VITOR MARCOLIN | Sangue de Mártir

Vitor Marcolin
Vitor Marcolin
Ganhador do Prêmio de Incentivo à Publicação Literária -- Antologia 200 Anos de Independência (2022). Nesta coluna, caro leitor, você encontrará contos, crônicas, resenhas e ensaios sobre as minhas leituras da vida e de alguns livros. Escrevo sobre literatura, crítica literária, história e filosofia. Decidi, a fim de me diferenciar das outras colunas que pululam pelos rincões da Internet, ser sincero a ponto de escrever com o coração na mão. Acredito que a responsabilidade do Eu Substancial diante de Deus seja o norte do escritor sincero. Fiz desta realidade uma meta de vida. Convido-o a me acompanhar, sigamos juntos.

Diário de um paroquiano de cidade (parte 1)

Agradeci aos céus pelo friozinho sempre bem-vindo. No calor tudo parece ganhar um aspecto repulsivo, como a pele suada dos garis em dia de coleta no bairro – é sempre gratificante vê-los sorrir depois que lhes entregamos a caixinha, os copos de guaraná, as acerolas recém-colhidas no terreiro da vizinha… No calor, até os pensamentos ficam moles, gelatinosos, inconsistentes… fracos.  

Li numa biografia de Albert Einstein – provavelmente numa daquelas biografias que surrupiei da biblioteca da escola – que, quando de sua visita ao Brasil, nos anos 1920 – acho que foi em 1926… o presidente devia ser o… Arthur Bernardes? Já não me lembro –, o cientista declarou que o calor excessivo nos trópicos impedia o sucesso do trabalho intelectual. Se saísse no jornal hoje em dia seria censurado pela polícia do politicamente correto. Onde já se viu? Que declaração preconceituosa deste cientista insensível! Como ousa dizer tamanha obviedade sobre as terras tropicais?! 

Penso que se a declaração de Einstein tivesse sido qualquer coisa difícil de entender à primeira vista, como a descrição teórica dos buracos de minhoca ou, melhor, aquela de que “tudo é relativo”, não haveria problema. Naquela época as pessoas gozavam ainda de relativa liberdade… Einstein teve diarreia depois de comer vatapá… bem-feito! Coitados dos seus vizinhos de quarto no hotel carioca Marina da Glória.  

Não vou à missa neste Domingo.  

Só fui à missa hoje porque tive de entregar um livro prometido a um amigo. O danado não parou de importunar. Nós conversávamos sobre a Teoria da Relatividade. Eu me vali das baboseiras que li e reli na juventude e que ficaram gravadas na minha memória. Engraçado: eu podia ter decorado coisa melhor, mais objetiva, mais próxima da minha realidade observável… Que raios eu tenho que ver com buracos de minhoca, tecido do espaço-tempo, viagens no tempo?  

Aliás, isso eu ouvi do finado Stephen Hawking: a melhor prova de que a viagem no tempo não é possível é o fato de que ainda não fomos inundados por massas de turistas vindos diretamente do futuro! Eis aí uma declaração muito da coerente do cientista da super cadeira de rodas! Quem é que não viria testemunhar a eleição do atual presidente, a prisão do presidente anterior… o bem encenado 7X1, o 11 de setembro, o muro de Berlim, a Apolo 11, Hiroshima e Nagazaki, o Zeppelin, o desembarque na Normandia, a quinta-feira negra, os tiros no casal de arquiduques d’Áustria, os acenos da Princesa Isabel a Santos Dumont nos céus parisienses… Napoleão, Carlos Magno, Júlio César… São Pedro, o Gólgota?  

Stephen Hawking tinha razão. 

O livro que emprestei ao amigo na missa outro dia era o Einstein, sua vida, seu universo, do jornalista americano Walter Isaacson. Sei que nunca mais verei meu livro, meu precioso…  

É evidente que nós, cristãos, somos levados a reagir à realidade cotidiana em todas as fases da vida. De indiozinhos recém-catequizados a velhos recém-libertos do paganismo, todos temos de decidir, fazendo bom uso de nosso livre-arbítrio, como reagir às dificuldades, às tentações, às provações que, implacável, a própria vida nos impõe. A partir da idade da razão, o indivíduo recebe, como irônico presente, uma canga cujo peso é a consciência das palavras proferidas no credo.  

É evidente também que cada qual reage, à sua maneira, valendo-se de sua maturidade. No caso dos mancebos que, sob diversos aspectos, ainda não estão resolvidos na vida, as tribulações podem começar mesmo antes do ite, missa est

À vista da justeza das calças jeans, as contingências do sangue podem se manifestar com especial intensidade. Fui testemunha ocular de uma cena tragicômica. Numa missa – devia ser tempo comum – o comportamento estranho de um rapaz chamou-me a atenção: sempre que ele punha-se de pé, sua cabeça nunca seguia a linha do seu corpo, como se ele quisesse livrar-se de uma vista desagradável.  

Não era desagradável, absolutamente; a vista era maravilhosa! Uma moça à sua frente, estranhamente vestida, exercia sobre a alma do sujeito um eficientíssimo impeditivo para o ingresso de sua alma no Paraíso. Julguei que, pelos seus trejeitos, o rapaz lutava para não cair na facílima tentação da cobiça. A assembleia, seguidamente ao padre, levantava-se, sentava-se, ajoelhava-se, e lá ia o rapaz, a cumprir com zelo as demonstrações corporais de assentimento à liturgia, mas sempre com jeitos e trejeitos esquisitos.  

A jovem mulher era hábil na infame arte política de servir a dois senhores: o véu branco bordado com motivos vegetais cobria-lhe ternamente a cabeça e parte do que devia ser longos cabelos louros. A sofreguidão do sujeito para evitar olhar para o rego da moça nos momentos de senta-levanta na missa foi a coisa mais engraçada que eu testemunhei naquele dia.  

Eu vi mais do que ele, e devo ter pecado mais do que ele também. Mas, ipso facto, posso me confessar melhor.  

Ele não pôde entrar porque não usava máscara — eu soube disto depois. Antes de retirar-se, no entanto, ele fez uma genuflexão seguida pelo sinal da cruz. Eu quis ir atrás, mas fui contido pelo sino a anunciar o início da celebração… À saída, a um canto, lá estava meu amigo a chamar-me.  

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