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terça-feira, 19 outubro, 2021

Vida Clandestina

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

A identidade tolhida, resta se reconhecer apenas nos sonhos

Entrou pelo corredor lateral da casa, caminhou até o pátio de serviço nos fundos, que dava acesso ao quarto alugado, sem janelas, onde as baratas residentes, vez por outra, no escuridéu da noite, mordiam e sopravam as pontas dos dedos e os lábios, no proveito do resto meloso dos doces que ele comia, enquanto lia antes de adormecer imaginando sinfonias e bailes com ninfas vestidas em trajes diáfanos.

Meteu a chave na velha fechadura, deu duas voltas e entrou, sentindo o cheiro do chão encerado pela solitária dona Carlota, a senhoria e carente espanhola, que o tratava como se fosse um sobrinho. Procurou o fio com o interruptor que descia do centro do teto, percorria uma parábola e se enroscava feito cobra cipó na cabeceira da cama. Acendeu a lâmpada e identificou a presença silenciosa dos poucos objetos.

Misturando a ânsia de clandestino à tranquilidade irresponsável da solidão lembrou que passaria mais uma noite andando pelas ruas, porque os tambores do centro espírita do outro lado da parede já começavam a entregar às mãos rápidas do vento a invocação dos orixás, fazendo tremer o quadro da face de Jesus que olhava os quatro cantos do quarto espartano, onde a cama Faixa Azul, ladeada pela mobília de caixotes pintados em vermelho abrigavam alguns livros e revistas velhas.

Naquelas noites em que as paredes tremiam, o quadro de Jesus descia para descansar entre os restos de bolacha, um copo e uma moringa, que moravam encostados à parede lateral. Melhor que espatifar-se no chão com a tremedeira das paredes recheadas de espíritos inquietos.

Lá fora, no alto céu, a luz da lua cheia vigiava a terra iluminando os caminhos obscuros, como querendo ajudar aos homens. No pátio, se refletia no espelho de água de chuva que se juntara na bacia, estrategicamente colocada abaixo do gotejar das telhas. Pensou no banho de gato e tirou a camisa. Pegou a toalha, o saco plástico com os objetos de higiene, ajeitou o caco de espelho entre os pregos e viu os olhos castanhos, ‘inda com brilho de esperança reminiscente da adolescência perdida quem sabe quando. Olhos que riam para a planta que se mostrava verde, pendente do muro, sorvendo o restinho da luz misteriosa do entardecer. Luz que logo fugiria amedrontada com vibração sonora dos tambores que preencheriam cada poro do espaço.

De repente um silêncio e logo uma voz gritando de dentro para fora, que havia muito que fazer antes que os lábios colados e as pálpebras fechadas sobre aqueles olhos castanhos que o miravam lá dentro do caco de espelho, pedintes, que nem olhos de cachorro sem dono estivessem mortos em mais um corpo crivado de balas, prestes a ser devolvido para integrar o pó da terra.

Sua alma invisível veria o corpo ser enterrado, afastando-se sem a companhia de um livro ou coberta para abrigar-se do frio. Pra que? Olhos fechados não poderiam ler. Corpo morto era insensível como a terra que o cobria. A alma continuaria nos espaços da eternidade.

Os caras da organização, que assaltavam bancos para o provimento de clandestinos que nem ele, jamais aceitariam a crença em Deus e na eternidade. Viver assim, enganando os outros era uma tortura. Cobrir pontos de encontro com desconhecidos, esconder mensagens em buracos de muros, andar pela cidade esperando as ordens de pessoas que estavam em segurança confortável, pessoas de cara desconhecida e intenções obscuras era cansativo. Melhor que uma cela de prisão sim. Pelo menos podia respirar o ar puro no Jardim Botânico e observar a tranquilidade dos bichos enjaulados no Zoológico.

Naquele bairro, um ponto na periferia da cidade, todos pareciam conhecer-se e saber das virtudes e defeitos, reparando nos sonhos e anseios uns dos outros, escondendo desejos inconfessáveis, fingindo religiosidade e vida virtuosa. Era quase uma regra escamotear as verdadeiras intenções, falar o contrário do que ficava guardado nos mais profundos recantos d’alma.

Era hipocrisia mesmo! Pensar dum jeito e agir diferente. Mentes humanas complicadas, desconfiadas, temerosas, esperando a iniciativa dos outros, ou qualquer tragédia daquelas descritas nos jornais que pingavam sangue se espremidos.

O que será que impede a gente de usufruir cada dia da vida com sinceridade e prazer? Como varrer da memória velhos ensinamentos e fronteiras e preconceitos que entortam a mente como o cachimbo entorta a boca?
Molhou o pincel de barba na bacia, passou no sabonete e depois no rosto, fazendo espuma cheirosa. Pegou o aparelho com gilete e começou a raspar os fios ralos e esparsos. O mundo parecia enjeitar as pessoas que desejavam cultivar as fortes teias da humanidade civilizada, ajudando-se em respeito mútuo, como semelhantes, como ensinavam os mais velhos. Por fora, cada quem se esforçando pra parecer virtuoso que nem santo. Por dentro confusão e insegurança, sofrimentos remoídos, pequenas contrariedades, ciúmes e inveja que viravam dor e doença física ou mental.

Gente tentando a cada instante mudar o mundo e mudar os outros, sem perceber que um caminho possível e suficiente seria juntar a solidariedade e respeito ao próximo, trocando a competitividade rotineira, a luta encarniçada pela sobrevivência, por cooperação fraterna com os viventes do mesmo barco, dependentes das leis do mesmo universo.

Mudar aos poucos o ambiente em que se destaca e ganha aplausos o mais forte, como numa briga de galos ou num ringue de boxe, porque as virtudes do espírito são incompatíveis com a competitividade encarniçada, que enaltece vencedores e descarta os vencidos como limões podres depois de espremidos.

Eram pensamentos reprováveis! Acabou de fazer a barba, molhou a toalha com um pouco da água da bacia, passou sabonete, limpou as orelhas e o pescoço. Molhou ainda uma vez e massageou energicamente o peito e as axilas. Molhou mais e jogou pelas costas puxando uma e outra ponta num movimento de esfregar. Sentia os poros que pareciam abrir-se e respirar. Limpar-se era como lavar peças diferentes de roupa, com mais apuro nas partes que pareciam excretar suor e atrair sujeira.

O rosto que emoldurava os olhos por onde entravam as emoções; o nariz que sentia os cheiros, a boca modulava os gestos de aproximação para o beijo e recepção da saliva doce e quente, num ato amoroso que os toques completavam. O pendurado entre as pernas era a chave do prazer. Pensava se poderia casar-se algum dia, mas o medo tecia um bordado estranho, fazendo-o resistir ao chamado natural para o convívio responsável. Admirava e temia as pessoas que tinham o privilégio de viver a vida.

Percebia na verdade dos que transformavam as juras de amor em mágoa e sofrimento diante da menor dificuldade moral ou material, estabelecendo dependências a redução das liberdades que ele prezava. Pisava em ovos, no espaço de um mundo agressivo, contrário ao ambiente respeitoso e amoroso que o envolveu na infância.

Espremeu a toalha no tanque de lavar roupa e estendeu no secador perto do muro. Recolheu os objetos e voltou ao quarto sentindo o corpo leve. O corpo que estava pronto para estabelecer um relacionamento permanente. Mas não! O compromisso afetivo incondicional era proibido para um peão, um auxiliar periférico dos que pegavam em armas para chegar ao poder e dominar todos os outros seres. Num momento pessoas que pareciam semelhantes no abraço e no momento seguinte contendentes mortais.

A vida embalada por sonhos. Alguns com sabor de crueldade. O domínio é contrário à solidariedade. O controle sobre o outro desconhece o amor ao próximo. Amor de mesmo é incondicional. Por que não ser diferente? Compartilhar o saber, o de comer, garantir o abrigo seguro, compartilhar os sentimentos com os mais próximos, e servir, ajudar na construção afirmativa? Que dificuldade essa de ajuizar valores e encontrar defeitos incorrigíveis nos semelhantes em vez de aprender com os exemplos e respeitá-los.

Vestiu-se, verificou na carteira o documento que mostrava um nome que não era seu nome, o retrato e data de nascimento há vinte e cinco anos, mas era como se estivesse nascendo quando acordava para um novo dia para saber mais das verdades infernais, do purgatório da vida, na esperança de chegar ao paraíso por “mares nunca d’antes navegados”. As coisas verdadeiras que realmente eram eternas e importantes revelavam-se a conta gotas. Apagou a luz, fechou a porta e tomou o corredor lateral, imprimindo a cada passo o ritmo de marcha, como um soldado. A lua mostrava o caminho.

Atravessou o portão e andou até a avenida iluminada e barulhenta. Adiante estava a marquise do prédio abandonado, onde miseráveis adultos e crianças repartiam um pão e uma garrafa de refrigerante em franca alegria, como se estivessem felizes! Felicidade e risos na miséria? Era preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre os sentimentos, emoções e razões apreendidas. Ajustar os parafusos como exigia a vida surpreendente a cada passo.

Chegou à esquina movimentada da lanchonete. Na calçada as moças circulavam e se ofereciam discretamente. Logo avistou Elisa e a convidou risonho para um passeio. Mais um encontro semanal para aliviar o corpo, menos a alma atormentada. Mais um retalho de vida antes da rotina obrigatória que na manhã seguinte o levaria quem sabe a que ponto de encontro…


Seu olhar, sempre enxuto e polido, tinha alguma névoa úmida, uma angustiosa expressão de dor de quem não sabe ou não quer chorar.

– Lima Barreto

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