Há algum tempo deixei de acompanhar os lançamentos da editora Danúbio, centrada na publicação de escritores contemporâneos. Mas Diogo Fontana achou por bem me enviar o romance recém-publicado de Tiago Amorim, e eu o deixei sobre o criado-mudo do quarto desde que chegou pelo correio, algumas semanas atrás.
Há dias em que nada dá certo e sentimos a necessidade de recomeçar. Como se a vida inteira fosse posta em dúvida após um erro banal que nos conecta a hábitos vis que, com esforço, jurávamos ter definitivamente deixado para trás. A torrente do inferno surge e é preciso contê-la. Ontem ocorreu-me algo do tipo. Jantei cedo com as crianças para livrar-me da tarefa e acorri ao quarto em busca de repouso. Cheguei a pegar no controle remoto (atualmente vejo a ótima Madison, nova série do universo Yellowstone), mas ali estava Lorena, alaranjada por inteiro, aflitivamente revolvendo-se nas roupas de cama com quem luta sobre a capa.
O primeiro parágrafo, ou princípio da torrente sufocante de pensamentos com que ela se agarra ao leitor, foi suficiente para acalmar-me, como que arrancando-me da minha banal angústia ao fazer-me descansar sobre a de um terceiro. Ao terminar o romance, hoje de manhã, notei que é possível atravessar uma vida inteira presa ao estado de espírito que Tiago Amorim brilhantemente reconstrói, ao nos entregar não exatamente um romance, mas uma alma que viveu para desnudar-se diante de nós. É um ótimo romance, sobre o qual não saberia compor uma resenha publicável, a tal ponto o mais íntimo estreito das almas raramente é publicável.
Lorena sobrepõe-se completamente ao autor. Que falar do escritor, que se oculta inteiramente – exceto por um breve deslize na página 89 – para dar à protagonista o contraponto que faltou-lhe a vida inteira – um centro de palco, onde pudesse ser vista, contemplada e compreendida? Com isso espero apontar a capacidade do autor em moldar com minúcia e gentileza uma obra inteiramente descolada de qualquer rastro seu – ainda que eles possam estar ali, que leitor poderia cogitá-los, durante a corrida atrás do fio do novelo de barbante infinito em que consiste a consciência falante da personagem?
O brilho de toda e qualquer novela está na ausência do locutor intruso, cujo ardil mais refinado é desaparecer para que nós, leitores, possamos nos haver com a razão de ser da obra: ela mesma. Essa arte é dos escritores finos, que montam palco, luzes, trama, drama e figurino mantendo-se invisíveis. Lorena me recorda a Enganada, de Thomas Mann; mas não por assemelhar-se àquela outra bela senhora, antes por ser-lhe, em tudo, tão oposta, sobretudo na consciência de uma falta de esperança. Porém, é tão marcante quanto ela, com quem divide uma inclinação específica sobre a qual não vou falar, para não estragar o agridoce da leitura.
Todas as mulheres existentes vão adorar o livro. Se não pelo conteúdo, pela forma. Se não pela existência da qual vislumbramos um fragmento capaz de apontar ao todo, bem mais porque fazer o todo de uma vida aparecer nos clarões justapostos do pensamento em fluxo, a certa altura dessa retratada vida, é o modo mais preciso de exprimir o sabor do feminino. Eis um autor que compreende a natureza das mulheres, poderia alguém dizer. Seria vulgar. Eis um autor capaz de ver a alma humana, prefiro.
Em suma, aqui está uma daquelas obras dignas de serem lidas: as compostas por pessoas capazes de ver.
Belíssima novela. Imprópria para olhares mal exercitados no agridoce da vida. Perfeita para amantes da literatura em busca de escritores genuinamente generosos.
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