Comparado a Edmund Burke, o filósofo inglês foi um dos defensores mais ferrenhos da liberdade – e da tomada de decisões políticas fora do bloco europeu

No segundo verso do hino God Save The Queen, os britânicos clamam:

“Oh Senhor, derrote os inimigos da Rainha, confunda suas políticas e frustre seus truques indecentes”…

De fato, toda a tradição representada pela monarca Elizabeth II foi exposta a dois infortúnios nas últimas horas. Pela ordem, a anunciada – e embaraçosa – renúncia do príncipe Harry da Família Real e a mais significativa delas: a morte de um dos ícones do conservadorismo do Reino, Sir Roger Vernon Scruton (1944-2020), autor e filósofo comparado a Edmund Burke (coincidentemente, nascido em 12 de janeiro, data de falecimento de Scruton).

Mas a perda do intelectual inglês não abalou somente as estruturas político-culturais de forma retórica. No iminente divórcio da União Europeia, o processo de execução do BRExit não poderá contar com um de seus defensores mais ilustres. Ao menos, de corpo presente.

União Europeia x Comunismo

Dias após o referendo proposto pelo então premier, David Cameron, Sir Roger Scruton defendeu a saída do Reino Unido da União Europeia, apontando que a retirada de seu país da organização não significava, de forma alguma, “deixar de ser europeu”.

Em julho de 2016, Scruton reivindicou suas tradições e comparou a estrutura do bloco à extinta União Soviética

“Me considero europeu, primeiramente, porque nasci num país europeu e não no bloco da União Europeia – que não existia na época. Mais importante do que isso, porque sou herdeiro da fé Cristã, da Lei Romana e da civilização europeia…

Quando Lenin impôs o comunismo que daria origem à União Soviética ele destruiu todas as instituições que seus opositores poderiam se apoiar. Não havia mais como reverter o processo e a União Soviética durou 70 anos. Criar um sistema político que não possa ser alterado é um grande erro. E isso foi o que a União Europeia fez”.

Scruton e o “sentimento nacional” pós-BRExit

Por 358 votos a 234, a Câmara dos Comuns definiu no último dia 20 de dezembro que o processo de saída do Reino Unido da União Europeia finalmente aconteceria a partir de 31 de janeiro deste ano – feito que, sem qualquer dúvida, alegraria a Dama de Ferro, Margaret Thatcher, que já alertava para os perigos de um “super estado” europeu em 1988.

 A conquista do primeiro-ministro Boris Johnson do Partido Conservador concluiu um doloroso (e infértil) processo de articulação iniciado por sua antecessora, Theresa May, que chegou a renunciar após três derrotas consecutivas no Parlamento.

Sir Roger Scruton pode não ter sido o patriarca do Brexit, mas sua articulação como pensador e influente personalidade no Reino Unido ecoou por toda Grã-Bretanha – e pelo mundo.

Em palestra ministrada no evento Europa na Encruzilhada, Scruton trouxe à luz um dos discursos mais embasados sobre o Brexit, colocando na balança valores como tradição e patriotismo, sem esquecer do pragmatismo político.

“…Em toda a Europa, o multiculturalismo foi colocado em xeque, tanto pelo povo como por grande parte de seus representantes políticos…. Já o multiculturalismo destruiu os restos frágeis da cultura nacional que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial.

Essa é uma das razões pelas quais as pessoas que defendem sua identidade nacional podem ser tão facilmente levadas a parecer extremistas. Você não parece um extremista se é capaz de expressar seu sentimento nacional”.

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1 Comments

  1. É uma pena que Sir Scruton tenha partido antes de testemunhar a concretização do BREXIT, movimento que ele a ajudou à tomar corpo por meio de seus textos lúcidos sobre o assunto, porém é reconfortante saber que ele deixou um legado de mais de 50 livros, legado este que ajudará a população dos outros países da UE à compreender o valor do patriotismo e dos demais preceitos conservadores.

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