Naquele dia, Mada acordou tranquila e cheia de energia, ouvindo o trovão e admirando as formas ligeiras que a luz dos raios revelava em cada canto do quarto. Entre os lampejos e o nó na garganta sentou-se à cama e, automaticamente, fez o sinal da cruz, como buscando o perdão pelos sonhos e pelos secretos pensamentos sobre a vida, a fome de amor e a morte mesma de cada dia.

Sentindo um gosto de ovo podre entre a língua e o céu da boca. Calçou os chinelos e já de pé olhou para o traste do marido magro, pálido e careca, que dormia ainda, profundamente, talvez sonhando com o saco cheio de medo e maldade pesando no cangote. Podia ser benquisto no bar, onde pagava a conta para os vadios dependentes, “amigos”, como ele os referia, mas amizade amorosa e incondicional mesmo nunca havia tocado seu coração envenenado.

O desgosto que virou decepção, raiva, frustração antes de ódio, durou anos para chegar ao sentimento de nojo e desprezo. Ela nunca esqueceria o momento em que ouviu o comentário:

-É a mulher do satanás se fazendo de santa… Todo o mundo sabe que ele paga pra matar e fica rindo no seu canto.

Da covardia ela sabia. De medos que futucavam os miolos a todo instante também. Das drogas ela sabia. Dos viciados ela sabia. Mas homicídio era coisa inaceitável. Fuçou, fuçou até comprovar que o traste tinha de fato uma lista de culpas no cartório. Pensou, pensou e odiou pensar no que pensava. Tinha que dar um jeito de livrar-se dele e ficar em segurança. Faria uma justiça para a gente boa e desejosa de um mundo, pra viver em santa alegria.

Foi com santa alegria que vestiu o robe vermelho com figuras de dragões cuspindo fogo e foi ao banheiro, enquanto revia o filme mental de pessoas queridas e abraçadas, risonhas, num tempo distante, quando a esperança da fraternidade e da justiça pareciam vetores naturais das atitudes humanas e permeavam o romantismo de uma juventude que valorizava a fé em Deus, a escola, a busca do saber, o conhecimento e respeito, a ajuda mútua e amor fraterno, creditando-lhes a condição de tesouros que nenhum ladrão poderia roubar.

Mas de mim ele roubou! – Pensou enquanto escovava os dentes e observava no espelho o rosto ovalado envolto pelos cabelos castanhos assanhados. Pensou em Catarina que gostava de penteá-la. Mas a irmã estava morta e enterrada no mesmo espaço onde são venerados os valores remanescentes da fraternidade familiar e religiosidade, túmulos de culturas ancestrais que lastreavam escolhas éticas. Seu coração vacilava como balança doida: num prato os valores materiais decorrentes do trabalho para encher a barriga e manter uma casa limpa e bem arrumada, confortável… Confortável era uma condição que estava ausente do espírito conturbado, na relação com uma vida em que um pé estava na calçada e outro no lodo. O outro prato da balança estava ali, oscilando sem controle na variação dos impalpáveis pensamentos que a envolviam e eram depositados diante de Deus para a eternidade.

Tudo mudava na vida, mas não pelo querer da gente. Agora é dançar no ritmo da música que o governo manda tocar, conforme o ambiente e o interesse deles no momento… – pensava enquanto voltava ao dormitório para vestir-se e rumar para a cozinha. Caminhava e lembrava o tempo em que a autoridade amorosa e a experiência dos maiores eram acolhidas como exemplos importantes para pensar e seguir, fazer bem feito: relacionar-se respeitando os outros. Para ela, as drogas, que o marido filho da puta vendia, sufocavam o espírito e impediam as relações saudáveis entre maiores experientes e menores em idade. Sufocavam o pensamento e multiplicavam os muitos medos. Um vício infame no mundo pervertido, violento e pobres de espírito, pobre de saber, pobre no fazer. Mundo que era do jeito que era, e só Deus mesmo pra consertar.

Mediu as colheres de café pensando em Honorina, a preta que contava belas histórias de gente persistente em busca de amores e tesouros, para a roda de crianças atentas do Grupo Escolar Duque de Caxias. Ela vendia cocadas com sabor de goiabas, colhidas em seu quintal, para arrecadar alguns tostões. Naquele tempo as pessoas pareciam tranquilas e até felizes realizando as pequenas tarefas escolhidas por habilidades e competências aprovadas no convívio do reduzido grupo humano do povoado, gente simples aplicada aos afazeres e observadora dos movimentos da ordem natural.

Se Honorina faltava um dia, sua ausência era sentida com legítima preocupação e logo se apresentava alguém para acudir. Naquela viagem sonhando de olhos abertos, Mada lembrou as feições e nomes de velhos professores, do padre, da catequista, dos confortáveis dias em que recebia os sacramentos na missa dominical e flutuava feliz como se cada flor, cada cor, cada som, cada manifestação de vida se ampliassem em harmonia perfumada envolvendo a alma e todos os sentidos, que percebiam aquela forte e confortadora presença invisível.

Lembrou os comerciantes, feirantes e amigos, como se emoldurados num quadro animado, até que o cheiro do café indicou que estava pronto para coar. Coisa estranha! Não lembrou o nome de nenhum político, fosse prefeito ou vereador. Bem, era gente de menor importância que o sapateiro, o padeiro ou o Josias, aquele vaqueiro de peito largo, braços fortes, cara sempre risonha e queimada de sol, que entregava o leite de porta em porta ao amanhecer. Sua perdição!

Bom mesmo é o cheiro, é o sabor do café forte e fumegante de cada manhã flutuando entre a língua e o céu da boca, sem a proteção dos mantos da ingenuidade. Naquele momento percebia os açoites mentais, mais dolorosos que as feridas físicas; mais dolorosos e letais que a tortura das guerras e das cadeias. Sentia cada cicatriz da solidão humana. O sufocante silêncio dos ausentes daquela distante convivência com familiares e amigos amorosos, na confiança, na ajuda mútua, no choro e no riso, no trabalho, na dança e no descanso.

Passado no passado restava a tortura da perseguição real e continuada. Quanto fantasma e coisa que a gente não sabe de onde vem, meu Deus! Não fosse o fogo entre as pernas e o sabor de leite e mel daquele beijo, ainda viveria entre os seus, que abandonara na mocidade, desvirginada e envergonhada. Na lonjura da cidade grande deu de cara com a tirania dos valores materiais e razões que ignoravam as doçuras do coração. Naquela aridez amorosa encontrou o traste. Casaram-se fingindo respeito aos outros. Ela sabia que por trás dos risos daquele dia, num lugar entre o coração e a garganta havia um nó. Havia algo ruim, que nem um monte de espinhos ferindo as entranhas. Foi viver naquele mundo feio e cheio de armadilhas, cinismo, desconfiança e ciúmes, querendo entender, querendo servir e com muito medo de pertencer. A casa era decente, mas nem um filho… E pior era viver pensando uma coisa e falando outra.

Naquela manhã pensava em não pensar o que pensava, agir ou não, olhando fixamente para o grande quadro da santa ceia que encobria o buraco na parede, entulhado com a última remessa das drogas da morte. Até Jesus que deu a vida ensinando que todos eram filhos do mesmo Deus continuava sendo traído. Credo! Noutros esconderijos espalhados pela casa, estava armazenada a mercadoria de menor valor. No começo ela fingia que não sabia. Via o movimento e aprendia da vida marginal. Logo decidiu trabalhar com o que sabia, para servir com decência aos necessitados. Sentia-se redimida sem participar daquele comércio infeliz. O outro prato da balança…

O trabalho como assistente social era suficiente para manter-se, honrar os compromissos. Mas no entorno, naquela vizinhança de pessoas alheias, identificava os filhos e pais mal remunerados ou desempregados, que vacilavam entre poder comprar o pão, a erva ou o pó; equilibravam-se na corda bamba entre a miséria e a vontade de viver. Muitos trilhavam as rotas da violência e do roubo, sem capacidade de autocensura. A televisão era como o diabo assumindo o trono de um deus que ensinava tudo quanto não prestava e aplaudia, como perdoando a leseira da crueldade e do sadismo, fomentando a ignorância e o cinismo. Ela experimentava a própria confusão mental, ouvindo, vendo e vacilando, caraminholando o ato extremo. Assustou-se com a voz do traste:

Cadê meu café?… – Bocejando ele falou que a chuva ia atrapalhar o comércio daquele dia.

Vai pegar você mesmo… Sabe onde é a cozinha? Eu vou me arrumar pra trabalhar.

Olhou mais uma vez para o quadro da santa ceia e imaginou que servindo veneno lento nos alimentos do traste, poderia esgrimir a cólera homicida, para eliminar aquela peste incapaz de amar, de perdoar, de unir-se para construir e compartilhar. Incapaz de reconhecer no outro a própria imagem e semelhança.
No ponto do ônibus estava o orelhão telefônico. Olhou para os lados. Estava só. Agiu. Ligou anonimamente para a polícia e deu o endereço, revelando onde o traste guardava a mercadoria de menor valor. Ela tinha certeza de que o desgraçado reagiria à batida policial e esperava que fosse eliminado, delicadamente, único morto com uma bala certeira nas fuças trocando tiros com agentes da lei, que iam revirar a casa e encontrar na gaveta chaveada uma gorda quantia de presentes. As pedras, o pó, fumo e revólver seriam provas do crime pra mostrar na televisão.

Aquele foi seu dia de sorte. Tudo correu mansamente. Tudo aconteceu como ela havia imaginado. O policial foi buscá-la no local de trabalho e o delegado a soltou depois de um rápido interrogatório, verificando que ela trabalhava e convencido que nada sabia sobre as atividades criminosas do traste. Chorou! Repetiu diversas vezes: “Meu Deus! Que horror! Como fui ingênua!” Podia mentir com facilidade para defender-se da justiça dos homens, uma justiça tão cínica e depravada como ela mesma, naquele universo em que as vozes interiores do coração e da mente buscavam conciliação… Difícil!

Pra reforçar sua posição, nem foi ao enterro do defunto. Foi trabalhar. Meses depois, antes de vender a casa, removeu o quadro da santa ceia, retirou a mercadoria, tapou cuidadosamente o buraco com cimento branco e pintou a parede. Mudou-se para um endereço mais discreto, levando o grande quadro com a figura de Jesus, amável e tranquilo sabendo que logo seria traído. A mercadoria, pensou, era o mesmo que as trinta moedas pagas pela traição. Perdão Jesus!

Dois meses depois, com a ajuda de um policial amigo, administrava o mais organizado ponto de negócios informais: Tapioca, Assaí e Sorvete. O forte da receita financeira entrava com a venda da “mercadoria” que atraía os fregueses de sempre. Ao fumo e ao pó eram misturadas pequenas doses de veneno, que levaria os consumidores à morte lenta e segura. Tudo era armazenado em novo depósito, atrás do quadro da santa ceia. Sempre que atendia os fregueses, Mada os despedia mostrando cuidado e compaixão piedosa:

“Vai pela sombra, descanse em paz”.

Acompanhava os passos ansiosos do infeliz até vê-lo sumir na esquina. Voltava aos afazeres domésticos cantarolando “ninguém é de ninguém…” e pensando que cada um escolhia seu quê fazer e pouca gente se importava com o destino dos outros. Mas ela se importava com as crianças e sempre oferecia sorvete de graça.


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