Literatura丨LORENA

Bruna Torlay
Bruna Torlayhttp://brunatorlay.com.br
Estudiosa de filosofia e escritora, frequenta menos o noticiário que as obras de Platão.

Há algum tempo deixei de acompanhar os lançamentos da editora Danúbio, centrada na publicação de escritores contemporâneos. Mas Diogo Fontana achou por bem me enviar o romance recém-publicado de Tiago Amorim, e eu o deixei sobre o criado-mudo do quarto desde que chegou pelo correio, algumas semanas atrás.

Há dias em que nada dá certo e sentimos a necessidade de recomeçar. Como se a vida inteira fosse posta em dúvida após um erro banal que nos conecta a hábitos vis que, com esforço, jurávamos ter definitivamente deixado para trás. A torrente do inferno surge e é preciso contê-la. Ontem ocorreu-me algo do tipo. Jantei cedo com as crianças para livrar-me da tarefa e acorri ao quarto em busca de repouso. Cheguei a pegar no controle remoto (atualmente vejo a ótima Madison, nova série do universo Yellowstone), mas ali estava Lorena, alaranjada por inteiro, aflitivamente revolvendo-se nas roupas de cama com quem luta sobre a capa.  

O primeiro parágrafo, ou princípio da torrente sufocante de pensamentos com que ela se agarra ao leitor, foi suficiente para acalmar-me, como que arrancando-me da minha banal angústia ao fazer-me descansar sobre a de um terceiro. Ao terminar o romance, hoje de manhã, notei que é possível atravessar uma vida inteira presa ao estado de espírito que Tiago Amorim brilhantemente reconstrói, ao nos entregar não exatamente um romance, mas uma alma que viveu para desnudar-se diante de nós. É um ótimo romance, sobre o qual não saberia compor uma resenha publicável, a tal ponto o mais íntimo estreito das almas raramente é publicável.

Lorena sobrepõe-se completamente ao autor. Que falar do escritor, que se oculta inteiramente – exceto por um breve deslize na página 89 – para dar à protagonista o contraponto que faltou-lhe a vida inteira – um centro de palco, onde pudesse ser vista, contemplada e compreendida? Com isso espero apontar a capacidade do autor em moldar com minúcia e gentileza uma obra inteiramente descolada de qualquer rastro seu – ainda que eles possam estar ali, que leitor poderia cogitá-los, durante a corrida atrás do fio do novelo de barbante infinito em que consiste a consciência falante da personagem?

O brilho de toda e qualquer novela está na ausência do locutor intruso, cujo ardil mais refinado é desaparecer para que nós, leitores, possamos nos haver com a razão de ser da obra: ela mesma. Essa arte é dos escritores finos, que montam palco, luzes, trama, drama e figurino mantendo-se invisíveis. Lorena me recorda a Enganada, de Thomas Mann; mas não por assemelhar-se àquela outra bela senhora, antes por ser-lhe, em tudo, tão oposta, sobretudo na consciência de uma falta de esperança. Porém, é tão marcante quanto ela, com quem divide uma inclinação específica sobre a qual não vou falar, para não estragar o agridoce da leitura.

Todas as mulheres existentes vão adorar o livro. Se não pelo conteúdo, pela forma. Se não pela existência da qual vislumbramos um fragmento capaz de apontar ao todo, bem mais porque fazer o todo de uma vida aparecer nos clarões justapostos do pensamento em fluxo, a certa altura dessa retratada vida, é o modo mais preciso de exprimir o sabor do feminino. Eis um autor que compreende a natureza das mulheres, poderia alguém dizer. Seria vulgar. Eis um autor capaz de ver a alma humana, prefiro.

Em suma, aqui está uma daquelas obras dignas de serem lidas: as compostas por pessoas capazes de ver.

Belíssima novela. Imprópria para olhares mal exercitados no agridoce da vida. Perfeita para amantes da literatura em busca de escritores genuinamente generosos.

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