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domingo, 19 setembro, 2021

O TEMPO

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

O tempo é passagem, não só do nascimento à morte, mas da finitude à eternidade

Apois!… Como diria dona Alzira, na iluminada sala de costura, diante da grande almofada, tecendo rendas com os bilros tagalerando, à medida que as linhas, seguindo o batalhão de alfinetes, se transformavam em delicadas obras de arte.

Dona Alzira era viúva dedicada aos filhos, Amélia e João Bosco, este um estudante aplicado, seguindo os passos do pai falecido, um professor da escola pública, apaixonado por literatura e música. Todas as noites a família reunida depois da última refeição, ouvia na interpretação do moço, homem da casa, a leitura de um romance, obra teatral ou poesia. Por vezes a reunião contava com a presença de vizinhos amigos que enriqueciam o espírito ouvindo aquelas leituras, admirando os olhos verdes, os lábios bem marcados e o cabelo negro cacheado do moço imberbe de voz agradável e varonil.

Ia esquecendo de dizer que eram outros tempos, outros costumes, outros valores perpassando a mente das pessoas e guiando para as ações solidárias, respeitosas, aconchegantes e agradecidas a Deus pelo ar, pela água, pelos alimentos de cada dia naquele espaço que ambientava a emoção pelas pequenas conquistas, festejando amorosamente os casamentos, nascimentos, batizados, procissões e novidades que aliviavam os fardos da vida.

As casas da pequena cidade eram pintadas com cores vibrantes e as ruas arborizadas com oitis e mangueiras para a alegria da criançada e dos passarinhos que aproveitavam dos frutos e teciam ninhos. Crianças e passarinhos usufruindo o perfume e os sabores da vida em plena liberdade. Era bonito de ver desde a alvorada ao entardecer, quando os sinos anunciavam a hora da Ave Maria. Hora de recolhimento respeitoso quando as portas das lojas eram fechadas e as mães mandavam as crias para o banho antes do jantar.

Um dia, de repente, as mocinhas suspiravam, sonhavam com o encontro com a heroica persona superior, o herói que as viria raptar em cavalos alados ou numa engenhoca como aquela descrita no cordel do Pavão Misterioso ou num tapete voador das Mil e Uma Noites, versão preferida por Amélia enquanto o coração de João Bosco ficava acelerado com a leitura das aventuras de Marco Polo e com os românticos cavaleiros da Távola Redonda.

Num daqueles dias, João Bosco encontrou numa das gavetas, entre velhos papéis do pai, um livrinho que falava do autoconhecimento como um valor inestimável e lançava questões que ele nem havia pensado: quem sou? De onde venho? Para onde vou? A cabeça esquentou como se um raio atingisse os neurônios.   Resolveu então, sem revelar o achado à mãe e à irmã, encontrar sozinho as respostas, acrescentando mais uma questão: que quero ser ou fazer no meu tempo de vida?

Decidiu então anotar tudo quanto emergisse da meditação sobre cada questão. Era um desafio que exigia disciplina continuada. Foi até a bodega da esquina e escolheu um daqueles cadernos que traziam na capa a imagem de uma bela dama figurando a liberdade, ostentando a bandeira brasileira e levando pela mão uma criança, ambos flutuando num espaço de sonho.

Quem sou? Ora, sou João Bosco, filho dos meus pais, que são filhos dos meus avós, que são filhos dos meus bisavós, que são filhos dos meus tataravós… Tem mais: carrego a memória genética de todas as gerações anteriores… Até Adão e Eva, será? Tem mais: aprendi e acredito que todos os humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus, imagem revelada na passagem de Jesus pela terra. Semelhança? Está na alma, ente invisível, mas percebida essência da vida física em trânsito limitado, passageiro, até que  a alma se desprende e o corpo se desfaz em pó.

De onde venho? Agora é só acrescentar que venho do seio materno, cheguei aqui como resultado do ato amoroso dos meus pais, ato transcendental. Melhor seria pensar onde estou: nesta casa, nesta cidade, neste país, neste planeta, nesta galáxia, neste Universo, na qualidade de um pontinho ínfimo formado de carne e osso, formado de matéria transitória que se move, pensa, age em harmonia com minha alma imortal.  

Para onde vou? Ora sô! Nos limites deste planeta posso ir ali, acolá, mas finalmente continuo sendo parte desta minúscula e bela criação, como persona emocionada com a vegetação, com as montanhas, com os mares, com os frutos e com todas as formas de vida com as quais me relaciono e das quais dependo até voltar à dissolução na forma material original. A alma livre voando para outras dimensões da eternidade, carregando a experiência da vida junto ao corpo que fui.

Uma outra imagem surgiu: a de navegante solitário em um barco onde dispunha de todas as vivências, aprendizados e memórias do visto e do sonhado. O barco transportava a percepção e história do tempo de vida vivida e por viver. Assim pensava quando emergiu a consciência da necessidade de abraçar a missão de vida pessoal, exercendo uma profissão ou vocação objetiva. Deparou-se com a pirâmide da organização social no instante em que se viu diante da consciência que caracteriza os pensamentos e ações humanas.

O que era a consciência? De que fonte brotava para estar presente naquele espaço de tempo íntegro, contínuo, conduzindo às visões, aos cenários ditos “passado”, “presente”, “futuro”, – termos que situavam a percepção da existência carregada de pensamentos, visões intuitivas, sentimentos apartados da mente racional? 

João grafou em seu caderno que a consciência brotava do universo, ligada à fonte original da criação. Aquele era o ponto de   acesso ao tempo em sua totalidade, integridade magnífica, verdade   inalcançável para a mente física, que apenas tinha acesso a fragmentos, que humanos geniais transformavam em objetos materiais dedicados ao bem comum. 

Sentiu então uma alegria incomum brotando do coração e perpassando cada célula do corpo. Lembranças, sentimentos, sensações até então desconhecidas, imagens, sabores, visões intuitivas povoaram naquele momento a mente juvenil que decidiu: – quero viver em liberdade e mergulhar na fonte do saber, atento à beleza de todas as formas de vida.

Fechou o caderno. Deitou-se sentindo-se um ponto de luz vagando nas imensuráveis dimensões do espaço. Sentiu profunda gratidão enquanto seus lábios murmuravam uma oração que o ligava a todas as pessoas que no momento pronunciavam suas preces ao Criador. Os sonhos o levaram ao passeio pelos campos do tempo único e eterno.


Estamos em mundo tão singular

que o viver é só sonhar

e a vida ao fim nos impõe

que o homem que vive, sonha

o que é, até despertar… porque toda a vida é sonho

e os sonhos, sonhos são

— A vida é sonho, Calderón de la Barca


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