Há livros e há literatura. Luiz César de Araújo produz literatura, registro costumeiramente distribuído através de objetos chamados “livros” — os quais não necessariamente contêm literatura, poeticamente falando.

Em cinco contos, A vida é traição, mote do segundo, revela o ser humano em sua melhor forma: biruta, controverso, alheado da realidade e de si mesmo, ingênuo, prepotente, invejoso e (porque a essência a temos todos em comum) descaradamente desigual.

Tonifica cada face do desfile o talento de um mestre de títeres, manietando os bonecos com os quais mimetiza a graça do mundo. Luiz César de Araújo, assim, produz literatura porque escreve belamente e porque entende a alma humana, cujos recônditos mais desprezíveis o interessam com intensidade — a mesma despertada pelos laivos de virtude que surgem aqui e ali, no mar de miserês e hilariedades de que é feita a vida humana.

“Somos tais como a matéria de que se fazem os sonhos”, diz o alquimista de Shakespeare que protagoniza A Tempestade. Justamente porque estendemos sentimentos, raciocínios, ilusões, pecados e virtudes na indefinida malha do mundo, cuja forma é um entrevero permanente dessas coisas em variações ilimitadas.

Livros passam; literatura fica. Como a alma, relativamente aos homens em particular

Luiz César de Araújo foi o primeiro autor, tendo em mente a nova geração de escritores surgida para aliviar os aficionados por letras da sede por novidades, publicado pela Danúbio Editora; e a primazia na ordem material (o livro saiu em 2015) parece refletir tal qualidade na ordem do talento.

O último conto da série, que partilha com os anteriores o caráter imprevisível do desfecho, é o mais sintético e bem acabado, revelando que a arte do conto permanece firme e forte na cultura brasileira. Hilário ver um dândi beletrista bem nascido e bem provido encantado pela máscara de seus próprios sonhos, que um tratante arguto e fino põe no rosto a fim de roubar-lhe com facilidade e doçura.

Há, contudo, um entretanto neste livro: não foi feito para adular ninguém; a não ser, talvez, a expectativa do autor quanto à sua capacidade de plasmar em motivos de seus quadros um notável apreço pelos clássicos — que, evidentemente, toma por modelo.

Pontuam os contos extratos de obras célebres, alusões graciosas a personagens e autores que permeiam o imaginário de qualquer amante de literatura. Todos deslocados, em comparação ao original, revelando que a arte de criar histórias por meio da fabricação de imagens é um empréstimo sem prestação de contas — para salvação do original primário e do que o secunda na ordem do tempo; mas não na ordem da arte

Há livros e há literatura. Luiz César de Araújo fabrica os primeiros para dar vida à segunda. Do tipo que vem para ficar.


Balzac já disse que “todo homem, a menos que tenha nascido rico, enfrenta assim o que é preciso chamar a sua semana fatal. Para Napoleão, essa semana foi a da retirada de Moscou.” Para Richard, foi a da demissão.

Luiz César de Araújo, “A Vida é Traição”

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