Estréia da coluna de José Anselmo Santos para a Revista Esmeril.

A alma cuja residência alguns dizem ser no coração, convive com cada célula, em contato permanente com a consciência da eternidade, alertando-nos para o sentido natural da vida.

Para chegar a convicções parciais, aprendi ensinamentos do cristianismo, de hindus, budistas, taoístas e outros pensadores, historiadores…  

Que amplificaram a visão cristã de minha formação desinformada. Os autores lidos são coautores destas páginas. 

O racionalismo cartesiano vai pra cucuia quando nos habituamos a usar as vestes do espírito cavalheiresco, erguendo a espada contra as diretrizes teóricas que apontam a natureza como inimiga e os humanos como seres irracionais. O amor é uma expressão anímica. É preciso, artístico, definido e quebra todos os padrões considerados normais, viola todas as regras condicionais ou impositivas, dedica-se a “fazer o bem sem olhar a quem”. O bem é tudo quanto, em cada situação específica, a gente faz aos outros como se estivéssemos fazendo a nós mesmos.

Como denominar humano o fato de enviar trabalhadores e seus filhos, retirados das fábricas, das atividades rurais e das escolas, para matar e morrer numa guerra? As corporações que integram o complexo industrial/militar (em qualquer latitude!) igualam as pessoas no mesmo nível, como serviçais das estruturas de poder econômico e político.  

As guerras que conduzem como negócio resultam na destruição de crenças e culturas, na submissão que aflige e empobrece grandes contingentes humanos. O terror continuado anula a vontade, a dignidade, os valores das famílias e indivíduos. E para isso, os senhores da guerra utilizam a boa fé de uns, as crenças implantadas em outros e as armas sórdidas da lavagem cerebral e da propaganda, urdidas para controlar mentes com drogas, hipnose, artifícios linguísticos, controle mental, simbologia arquetípica, mensagens subliminares e outras técnicas cientificamente elaboradas. 

Por que aceitar o que nos dizem aqueles que fabricam a quantidade de dinheiro que querem, como se este meio de troca fosse valor maior que a vida? Por que aceitar o que nos dizem os que formulam leis e normas que nos afligem? Por que dançar ao ritmo de uma música incômoda, que embaralha os sentidos e perturba a alma? Por que acreditar na desinformação dos meios que servem para manter o status de um pequeno grupo controlador de bilhões de seres adestrados para atuar como escravos, impedidos de pensar livre e viver dignamente? Quem tem segurança completa neste ambiente conturbado?

Lembro meu pai dizendo ser melhor plantar errado que deixar de plantar. Equivale a comprometer-se, fazer e aprender com os atos inseguros. O velho Antônio dizia que a liberdade era um dom dos espíritos que buscavam o saber contido na natureza e nos livros e na capacidade de ouvir a alma, ou a própria intuição.

– José Anselmo Santos

Dos livros e da observação concluí que a propaganda, que alicerça o progresso, adestra para a competitividade no sentido de vencer, superar, imobilizar, até destruir o outro num vale tudo feroz. O sucesso, fama carreada pela excelência individual, capacidade de “matar um leão a cada dia”, traz o dinheiro, que por sua vez é condicionante da relativa estabilidade material e egótica nas grandes urbes. 

Lá no mato, em qualquer espaço limitado sob qualquer bandeira, observando costumes e valores passados de uma geração para outra, as percepções e relações com o ambiente são outras.  O universo das   crenças, a fé, a dependência e observação das leis da natureza distinguem os que vivem à margem da intrincada teia da civilização urbana: reconhecem uns aos outros exercendo tarefas complementares, agradecem a Deus do modo como o concebem, pelo vento, pela chuva, pela safra, pelo canto dos pássaros. Em lugar de competir ou “guerrear” colaboram entre si. São ilhas cada dia mais raras. Os valores são aqueles tradicionalmente eficazes e consagrados no trato social e produtivo. 

Não obstante a invasão persistente da mídia eletrônica e da televisão que distrai, perverte e desinforma, subsistem traços importantes do espírito crítico. Valores que foram transferidos para as urbes nas bagagens mentais dos que abandonaram a “primeira onda” da civilização (no dizer de Alvin Tofler), passaram pela revolução industrial e constroem uma civilização que emerge aceleradamente diante da falência e tirania dos Estados gigantescos e controladores. 

Os fatos que afligem os cidadãos que moram nos grandes centros, cercados de grades e câmeras, circulando em carros blindados; os fatos estressantes estimulados pela revolução cultural nos últimos 50 anos, são apenas notícias da televisão, da revista, que pouco ou nada afetam a vida dos que sobrevivem da agricultura. Já nos ambientes dos trabalhadores industriais, dependentes da posse de veículos particulares ou transportes coletivos, dependentes da posse de um espaço – casa ou “apertamento” – pelo que pagam durante a metade da vida, dependentes das variações políticas manipuladas pelas políticas econômicas, da organização social e da concentração dos recursos, o estresse, as enfermidades e a insegurança fazem profundos estragos mentais e consequentemente físicos. 

Tudo acontecendo a poucos passos da “primeira onda” descrita por Tofler em seu livro “Terceira Onda”.  Está noutro livro do mesmo autor, “Choque do Futuro” a frase: “Mudança é o modo como o futuro invade nossas vidas.” Como só podemos fazer mudanças em nós mesmos, me contento em viver a simples finalidade precípua da vida na certeza da amizade e harmonia com a natureza. Na certeza de poder servir e contar com os outros é gratificante apreciar valores como dignidade, solidariedade, virtudes como a compaixão, misericórdia, pureza, simplicidade, generosidade, as reconhecendo em cada ato; e observar as fraquezas que dificultam a humanidade em seus estágios evolutivos. 

A casa, o carro, a televisão, o computador, o celular, os cartões de crédito ou o filho do analfabeto funcional tentando superar limites numa universidade (de cabresto), são dádivas de Deus, recompensas pela ação correta e sistemática, muitas vezes considerada excedente. 

Minha prima, Maria José, já falecida, morava na mesma casa espartana há mais de 30 anos; comprou uma televisão, mas negou o pedido dos filhos, um deles estudante universitário – um computador e uma linha telefônica?

– Pra que? Vai é dar mais despesa… Busquem o saber na leitura.

Durante a vida fazemos muitas escolhas românticas e colhemos muitos resultados incômodos. Prevalece a contrariedade, hoje traço cultural, a escolha do mal menor, sabendo que os eleitos se colocam acima das leis que fazem e modificam em seu benefício, desprezando as carências dos eleitores. 

O trabalhador foi ensinado a pensar que o empresário fica com a parte do leão, esquecendo que o leão maior, o sócio impositivo é o Estado, através de seus agentes. A maioria eleitora é marcada por situações contingentes como se alimentar, morar, orientar os filhos, cuidar da saúde, pagar impostos e escolher em quem votar obrigatoriamente. As decisões que tomamos são alardeadas como escolhas de caráter, integridade. Algumas, sim. A manipulação dos meios de informação contemporâneos corrompe a mente. Em consequência, nem todas as opiniões e decisões são morais ou resultantes de reflexões pessoais, éticas. 

Pesam os valores. Por mais odiosa e canalha, por mais virtuosa e digna que possa parecer, uma decisão preserva algo essencial, seja uma crença ou o sentido de proteção e sobrevivência.  A interpretação dos fatos é direcionada pela máfia internacional objetivando o pensamento único, a opinião homogênea, manejada com perícia pelo exército de “pesquisadores de opinião”, profissionais que bem poderiam ser dominados “manipuladores mentais”. As pessoas envolvidas são números, estatísticas, referências, pedaços torcidos e desfigurados de criaturas úteis, consideradas burros de carga ou estátuas ou peças descartáveis, sucata.


Uma vida sem pensamento é totalmente possível, mas ela fracassa em fazer desabrochar sua própria essência – ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva. Homens que não pensam são como sonâmbulos.

– Hannah Arendt

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Revista Esmeril - 2021 - Todos os Direitos Reservados
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