23.6 C
São Paulo
domingo, 19 setembro, 2021

RESENHA丨O Antigo Regime e a Revolução

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Nesta coletânea de ensaios, Alexis de Tocqueville debruça-se sobre as causas da Revolução Francesa

Os ensaios publicados por Alexis de Tocqueville sob o título de O Antigo Regime e a Revolução (L’Ancien Régime et la Révolution) são presença obrigatória na lista bibliográfica do status questionis sobre o tema. Para qualquer indivíduo minimamente interessado em estudar a gênese do Estado Moderno, estes ensaios, publicados em 1856, enriquecem a perspectiva dos acontecimentos com reflexões lúcidas, embasadas em pesquisas em fontes primárias.

O leitor descobrirá que, muito antes do estabelecimento definitivo (e desastroso) do Estado Moderno, o Antigo Regime já capengava. A principal característica do trabalho investigativo de Tocqueville é a honestidade intelectual, a preocupação em acessar, por meio de um esforço sincero, a verdade dos fatos. O autor demonstra que, muito antes do autoritarismo assassino da Revolução (poucas décadas antes de 1789), a monarquia francesa já colhia os frutos da centralização excessiva do poder.

Tocqueville teve acesso aos registros paroquiais (equivalentes aos registros municipais) das diversas regiões da França durante o Antigo Regime. Desde a primeira metade do século XVIII, pelo menos, os franceses já sentiam os efeitos da diminuição da autonomia das suas comunidades, das associações livres, das corporações de ofícios, das guildas, da vida comum nas vilas mais distantes. Durante todo o transcurso deste século a coroa esforçou-se para tomar e manter o poder de decidir tudo.

O leitor perceberá que o autor concentra-se também nas relações sociais: a plebe, o clero e a nobreza. Tocqueville demonstra como a centralização excessiva do poder sob a coroa implicou na substituição das antigas (e altamente saudáveis) relações medievais entre o senhor e o servo por um corpo grotesco de relações artificias entre o povo e a burguesia. Esta, como demonstra o autor, tomou o lugar da aristocracia, da nobreza que mantinha com o povo laços perpétuos de fidelidade e de proteção.

É verdade que, sob o Antigo Regime, o homem comum tinha menos direitos na letra da lei; no entanto, este mesmo homem desfrutava de um nível objetivo de liberdade inimaginável para o citoyen do Estado Moderno. Toqueville demonstra que a Revolução oficializou o rompimento definitivo das relações naturais entre o governo e os governados que já se manifestara décadas antes do fatídico 1789. O Estado Moderno, essa hipocrisia institucionalizada, cresce na exata proporção dos “direitos” que ele jura defender. O autor de L’Ancien Régime et la Révolution soube capturar esta realidade.

Edição da Martins Fontes Editora. Fonte: Divulgação

Com informações de Tocqueville, Alexis, O Antigo Regime e a Revolução, Martins Fontes Editora, tradução de Rosemary Costhek Abílio, 1ª edição São Paulo 2009.

“O maior cuidado de um Governo deveria ser o de habituar, pouco a pouco, os povos a dele não precisar”.

Alexis de Tocqueville

Gosta de nosso conteúdo? Assine Esmeril, tenha acesso a uma revista de alta cultura e ajude a manter o Esmeril News no ar!

- Advertisement -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais do Autor

CRÔNICA丨Perda

Afrânio era um aprendiz de tipógrafo na Corte que, depois do trabalho nas oficinas da Rua da Guarda Velha,...
- Advertisement -spot_img

Artigos Relacionados

- Advertisement -spot_img