É ao final da vida que seu começo retorna como um fantasma

O dia começava nublado com o bando de periquitos abrigados no bambuzal pedindo impacientes e barulhentos sua ração de quirera. Eram diferentes das rolinhas ‘fôg’apagou’, que frequentavam e faziam ninhos na grande árvore perto do galinheiro.

O velho já sabia: jogava à parte, sob a proteção de uma moita, uma porção generosa do milho triturado. Logo adiante espalhava o milho para as galinhas. Assim, reduzia o fuzuê que elas armavam invadindo o espaço onde os pintinhos compartilhavam a refeição matinal com as meigas e calmas rolinhas.

Pouco antes das sete horas o sol abria espaço entre nuvens de chuva e ele admirava o arco íris, antes de alimentar os cachorros. Lavava as mãos, a cara, penteava os cabelos e sentava-se à mesa de trabalho. Mas que trabalho? Ler sem ter o que fazer com o que aprendia, sem poder compartilhar com o resto da humanidade, nem mesmo com as pessoas mais próximas, que preferiam acreditar nas potocas da televisão, sem perceber que eram conduzidas a afastar-se da vida, emprenhando a mente pelos ouvidos e pelos olhos com fantasias sem serventia.

Tomou mais um gole de café preto com algumas gotas de tintura de própolis, respirou profundamente e lembrou quantos corpos mortos já tinha velado. O pai, a mãe, a mulher que foi sua companheira por mais de 30 anos, alguns amigos e muitos conhecidos. Logo chegaria o dia em que seguiria o mesmo caminho. Aqueles livros ficariam ali. No cinzeiro de cristal restariam as marcas da utilização durante anos. Os bonecos de louça e barro com suas vestes coloridas também, olhando hipnotizados para um ponto indefinido. Na cópia do quadro de Botticelli, a Virgem com o menino parecia fitá-lo amorosamente.

Talvez algum amigo ou conhecido visitando o corpo morto naquele ambiente, pudesse ouvir os sons de palavras, discussões, disputas apaixonadas ou mesmo o silêncio diante dos que pareciam respeitá-lo, guardando muitas dúvidas antes de ouvi-lo e compreender que cada um cumpria missões passageiras.

Naquele dia de agosto, há 50 anos passados, ouviu a notícia que o rádio repetia: Getúlio suicidou-se! Com voz embargada o locutor lia a “Carta Testamento”. Deitou-se na rede. Remanso para aliviar o incômodo de calos e cicatrizes dos ferimentos da alma, que insistiam em sangrar sem alcançar entender como podia ser tão empobrecida uma nação que caminhava sobre tantas riquezas.

Pairava no ambiente confuso uma certeza: a humanidade era empurrada para emaranhar-se num cipoal intrincado, um labirinto obscurecido por promessas. Enquanto se embalava e contemplava o voo dos passarinhos, ouvia as vozes que repetiam mensagens, convites, para que as pessoas seguissem este ou aquele caminho que as levaria às paragens da felicidade, quando se realizasse a profecia do sertão virar mar e o mar virar sertão correndo leite e mel pra todo mundo.

O mel dos lábios de Zulmirinha, com gostinho de erva doce, a vegetação dos cabelos cheirando a jasmim, o vestido tecido de algodão lavado com patchuli, tudo junto para causar uma tonteira prazerosa. A brancura do fino vestido refletia a silhueta do corpo amado à luz e o calor da areia fixava os passos que as ondas mansas apagavam. Vagarosamente, de mãos dadas seguiam em silêncio, vez por outra se olhando e sorrindo. Nem entendia como as imagens, os sons e cheiros daquele encontro retornavam vívidos a cada dia, durante mais de meio século. Remanso na orla do tempo, que fazia esquecer suor, calos e cicatrizes.

A pele morena da mestiça, seus olhos, o jeito doce e o cheiro, tinham enfeitiçado sua adolescência. Nos melhores sonhos voava de mãos dadas com ela, sentindo a brisa e observando os ipês floridos na mata e os coqueiros que emolduravam a praia, as gaivotas e as pessoas pequeninas lá embaixo.
Desligou-se das visões mentais quando sentiu o cheiro das rabanadas que a mulher servia todos os dias no café da manhã. Seu quitute preferido, desde quando os natais eram tempo de presépios e missa do galo. Os dias vorazes trituraram tudo. Restavam as receitas elaboradas pelas mãos de Zulmirinha, as mesmas mãos carinhosas que o afagavam valorizando cada momento.

Quando os filhos e netos enchiam a casa, o alimento servido era comprado quase pronto, “semiprocessado”, como diziam os rótulos, com o “sabor do tempo da vovó”. Era só colocar no micro-ondas por 2 ou 3 minutos para ter o prato acabado, sem o sabor da festa na cozinha, sem a vida das risadas e conversas, a seleção dos componentes do recheio, o convívio das mulheres contando petas ou expulsando os homens que se arriscavam para beliscar alguma coisa. A família tinha perdido a emoção de ser, do mesmo modo que tinha perdido a receita daquelas rabanadas sequinhas por fora e molhadas por dentro com gosto de coco, cheiro de baunilha e vinho do porto.

Até o peru do Natal chegava temperado sabe-se lá com que produtos químicos. Trazia até um apitinho para avisar: “Basta de forno! Tô prontinho pra ser trinchado!” Tudo culpa do Juscelino que modernizou demais e de Jânio também, que deixou o país pobre e sem rumo nas mãos de Jango que fugiu para dar lugar aos soldados que sentaram o cacete nos comunistas e modernizaram tudo com novidade que pra todo gosto, espalhando a tal de televisão que parece a peste, impede a gente de conversar e vive assombrando o mundo com uma mentira atrás da outra. O mundo mudou e o saber dos mais velhos foi para os arquivos.

– Mais uma rabanada?

– Quero meu bem, – respondeu, observando como os cabelos brancos de Zulmirinha eram tão bonitos…

Sorveu o café, levantou-se e alisou os cabelos da neta, que o abraçou pela cintura e acomodou a cabeça em seu peito, como ouvindo seu coração.


É sempre assim. Morre-se. Não se compreende nada. Nunca se tem tempo de aprender. Envolvem-nos no jogo. Ensinam-nos as regras e à primeira falta matam-nos.

– Ernest Hemingway

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