Libertação sem maturidade sempre cobra seu preço

Fugindo do Mussolini ou cumprindo ordens, algumas famílias de italianos tinham aparecido por ali muito antes da Segunda Guerra. Compraram propriedades, instalaram comércios e se tornaram parte da paisagem humana. Dois fazendeiros, um deles pertinho da praia e o outro com um engenho de cana de açúcar, possuíam daqueles rádios amadores alimentados pela eletricidade acumulada em baterias, que permitiam confortos como geladeira a primeira que apareceu por ali.

A luz elétrica nos anos 40 era luxo pra mais da conta, coisa que a gente só conhecia para espantar as sombras da noite entre as sete e as dez, quando o motor a diesel funcionava. A maioria da gente ficava mesmo era com a luz de candeeiros e velas.

Os italianos que viviam no povoado se dedicavam à fabricação de pães, macarrão e comércio de tecidos e miudezas. As famílias eram isoladas, cada uma vivendo sua vida, sem visitas, sem intimidades. Dona Antônia era a matriarca de uma daquelas famílias. O marido brasileiro, baixinho diante da alta, magra, enérgica matrona de cadeiras amplas, mas só tinha dois filhos. Antônio, adolescente e mais tarde, chegou o outrinho, mimado pelo pai até dizer chega.

Antônio era alto e loiro de olhos verdes, muito parecidos com os olhos da mãe. O outrinho tinha saído com a cara do pai, baixinho e moreno. Um moleque abusado, dengoso e falso o quanto podia. Tonho frequentava a escola, mas não jogava futebol. Gostava de acompanhar as excursões dos escoteiros do padre Pedro. Mas só ia à igreja aos domingos. Um menino que andava de cara amarrada, carente dos mimos da mãe.

A loja de esquina com a praça da matriz era extensão da casa com varanda para o pomar que cobria mais da metade do quarteirão. Por trás de um grande balcão em L, seu Quincas passava os dias lendo jornal amanhecido, queixando-se de dores, tomando chás e conversando com os fregueses.

Um homenzinho moreno e miúdo, jeito entre educado e tímido, fazendo tudo de modo a estar bem com Deus e o Diabo. Deus era servido com as esmolas para a igreja e a presença na missa dominical, acompanhado da mulher, mais Tonho e o outrinho. O Diabo era louvado quando ele atolava a faca nos tabaréus, roubava na medida dos tecidos e cobrava a mais da conta; e quando acompanhava a disgramenta nas sessões espíritas de seu Esaú, o farmacêutico de orelhas peludas como lobisomem.

Toda noite, Tonho rezava pela alma da mãe, bem-estar do pai e felicidade da tia casada, que morava no Rio de Janeiro e escrevia as cartas cheirosas que ele guardava numa lata de biscoitos, onde moravam pequenos objetos de estimação: fotografias, um realejo, um pinhão, alguns réis de prata e um cachinho de cabelo loiro amarrado com lacinho azul, lembrança do primeiro corte, aos seis anos, antes de entrar para a escola. Aqueles cabelos cacheados chegando aos ombros, que nem uma menina, poderiam vir a ser objeto de mangação. O menino encontraria nos anos seguintes o convívio no mundo fascinante da aprendizagem. Aprendeu sobre bondade e a agressividade, a falsidade e a amizade. Tornou-se atento e seletivo.

Terminou o curso primário e a mãe morreu de repente. O pai que já era encolhido ficou murcho, pelos cantos, deixando tudo por conta de Elvira, moça madura que despachava na loja, com peitos fartos, lábios carnudos e melados, vermelhos de batom. Passado o ano de luto, aquela bocó foi chegando de fininho, com trejeitos derretidos ocupando mais e mais espaço na loja e na casa. Daí para o casamento e seu Quincas dizendo pra Tonho: agora, Elvira é como sua mãe. Obedeça a ela!

E madrasta não era mãe! A disgramenta pegava pesado, querendo mostrar quem mandava. Toda manhã ela puxava as cobertas de supetão, gritando que nem gata no cio: levanta preguiçoso! Tá na hora de ir pra escola! Acordava no susto e encolhia-se amuado, escondendo a semi nudez e a ereção. Um nó de raiva na garganta resmungava: já vou! O pai era mesmo um bosta pra deixar aquela infeliz mandando e desmandando. Precisava crescer logo e ganhar o mundo, voar para bem longe ou atravessar o mar numa canoa.

Aproximava-se dos doze anos, o corpo ia ficando espigado, a cara imberbe fixando a aparência e os contornos suaves da mãe. O cabelo ficou castanho, mas a pele tinha a cor dourada de sol, contrastando com os grandes olhos verdes de espanto. As mãos com dedos longos seguravam o lápis com elegância para traçar a escrita e o desenho com facilidade. Parecia ver a figura ou a paisagem no branco do papel antes mesmo de sombrear os espaços revelando um rosto, um bicho ou passarinhos bicando um mamão maduro.
Quando entrou para o ginásio, os outros meninos tentavam aproximar-se, mas ele era arredio. As meninas o olhavam de longe, só. Com gentileza, Tonho controlava ou flexibilizava seu espaço. Todos os meninos admiravam o Nildo, o colega mais forte e despachado, embora fraco no desempenho escolar. Tonho ficava sem fala, vermelho que nem camarão torrado quando o outro se aproximava. Não sabia se era medo, ou sentimento de inferioridade física, mas no intelecto ele sabia estar acima de Nildo.

Naquele mesmo dia, durante a prova de matemática, Nildo aproveitou uma distração do professor para pedir-lhe uma cola. Fez que não ouviu, mas deslizou cuidadosamente o pedacinho de papel. Mais tarde, no pátio durante o recreio, o outro chegou por trás e tocou seu ombro, a voz amistosa:

– Tonho, você salvou minha vida! Eu ia ficar sem nota.

– Não foi nada!

– Se precisar qualquer coisa…

Qualquer coisa? Pensando bem, pra que ia precisar dele? Tonho tremia como vara verde, só de ver o sorriso animal na cara do outro comemorando um gol nas partidas de futebol.
Falou com o padre Pedro. Queria ajudar à missa. Recebeu um caderno com as frases rituais em latim que devia decorar. No dia seguinte levantou-se mais cedo e foi à missa. O ajudante era Nildo. Terminada a cerimônia criou coragem e aproximou-se perguntando:

– Nildo, estou decorando as respostas em latim…

– Se quiser eu lhe ensino… é fácil!

– Seria bom…

– Vou à sua casa hoje de tarde. Quer?

– Pode… Eu espero.

Já em casa, correu descalço para o banheiro onde se trancou. Tirou o calção, aliviou-se, puxou a descarga e meteu-se embaixo do chuveiro, sentindo a carícia da água tépida e o cheiro de orquídea do sabonete. Enxugava-se vagarosamente, nu diante do espelho, examinando cada parte do corpo, buscando as transformações. Olhou a penugem que despontava acima dos lábios, baixou a vista e examinou os pêlos, onde brilhavam algumas gotas, parecendo orvalho sobre a grama. Ajeitou os cabelos com as mãos e sorriu para a própria imagem.

Vestiu-se e foi para a varanda. A infeliz, farejando alguma novidade, arrancou-o do estado contemplativo:

– Tá esperando alguém Tonho? … Vai estudar hoje, não?

– Tô esperando o Nildo… Ele vai me ensinar o latim das respostas da missa.

Pela primeira vez na vida, a infeliz o elogiou dizendo:

Vai ajudar à missa? Que bom! Vai querer ser padre também?

Ele riu e calou. No íntimo pensou: “Vai lamber sabão, sua bruxa!” Deitou-se na rede atento aos sons do vento na folhagem, um murmúrio suave que nem cantiga de ninar. Foi então que viu Nildo, montado num cavalo branco, bem ali ao lado da rede dizendo:

– Tô aqui há um tempão vendo você dormir e roncar… Vamos… Monte aqui… Quero que você veja uma coisa.

Tonho saiu da rede e montou na garupa do cavalo que atravessou o pomar, saltou por sobre a cerca e foi em passo suave pelo campo verde que ele não conhecia, até chegar ao bosque que ladeava um rio cristalino correndo manso sobre as pedras e formando piscinas naturais onde pássaros mergulhavam e emergiam com peixes nos bicos longos. Sentiu a água que respingava em seu rosto e ouviu o riso do outro dizendo:

– Acordou? Tô aqui há um tempão ouvindo você roncar… O jeito foi fazer esta chuvinha na sua cara…

Sentou-se na rede sem coragem de olhar para o outro.

Introibo ad altare Dei!

Ad Deum qui laetificat juventutem meam!

A disgramenta logo apareceu com uma jarra de refresco, colocou na mureta da varanda e ordenou a Nildo:

Você que já é um homenzinho bem forte, venha aqui me ajudar a mexer uns móveis.

Nildo levantou-se da rede, olhou para Tonho e com um riso de canto disse: “sim senhora” e acompanhou a disgramenta.

Foi o dia da libertação. Tonho os seguiu sem ser visto, até que a safada encostou a porta do quarto. Tonho colou o ouvido na porta… E quase não acreditou que a disgramenta estava pedindo ao menino pra baixar o calção… Nildo resistia enquanto ela tentava seduzi-lo. Saiu pé ante pé e chamou o pai.

Quincas meteu o pé na porta e expulsou a mulher em voz baixa. A Nildo pediu desculpas. No mês seguinte, Tonho embarcava para o Rio. Foi morar com a tia.


Desejaria que houvesse o cuidado de lhe escolher [à criança] um condutor [preceptor] que antes tivesse a cabeça bem feita do que muito cheia.

– Michel de Montaigne

Gosta de nosso conteúdo? Assine Esmeril, tenha acesso a uma revista de alta cultura e ajude manter o Esmeril News no ar!

fim
Revista Esmeril - 2021 - Todos os Direitos Reservados
Revista Esmeril - 2021 - Todos os Direitos Reservados

Leave a Comment

This div height required for enabling the sticky sidebar