“(…) Se o meu olhar amortecido fixava, por acaso, na rua, uma mulher — era logo ao outro dia uma carta em que a criatura, esposa ou prostituta, me ofertava a sua nudez, o seu amor, e todas as complacências da lascívia”.

ADVERTÊNCIA: O texto que se segue, fino leitor, não é uma resenha, mas sim, como o título esclarece, uma análise do livro. Portanto, para melhor entendimento é recomendável que o pretenso leitor desta análise seja o efetivo leitor do livro.

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Em uma das aulas de Filosofia com o professor Olavo, ouvi, certa vez, uma definição de Literatura que tomei como norte para a minha vida de estudos: “A Literatura é o conjunto das experiências humanas possíveis e imagináveis“. Ler muita Literatura, participar da experiência da condição humana dos outros, portanto, é expandir o próprio horizonte de consciência; é ganhar densidade de personalidade; é ajustar o senso das proporções para julgar, sempre que for necessário, as mais diversas situações da vida cotidiana. O livro objeto desta análise não é, como a crítica informa, a magnum opus do escritor português, mas nesta narrativa — como em muitas outras de sua autoria — está caraterizado o tipo humano que ilustra alguns conflitos existenciais reais.

O livro é curto e a narrativa se afasta, pelo menos aparentemente, da estética realista que caracterizou Eça como o expoente desta escola literária em Portugal. Em O Mandarim, o escritor português experimenta as possibilidades da fantasia para compor uma narrativa nova na qual a expressão dos conflitos, dos dilemas morais e das decisões do protagonista estão emolduradas pelas sombras do outro mundo. Eça parece querer analisar como a influência da realidade transcendente implica nas escolhas do indivíduo, e como este indivíduo reage às influências a partir dos seus vícios e virtudes; a partir do seu entendimento da realidade. Como objeto da sua observação, o escritor português se concentra no mais comum dos tipos humanos: o homem medíocre.

O protagonista e dono da voz que narra a história é Teodoro, um funcionário de uma repartição pública do Reino de Portugal que leva exemplarmente sua vida mediocre até que o encontro com o elemento fantástico o desperta para novas possibilidades de ação. Teodoro é pobre e preso a uma vida de inúmeras limitações, mas o fantástico, materializado num diabo perspicaz, o convence a aceitar as riquezas de um mandarim que vive nos confins da China. O convence, sim, porque para desfrutar dessas riquezas Teodoro tem que matar o mandarim. E ele o faz tocando um sininho deixado pelo diabo. Com fina ironia e senso de humor agradabilíssimo, Eça de Queiroz trata do dilema moral do homem medíocre.

Rico e influente, Teodoro se esbalda nos prazeres possibilitados pela sua nova condição; sem pudores, vive as mais deliciosas experiências antes só concebidas em sua imaginação. Mas não são as riquezas e o gozo das alegrias da vida que sanam a mediocridade do homem comum. Teodoro é atormentado pelo espectro do mandarim constantemente. Aparentemente, o velho rico chinês torna-se a imagem da própria consciência de Teodoro que, incapaz de seguir com a sua nova vida sem o peso da culpa, decide empreender uma viagem à China com o propósito de entregar à família do finado mandarim a fortuna injustamente herdada pelo protagonista da história.

Enquanto homem medíocre, Teodoro vive sob o peso dos conflitos; sem força de personalidade para libertar-se deles. Antes de tomar as riquezas do mandarim, quando trabalhava na repartição pública, seguia à risca os protocolos, as etiquetas, as burocracias que perfaziam a mediocridade cotidiana. O hábito de se curvar ante à presença do chefe da repartição o tornou corcunda. Teodoro, autodeclarado ateu, mantinha o hábito de rezar a Nossa Senhora, todos os dias. Sujeito contraditório.

A crítica, esse consenso dos leitores cultos, não elenca O Mandarim como um dos melhores escritos de Eça de Queiroz — não sem razão. A narrativa, que seguia uma crescente de boas concatenações de ideias, começa a decair precisamente quando o protagonista desembarca na China. Nesse momento o leitor pode, com justiça, agradecer por ter em mãos um livro relativamente pequeno. Tamanho, aliás, que justifica a categorização de “novela” dada pela crítica. Na China Teodoro, depois de sofrer com o risco iminente da morte pelas mãos de um grupo de ladrões informados do seu status econômico, foge para um ermo e é acolhido por um grupo de religiosos num mosteiro. Os monges cuidam de suas feridas e o abrigam por alguns dias.

Sob a segurança do mosteiro, o protagonista faz algumas reflexões importantes. Ele, homem ocidental, produto da “raça latina“, se vê perdido num ambiente de barbárie. Teodoro agradece pela proteção não só meramente física proporcionada pelos monges, mas psicológica também. Na sua peregrinação à China motivada pela esperança de se libertar das acusações da sua consciência materializada nas visões do espectro fantasmagórico do mandarim, Teodoro encontra o que procurava, mas de uma forma inesperada. Nos rincões de uma China inculta, bárbara e ferina, Teodoro vislumbra a proteção da sua terra natal, a segurança do seu antigo mundo; ele sente saudades de Portugal.

A crítica, influenciada pelas escolas filosóficas das últimas décadas, nominalmente a Escola de Frankfurt, aponta para muitos “problemas” na narrativa do Eça de Queiroz. Assim, desconsiderando o período histórico em que o livro fora publicado — 1880 –, o fim do século XIX, uma suposta tônica “preconceituosa”, “discriminatória” e “intolerante” da obra é denunciada em nome de uma intenção meramente ideológica. No horizonte desta crítica a condição existencial real, as indagações mais profundas da consciência do indivíduo desaparecem. Mas é pouco provável que o escritor português, apesar da sua preocupação com a realidade social tão presente em outras de suas obras, tivesse a intenção de discutir tais questões n’O Mandarim.

A novela é leve e espirituosa. Um exemplo do estilo limpo, fluido e, claro, irônico do Eça. Sua ironia lembra, mutatis mutandis, o estilo do nosso Machado de Assis. O Mandarim é, em última análise, uma reflexão não só sobre os costumes, mas sobre as indagações morais mais profundas do homem. No final, o narrador se dirige diretamente ao leitor, como que convidando-o a refletir sobre as consequências das escolhas do indivíduo.

“(…) Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. Nele lego os meus milhões ao Demónio; pertencem-lhe; ele que os reclame e que os reparta… E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: ‘Só sabe bem o pão que dia-a-dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!’ E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do Norte ao Sul e do Oeste a Leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do Mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!”.

Teodoro
Referência: exemplar da Editora Brasiliense. Lello & Imão — Editores, 144, Rua das Carmelitas — Porto, Portugal. 1943.

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