SANQUIXOTENE DE LA PANÇA | Os Quase-Idiotas (ou “O Idiota de Schrödinger”)

Paulo Sanchotene
Paulo Sanchotene
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é mestre em Direito pela UFRGS e possui um M.A. em Política pela Catholic University of America. Escreveu e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. É casado e pai de dois filhos. Atualmente, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, onde administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna).

No mundo, existem quatro tipos de pessoas: os idiotas; os não-idiotas; os meio-idiotas; e, o foco desta coluna, os quase-idiotas. Os três primeiros tipos são simples de entender. O idiota é sempre um idiota. O não-idiota é sempre um não idiota. O meio-idiota não seria propriamente idiota, mas tampouco seria alguém completamente são; ficando numa posição média entre aqueles outros. Já o quase-idiota, esse é um caso à parte.

O quase-idiota não é semelhante ao meio-idiota. Enquanto o meio-idiota encontra-se fixado no meio entre o idiota e o não-idiota, o quase-idiota transita entre um e outro extremo. Ao contrário do meio-idiota, facilmente reconhecível, o quase-idiota passa o tempo sendo confundido tanto com o idiota quanto com o não-idiota. Seria algo como um “idiota de Schrödinger” – simultaneamente idiota e não-idiota.

Dos quatro tipos, o quase-idiota é, de longe, o pior. O idiota, ao menos, desconhece sua condição de idiota. O meio-idiota, por sua vez, tem noção de sua situação intermediária, sendo capaz de reconhecer e aceitar suas limitações. O quase-idiota não tem nenhum desses luxos. Ele percebe ser capaz de alcançar o nível do não-idiota, e o faz bastante vezes, mas não consegue evitar resvalar constantemente em idiotices.

Claro que até os não-idiotas podem cair em idiotices, mas o histórico deles claramente mostra serem acidentes; exceções. Com o quase-idiota é diferente. A quantidade de vezes em que o quase-idiota age e se porta como um idiota é muito maior. Isso se torna uma fonte importante de problemas tanto para ele, quase-idiota, quanto para aqueles que o cercam.

A alta capacidade do quase-idiota de momentaneamente se idiotizar gera uma natural e compreensível desconfiança alheia. O quase-idiota percebe. Aliás, não apenas percebe como reconhece a encruzilhada diante de si. Nessas horas, ¿o que fazer para restaurar a confiança do outro?

Apesar de não ser um idiota e ter conhecimento disso, não adianta para o quase-idiota afirmar tal coisa ao outro. Trata-se de ação típica de um idiota, inclusive. Por outro, o quase-idiota sabe que “pisa na bola”; que a desconfiança se justifica. Então, a pergunta acaba invariavelmente sem resposta.

Essa corrosão da confiança faz com que gradualmente o quase-idiota passe a ser tratado mais e mais como um idiota. Com o tempo, as relações pessoais vão se enfraquecendo; as conversas relevantes, escasseando; e as responsabilidades, diminuindo. Crescem as futilidades e o tempo ocioso.

O quase-idiota percebe isso tudo e sabe ter-lhes dado causa. A confiança fora construída por sua capacidade de pensar e agir como um não-idiota e destruída por sua capacidade de pensar e agir como um idiota. Tal reconhecimento machuca, corrói a auto-confiança, e alimenta um ciclo negativo que promove um isolamento social. Se fosse um idiota, o quase-idiota não sentiria nada por isso. Se fosse um meio-idiota, nem sequer teria alcançado a confiança alheia. No entanto, quanto maior a subida, maior a queda. Essa é a sina do quase-idiota.

Por outro lado, a parte bem-sucedida dessas experiências permite ao quase-idiota manter a esperança. Se tudo já foi distinto e melhor, pode acontecer de novo. Aí, o quase-idiota pensa nalguma mudança: de ares, de emprego, de cidade, de companhia… Quiçá, essa traga melhor sorte. E lá se vai o quase-idiota tentar realizar algo novo, mas sem arruinar tudo por idiotices desta vez…

Uruguaiana, 44 de Quaresma de 526 (2/4/2026)

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