Publicada originalmente em 1936 pela tia do poeta Bruno Tolentino, Lúcia Miguel Pereira, “Machado de Assis: Estudo Crítico e Biográfico“, tornou-se uma referência nos estudos sobre a vida do nosso maior escritor.

Status quaestionis é o registro dos esforços de uma investigação em função do tempo, é o conhecimento do progresso das discussões e do consenso atual dos debates; implicitamente é a catalogação de tudo quanto fora escrito sobre o objeto da pesquisa. Isto implica, portanto, no acesso às fontes de referência, ao material que, pela excelência e acuidade, tornou-se um marco nos esforços do entendimento do objeto estudado por muitos e em muitas épocas. Na extensa bibliografia sobre a vida e a obra do bruxo do Cosme Velho o livro da Lúcia Miguel Pereira figura entre os principais trabalhos biográficos já escritos sobre o autor de Dom Casmurro. “Machado de Assis: Estudo Crítico e Biográfico” é um livro imprescindível, portanto, para todos aqueles que, uma vez fascinados pela proeza da pena do criador de Brás Cubas, decidam conhecer mais sobre a sua vida, sobre a sua condição humana.

Decidi ler o estudo crítico e biográfico da Lúcia M. Pereira depois de assistir a uma apresentação sobre o livro que o professor Rodrigo Gurgel fizera em seu canal no YouTube. No vídeo, o professor fala sobre dois livros que, segundo ele, são fundamentais para entender Machado de Assis: o livro da Lúcia M. Pereira aparece ao lado de outro importante estudo biográfico, escrito pelo Barreto Filho, sob o título de Introdução a Machado de Assis. Adquiri os dois. Antes de ler a consagrada biografia, porém, um pequeno ensaio me caiu nas mãos: “Machado de Assis por dentro“, escrito pelo ensaísta graduado em Direito e em Filosofia pela PUC-SP, Gilberto de Mello Kujawski, esse livro foi uma grata surpresa. Kujawski, que fora colaborador do Jornal da Tarde e de O Estado de São Paulo por mais de trinta anos se esforça, nos capítulos finais do seu livro, para contrapor a velha narrativa ideológica que cresceu em volta do pobre mestiço do morro do livramento. Essa preocupação em limpar o Machado dos superficiais crivos ideológicos, contudo, não estava presente na obra da Lúcia M. Pereira. O ano era 1936.

É fácil perceber o porquê da consagração desta biografia como referência para os estudos da vida e da obra do ilustre escritor carioca: a Lúcia teve acesso às fontes primárias decisivas para o delineamento do perfil do seu biografado. Ela conversou com contemporâneos do escritor. Contudo, acredito mesmo que o sucesso do seu trabalho de pesquisa resida no fato explícito de que a Lúcia amava o Machado, ela nutria admiração e respeito sinceros pelo romancista. Antes de começar a escrever sobre o criador do Conselheiro Ayres, Lúcia fora uma leitora atenta e apaixonada da sua obra, isso a levou a escrever não só com lucidez e profundidade, mas com responsabilidade também. Na sua escrita, ela infundiu a experiência das suas leituras. Lúcia contava trinta e cinco anos quando publicou seu livro.

A biógrafa conta que, desde jovem, Machado de Assis demonstrava ter um fino senso de humildade que o levava a nutrir admiração sincera pelo trabalho dos seus amigos, jovens escritores que, assim como ele, tinham esperança do reconhecimento. Por volta dos vinte anos, em 1860, Machado, que até então vivia com a sua madrasta, Maria Inês, nas cercanias do morro do livramento, no subúrbio da Corte, por influência do seu amigo Quintino Bocaiúva — o ferrenho republicano — consegue emprego no Diário do Rio. Antes, ele trabalhava como tipógrafo nas oficinas de Paula Brito, e como colaborador em pequenos veículos de literatura. Ingressar no Diário do Rio foi para o Machado um período de grande amadurecimento, porque o jovem escritor que antes só contribuía com periódicos estritamente literários, agora se via obrigado a lidar com o grande público, com a dinâmica da política da Corte, a opinar sobre as questões mais urgentes do seu tempo. Mas, além de favorecer o desenvolvimento do seu talento, o novo emprego possibilitou ao jovem deixar o subúrbio e se transferir para o centro fervilhante da Capital do Império. Agora, Machado de Assis se vê próximo de novos e promissores talentos como, por exemplo, Cézar Muzzio, Ernesto Cibrão, Sizenando Nabuco e Quintino Bocaiúva. Nessa época, Manuel Antônio de Almeida, Casimiro de Abreu, Macedo Júnior e seu amigo primeiro empregador, Paula Brito, estavam mortos ou morreriam em breve.

As letras nacionais testemunhavam o nascimento de uma nova geração. Nesse momento de sua vida quando, finalmente, parecia ter alcançado uma melhoria significativa e experimentar um reconhecimento incipiente, Joaquim Maria, segundo sua biógrafa, revela um aspecto surpreendente do seu caráter: sua imensa generosidade. Ele não inveja os seus pares, antes os estima, os admira e, principalmente, os ajuda. A pobreza, a mulatice que, naquele tempo, pesava na superação das classes, a gagueira, a epilepsia, e, em suma, seus padecimentos da vida não se converteram numa justificativa para que no escritor se desenvolvesse uma personalidade rancorosa. Machado de Assis não era ressentido ou invejoso. Apesar de acreditado ateu por alguns, o bruxo do Cosme Velho praticava exemplarmente o mandamento do amor ao próximo. Isto, somado ao seu caráter introvertido e observador, o coroou com o poder de compreensão da condição humana que o tornou digno da alcunha de nosso maior escritor.

Por volta dos quarenta anos, em 1878, Machado, que sofria desde sempre de epilepsia, começou também a sentir os sintomas de uma afecção intestinal, provocada pelo excesso de trabalho. Decidiu suspender suas colaborações literárias para os jornais nos quais escrevia e pedir licença do seu cargo público na Secretaria da Agricultura e, na companhia da sua esposa, Carolina, partiu para Nova Friburgo, na Serra Fluminense. Lúcia M. Pereira conta que o casal permaneceu lá por uma estadia de três meses que, com o restabelecimento do doente, se estendeu por mais três. Lúcia afirma ainda que essa curta fase na vida do escritor fora decisiva para o seu definitivo amadurecimento. Machado de Assis, carioca nato, nunca saíra da cidade do Rio até aquele momento, nunca experimentara a liberdade de se encontrar fora do ambiente urbano, longe dos amigos, dos cafés, dos clubes literários, das ruas empoeiradas por onde os bondes passavam e onde se ouviam os pregões dos vendedores ambulantes. Esse momento de descanso — o primeiro de sua vida — permitiu que o escritor mergulhasse em reflexões novas sobre a vida e, principalmente, sobre a morte. Quando desceu da serra, o escritor estava mudado para sempre; alcançara, finalmente, o domínio pleno da sua linguagem. Sua principal obra, as Memórias Póstumas de Brás Cubas, reflexo das suas mais profundas meditações, nasceu pouco depois de seu regresso à vida urbana.

A sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras fora realizada no dia 20 de junho de 1897. Machado de Assis, que passou a vida alimentando o sonho de ver as letras nacionais assim congregadas em uma instituição promotora, estava realizado. Contudo, “a vida é uma velha avarenta: quando dá uma alegria, cobra logo com usura os juros da dor“. Lúcia M. Pereira conta que, em novembro daquele ano, as Diretorias-Gerais de Viação e Obras Públicas, repartição onde trabalhava o escritor, foram reunidas em uma só. Machado de Assis, que, além de escritor, sempre fora exemplar servidor público, testemunhou com frieza — e talvez com tristeza — o golpe que instaurou a República. No ano do golpe, 1889, fora nomeado pela Princesa Isabel como diretor da Diretoria-Geral do Comércio, cargo que mudou de nome com a chegada dos republicanos ao poder. Lúcia narra que o novo governo, já esbanjando suas convicções positivistas, julgou que o cargo deveria ser exercido por um técnico. O velho Machado de Assis fora considerado adido, isto é, incapaz. Seu amigo, Mário de Alencar, exprimiu bem o espírito da época: “A lei era um embaraço; mas as leis fazem-na os homens para as ocasiões, quase sempre com o pretexto de servirem aos outros, e com o fim secreto do proveito próprio. E assim foi que com a lei tiraram-lhe o que a lei lhe garantia!”. Mas o escritor não permaneceu injustiçado por muito tempo. Em 1902, Rodrigues Alves assumiu a Presidência da República, e na chefia do Ministério da Viação estava Lauro Müller. Um dos primeiros atos do Governo foi chamar o bruxo do Cosme Velho de volta à atividade de diretor-geral de contabilidade no Ministério da Aviação, cargo que exerceria até morrer. Foi um susto pelo qual passou o escritor nessa última fase da sua vida.

Em certo momento da vida, quando o Machado já gozava de alguma fama entre os poucos letrados da Corte, ele protagonizou uma cena burlesca, mas que revelara muito da sua personalidade: enquanto revisor de provas para um certo amigo editor, Machado de Assis, ao perceber que deixara passar um erro, ajoelhou-se perante o editor, implorando para que a publicação fosse recolhida imediatamente! Ele chegou até mesmo a dizer que estava disposto a tirar do próprio bolso o montante referente às edições já vendidas. O editor ficou sem palavras e, talvez por um breve momento, sem reações também. Pudera. Machado de Assis, que sempre fora um tímido de pantufas, estava ali, de joelhos, implorando para ter a chance de corrigir um erro de Português. O editor, conta Lúcia M. Pereira, tocado pela sincera demonstração de amor do escritor pelo seu ofício, publicou uma errata. Esse episódio ilustra de modo perfeito o quanto Machado amava o que fazia. Um erro tipográfico, de “digitação“. Em outros escritores essa atitude, talvez, soasse mera afetação, mas não com o Machado. Sua obra, sobretudo o que ele produziu depois de 1879, depois de Brás Cubas, é um conjunto de provas definitivas que atestam seu talento e amor pelas letras.

O episódio da morte de Joaquim Maria, segundo Lúcia M. Pereira, não podia acontecer sem a interferência de algum elemento estranho, incomum, algo que fugisse da regra do pranto e das reflexões sobre o termo da vida. Não. Aconteceu que, estando o escritor em agonia e tendo ao seu lado uma verdadeira plêiade de amigos ilustres literatos e também de pessoas comuns, que cuidavam dele com a mesma devoção com que cuidaram de Carolina, falecida há quatro anos, Machado recebeu uma visita curiosa: o fundador do Partido Comunista Brasileiro. Sim. Em uma noite qualquer de 1908, um rapaz de dezessete anos que atendia pela esquisito nome de Astrojildo Pereira, bateu à porta da casa do Cosme Velho e, passando pelos presentes ilustres, entrou no quarto onde Machado de Assis começava a agonizar. Beijou-lhe a mão e o abraçou. Se o escritor, que já começava a sentir a leveza do outro mundo, pudesse se restabelecer naquele mesmo momento e, sentado à escrivaninha, voltar para o seu ofício, poderia, imagino, escrever poemas em sincera homenagem ao futuro do rapaz e de sua causa — com a pena da galhofa e a tinta da… ironia!

As testemunhas do afeto do jovem pelo velho literato foram ninguém menos que Euclides da Cunha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia, Graça Aranha, Coelho Neto e Rodrigo Otávio; além, é claro, das famílias que prestavam auxílio ao moribundo. O moleque Astrojildo era um adolescente, estava ali como admirador do seu escritor, do seu ídolo. A leitura da obra machadiana poderia ter despertado o rapaz para um mundo novo, poderia tê-lo apresentado a uma visão mais profunda da condição humana. Não havia nada ali que pudesse dar pistas dos descaminhos da consciência que o rapaz tomaria anos depois quando, em 1922, aos trinta e dois anos, fundara o PCB. É interessante notar como, mesmo aquelas pessoas inteligentes e, aparentemente, enviesadas para um bom caminho, para uma direção na qual as coisas tendem a se mostrar mais nítidas, podem tomar rumos inesperados. Por que as pessoas se tornam estúpidas? Por que a inteligência se corrompe? Por que o gênio pode servir ao mal? Essas são algumas das indagações que podem ser feitas aos tipos machadianos, como Dom Casmurro, que destrói a sua própria consciência. Astrojildo, que não estaria ali, no leito de morte do escritor, se não lhe fosse um leitor devotado, fora impregnado pela frieza do ceticismo e da falta de sentido para a vida presente na obra do Machado. O estilo, irônico e pessimista, dever ter servido de preparo para o materialismo, o cientificismo e o pragmatismo das ideologias que corromperam sua mente. O caso do comunista é análogo ao caso de Dom Casmurro: para aquele Capitu é a própria realidade.

Mas em Machado de Assis os personagens não se entregam ao mal integralmente, entregam-se à dúvida. Entregam-se a uma dúvida permanente sobre o sentido da vida, sobre pelo quê vale a pena viver e morrer. Porque buscam sempre por uma certeza ou, pelo menos, porque aparentam buscar por respostas concretas para as angústias da existência, tendem para a única certeza objetiva: la Muerte. Daí o pessimismo machadiano. Astrojildo que, antes de se lançar em defesa do Comunismo, fora anarquista, deve ter encontrado na obra do Machado o principal elemento de que precisava para compor a filosofia da sua ação política: a vida não tem sentido. Desse ponto até a completa negação da transcendência na realidade, até à fé cega no Estado e na crença de que um sistema político tecnicista ofereceria a solução para todos os problemas da humanidade fora um pulo. Um pulo de moleque. O que Machado de Assis diria se pudesse antever que aquele rapaz que tão afetuosamente beijava-lhe as mãos se tornaria o fundador, no Brasil, do movimento político mais assassino já registrado na História? O Machado, tão observador, tão criterioso, tão atento ao movimento das pessoas à sua volta seria capaz de conceber os horrores do Comunismo? Seria capaz de depositar a fé que ele, durante toda a sua vida, pareceu negar a Deus, num sistema rígido de controle do comportamento humano até à consciência? Machado de Assis compreendeu a angústia da condição humana. O bruxo do Cosme Velho, apesar de contraditório, antes como indivíduo humano do que como escritor, fora um convicto praticante do maior dos mandamentos.

Enfim, Lúcia M. Pereira nos brinda com as palavras do maior crítico do Machado, Sílvio Romero, que, mutatis mutandis, está para Machado o que Newton está para Leibniz ou, mais próximo da arte, o que Salieri está para Mozart: “Tome Machado de Assis um motivo, um assunto entre as lendas eslavas”, disse Sílvio Romero que não pode ser acusado de complacência com o autor do Memorial de Ayres, “há de tratá-lo sempre como brasileiro, quero dizer, com aquela maneira de sentir e pensar, aquela visão interna das coisas, aquele tic, aquele sestro especial, se assim devo me expressar, que são o modo de representação espiritual da inteligência brasileira… “Seus romances, seus contos, suas comédias encerram vários tipos brasileiros, genuinamente brasileiros, e ele não ficou, ao jeito de muitos dos nossos, na decoração exterior do quadro; mais penetrante do que qualquer desses, foi além, e chegou até a criação de verdadeiros tipos sociais e psicológicos, que são nossos, em carne e osso, e essas são as criações fundamentais de uma literatura”.

“Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor”.

— Joaquim Maria Machado de Assis.

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