismos dos quais três eram desconhecidos pela Ciência

Imagine, fino leitor, a seguinte cena: um grupo de cientistas empreende uma viagem de rotina até a Estação Espacial Internacional, a International Space Station, ISS, com a missão de levar mantimentos para os camaradas no espaço, fazer pequenos reparos nos equipamentos e, claro, recolher o lixo dos colegas em órbita. A cápsula que os transporta aprochega-se da Estação Espacial, todos se preparam para a acoplagem. Pequeno choque. Ato contínuo: eufóricos, um a um os recém-chegados são recepcionados pelos camaradas com abraços desajeitados, afetados pela ausência da gravidade. Instalam-se e, compenetrados pelas exigências do quotidiano da missão, caem numa monotonia improvável para um grupo de pessoas que vive no espaço. Dois meses se passam. O apogeu da narrativa, leitor atento, é a descoberta de um ser estranho vivendo entre eles; um organismo oriundo do éter espacial que, pelos meios que só os escritores dos roteiros de Hollywood conhecem, encontrou um jeito de também se instalar entre os humanos na Estação Espacial e, literalmente, tocar o terror.

A cena supra fora, obviamente, retirada de um filme contemporâneo sobre as possibilidades de existência de vida d’além-Terra. A insatisfação que muitos nutrem pela existência aqui é tamanha que, durante centenas de anos, pelo menos desde o nascimento da Ciência Moderna, escritores, cientistas, homens práticos e teóricos de todas as origens e escolas de pensamento se esforçam para concentrar a atenção de quem os ouve na busca por sinais de vida extraterrestre. Atualmente, tal busca, já consagrada (e, paradoxalmente, desqualificada) pela mídia, tem até uma “ciência” inteiramente dedicada para si: a Ufologia. Não só. Claro, no âmbito “formal” das investigações, os “cientistas de verdade” lançam mão de todo o instrumental que a ciência da Astrobiologia oferece para a busca de formas de vida alienígena. Os métodos divergem, claro, mas a intenção é sempre a mesma: encontrar vida para além da Terra, desse planeta cinzento, inóspito, insalubre; no qual a abundância de vida é uma realidade desconhecida.

O interesse é tão profundo que basta alguém esbarrar numa bactéria na superfície da mesa de jantar usada pelos astronautas para despertar o burburinho sobre vida alienígena. A algazarra da vez começou há cinco dias, quando, numa publicação no periódico Frontiers in Microbiology, fora divulgado que um grupo de pesquisadores composto por cientistas americanos e indianos, em colaboração com a NASA, descobrira algumas bactérias na ISS, o isolamento e catalogação das criaturas, no entanto, aconteceu há muito tempo, entre 2011 e 2016. Ao todo, a quantidade de bactérias encontradas soma o montante de 4(!). A primeira bactéria fora encontrada num filtro de ar, trazido à Terra em 2011; as outras três, entre 2015 e 2016, estavam, respectivamente, num painel eletrônico de uma estação de pesquisa da ISS, no painel do módulo adjacente, e na superfície da mesa de jantar dos homens do espaço.

Entretanto, somente a criatura encontrada no exaustor do filtro de ar pôde ser reconhecida: trata-se da Methylorubrum rhodesianum. Esta e as outras cepas pertencem a uma família de bactérias encontradas no solo e na água doce e, por estarem presentes no processo de fixação do nitrogênio, indicam um bom crescimento de plantas e evitam o surgimento de patógenos possivelmente prejudiciais ao desenvolvimento dos vegetais. As outras cepas, inéditas, foram nomeadas, em caráter provisório, de IF7SW-B2T, IIF1SW-B5 e, reforçando a aparência esotérica da nomenclatura científica, IIF4SW-B5. As análises genéticas, segundo os pesquisadores envolvidos na investigação, revelaram que elas são parentes próximas da conhecida Methylobacterium indicum.

Como pôde perceber, caro leitor, de alienígenas as bactérias só têm o nome. Essas criaturas microscópicas foram levadas para o espaço pelos astronautas durante as suas muitas incursões até a ISS. Objetivamente, contudo, o estudo de formas de vida no ambiente controlado da Estação Espacial pode favorecer a investigação de melhores métodos de cultivo em estufas sob o efeito da ausência de gravidade. Dois dos autores do estudo Kasthuri Venkateswaran e Nitin Kumar Singh, afirmaram que o isolamento desses micróbios é essencial para o cultivo de plantas em condições extremas, como é o caso da Estação Espacial. Seja como for, a novela está longe do seu desfecho, pois notícias como esta estão longe de acabar; existem outras 100(!) amostras à espera de transporte de volta para a Terra a fim de serem também analisadas. Está em aberto, portanto, o número real de micro-organismos que poderão ser utilizados nos processos de desenvolvimento de alimentos e de outros recursos para a intrépida equipe da International Space Station

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