A paisagem humana se degrada, mas no coração se gravam os afetos

Ausente por mais de meio século, o homem de cabelos brancos contemplava a paisagem do local onde vivera quando adolescente, sentindo as mudanças do ambiente, mudanças estranhas, agressivas, sufocantes, no lugar onde viveram casarões de arquitetura solene e poética, rodeados de flores nos jardins, mangueiras e cajueiros. Os fícus e oitis que sombreavam as calçadas tinham sido varridos, privando a avenida do canto dos passarinhos.

Subiu à colina de Santo Antônio, que parecia intocada. Deixando a pracinha andou pela estrada de terra que levava aos sítios e, bem ali onde residira por dois anos, esperava reconhecer algumas árvores olhando pela cerca. Não havia cerca e sim um alto muro com sólido portão tapando tudo. O sítio abrigava grandes torres de transmissão das empresas de televisão.

Deu meia volta um tanto amargurado. Na pracinha parou diante do prédio decadente, abandonado, que abrigava o cine S. Francisco, ponto de encontro alegre e barulhento da meninada que discutia os lances do seriado de Flash Gordon ou Sangue e Espada, sempre exibidos no final das sessões vespertinas que se estendiam das duas da tarde até as cinco e meia, com a exibição do filme dramático, seguido da comédia e o seriado no final.

Os adultos, mais o bando infantil, saíam do cinema para a igreja, onde a Benção do Santíssimo moderava a agitação mundana com o recolhimento agradecido ao Criador. O velho recordou os sons e risos, olhou para a casa do poeta onde, quando menino, entregava o leite todas as manhãs, entrando pela porta lateral da cozinha, onde o homem divertido e falante preparava o café, oferecendo-lhe uma caneca. O poeta havia morrido, mas seus versos de amor estavam nas canções que toda gente repetia, sem ao menos saber quem era o artista, o romântico cantador dos encantos e segredos femininos. Encerrando o passeio aproximou-se da mureta que margeava a colina ao lado da igreja e contemplou a cidade, o rio, a Ilha dos Coqueiros e lá longe o mar sem fim.

Fez o caminho de volta para o centro da cidade identificando algumas construções resistentes que o tinham conhecido na infância: a Biblioteca Pública, o Instituto de Geografia e Estatística, o Palácio do Governo, a Catedral e a Ponte do Imperador construída para o desembarque de Pedro II. Nos jardins, que se espraiavam em frente, estavam conservadas: os fícus podados em forma de cestas, figuras humanas e animais e os flamboyants com suas flores de fogo contrastando com as acácias de cachos amarelos. As duas grandes gaiolas com aves e cotias ainda existiam, despertando as vívidas emoções de adolescente que viu naquele espaço, pela primeira vez, o corpo suave da menina Celina que estava morrendo para dar vida à mocinha com curvas acentuadas, longos cabelos negros arrumados em trança e olhos também negros, profundamente negros e desafiadores como querendo dizer aos rapazinhos:

“Não se meta a besta comigo, viu?”

Ela caminhava pela calçada à beira rio com passo firme, abraçando os livros parecendo tímida enquanto saboreava o que mais gostava além de ler romances: as casquinhas com sorvete de chocolate da cor brilhante de sua pele quente e do sorvete gelado. Olhava tudo ao redor e ria de nada entre as colegas que pareciam venerá-la talvez pensando:

“Queria ter essa coragem e essa beleza”.

Estavam bem ali, adiante, embaixo de uma figueira, apreciando o desfile das meninas e comentando entre risos os encantos de cada uma – cabelos, olhos, sorriso, peitinhos, curvas, jeito de andar -. Cada um primava por exercitar os primeiros passos da conquista, uns tímidos e outros mais atrevidos, como o Valmor, que naquele dia encontrou o que buscava. Quando as meninas se aproximaram ele se colocou diante delas, dramatizando:

Belezuras! Toquem no meu coração! Está acelerado só de vê-las!

As meninas riram e tentaram seguir adiante, mas Valmor se colocava diante de uma ora de outra, numa dança que impedia a passagem até que uma o empurrou e passou. Sem desistir ele tascou uma tapinha nas nádegas da menina que saiu correndo. Valmor virou-se com riso de vitória sem perceber que Celina estava a postos para esmagar o sorvete de chocolate no nariz do atrevido. Logo encarou o grupo e caminhou altiva, com passos firmes, ao encontro das amigas. Reunidas, ainda olharam para o grupinho de moços surpresos. A sonora e cristalina gargalhada das mocinhas chegou até eles como um tapa. Elas atravessaram a avenida e sumiram numa rua adjacente.

Ele sabia do costume de Celina: todos os dias passava no mesmo horário pela Sorveteria Primavera e pedia a casquinha de chocolate. Foi ali que a abordou:

– Posso pagar pra você?

– E isso por quê?

– Pelo prazer de conhecer você… Podemos conversar?

Ela o olhou nos olhos como querendo ver a alma e respondeu:

– Vamos nos sentar ali. Como é seu nome mesmo?

– José Simões Rosa

– Da família do médico ou do poeta?

– Nenhuma das duas… E você?

– Celina… Você estuda no Jackson ou no Tobias?

– No Jackson e você?

– No Colégio das Freiras, mas não vou ser freira, viu?

Riram e os encontros passaram a ser quase diários regando a amizade crescente com a troca de livros de poesia e romances, além de encontros furtivos à sombra do cajueiro nas cercanias da casa onde ela morava, logo ali, na Praia Formosa que abrigava a formosura maior de Celina.

– Céu… – era assim que a chamava na intimidade que se formara – domingo de manhã vou cantar no programa de calouros na Radio Difusora. Ouça, que o que vou cantar é dedicado a você.

– Não sabia que você era cantor… Vou ouvir, sim.

O animador do programa chamou os calouros ao palco e cada um foi dando seu recado. Quando chegou a vez de José, que integrava o coral juvenil da ACM, a interpretação foi merecedora de um longo aplauso e do prêmio do dia, duas entradas para a apresentação dos Meninos Cantores de Viena que estavam na cidade a convite da Associação de Cultura Artística. Céu o acompanhou aplaudindo o espetáculo de rara beleza.

¡Qué bonitos ojos tienes!
Debajo de esas dos cejas
Debajo de esas dos cejas
¡Qué bonitos ojos tienes!
Malagueña salerosa
Besar tus labios, quisiera
Besar tus labios, quisiera
Malagueña salerosa
Y decirte, niña hermosa
Eres linda y hechicera
Eres liiinda y hechicera
Como el candor de una roooosaaa!

Chegou o momento da despedida. Toda a família estava da mudança para o Rio, capital que a província conhecia pelos filmes da Atlântida e imagens da revista “O Cruzeiro”, filmes que atraiam filas imensas e revista que começava a ser lida pela última página, onde “O Amigo da Onça” aparecia. A disputa para comprar “O Cruzeiro”, que chegava na segunda feira de tarde pelo avião da Panair, com novidades e modas, também era digna de filas. Depois de lida passava às mãos dos vizinhos percorrendo o quarteirão durante a semana.

Como presente de despedida, encontrou Celina na sorveteria Primavera, comprou duas casquinhas de chocolate e se sentaram no banco de pedra à sombra dos fícus. Silentes, logo falando baixinho o que dizem os namorados juvenis jurando amor eterno. A vontade reprimida olhando aquela face e aqueles cabelos que vez por outra acariciava com timidez e tremor nas mãos, o desejo de tomar a face que povoava os sonhos e beijar, como nos filmes, o coração saltando feito cabrito. O mais que avançou foi pegar na mão suave e quentinha nos passeios. Mas naquele dia foi diferente. Entregou-lhe o presente envolto em papel colorido: o livro “Romeu e Julieta” e uma blusa branca bordada a mão nas mangas e na gola. Ela abriu o pacotinho e disse:

– É linda… Vou guardar a vida inteira.

– É pra usar e lembrar de mim. Vou estudar e trabalhar o bastante pra casar com você. Me espera?

– Espero – ela respondeu, rindo, tímida e bela apertando minha mão.

Era um dia de domingo e saíram a passear pela orla do rio, de mãos dadas, em silêncio, ouvindo os pensamentos um do outro. Caminharam assim até o bangalô onde ela morava. Embaixo de um cajueiro florido, a despedida.

– Então… Boa viagem. Escreva sempre…

– Tá bom… E o beijo de despedida…? Vamos…

Ela olhou para os lados, envolveu-o no abraço, e ele a beijou nas faces até que os lábios se encontraram pela primeira vez, sem imaginar que seria também a última. José carregou a embriaguez do perfume e do sabor dos lábios de Celina, pensando a cada dia, todos os dias, o quão felizes teriam sido vivendo juntos, com filhos correndo e rindo.

No dia seguinte embarcou com os pais no avião da Panair, que rolou pela pista e de repente deixou o chão. Da janelinha viu parte da cidade e da avenida a beira rio que logo sumiram para dar lugar ao cenário da orla marinha bordeada de areia branca e coqueiros. Foi então que o som apareceu suave na cabeça. Era Carlos Galhardo cantando:

“Adeus meu amor… É hora de partir… Um dia hei de voltar… Cantando esta canção… Adeus, amor… Hei de levar a tua imagem no coração

As contingências da vida empurraram José para mais longe ainda. As cartas ficaram mais espaçadas até o dia em que deixaram de voar. Foi quando ela informou que estava noiva para se casar, mas sempre lembraria dele. Conheceu parte do mundo, viu Roma, Pompéia, o Coliseu, as pirâmides, Notre Dame… Trabalhou, amou outras mulheres buscando em cada uma os traços e meiguice de Celina, sem esquecê-la um só dia. Soube que ela guardou aquela blusa por muito tempo.

O velho sentiu naquela viagem nostálgica que “não existe distância para os corações que se amam”, mas persistia o profundo desejo de acariciar aqueles cabelos e beijar aqueles lábios mais uma vez. Celina tinha desaparecido da paisagem humana como as velhas casas tragadas pelo tempo. Viveria no coração até o fim dos dias. Os homens, como as paisagens urbanas vão crescendo, amadurecendo e perdendo suas características, seus primores ingênuos e românticos que resistem guardados na alma, como o melhor e mais nobre na lembrança afetiva, cofre da eternidade. Cofre dos valores do que é bom e belo.


A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo.

– Mario Quintana

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