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quinta-feira, 28 outubro, 2021

PERUANDO O JOGO DA VIDA

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

A sabedoria em seus derradeiros dias

Sabe aquela pessoa que fica de fora observando o jogo de xadrez, tentando perceber as intenções e falhas dos jogadores? Então, com as reservas e limitações de um homem isolado, meu Vô foi um “peru” desta civilização, empurrada para a decadência. Passou os últimos anos da vida num pequeno sítio, perto de um vilarejo onde o conheciam apenas como “o velho”.

A casa era acolhedora e rodeada de varandas sombreadas por trepadeiras iluminadas pelo sol que bordava arabescos no piso. Ali uma rede, acolá uma cadeira de balanço austríaca, daquelas antigas, de vime trançado. Uma mesinha rodeada de bancos individuais que ostentava um vaso com avencas, uma garrafa térmica com café e uma garrafa com água ao lado da janela pintada de azul em contraste com as paredes brancas.

Daquele recanto se divisam colinas distantes e o portão de entrada que limitava o gramado, ladeado pela touceira de bambus. Depois era a estradinha de terra batida que dava acesso ao resto do mundo, um mundo cinzento abrigando o barulho incômodo de motores, buzinas, sirenes e sons alucinados, incômodos, agressivos, bem   diferentes da música dos grandes mestres que que ele costumava ouvir na velha vitrola  Grunding, para elevar os pensamentos e pacificar a alma.

O Vô nasceu quando a II Guerra Mundial começou. Era um tempo bem diferente de agora. Imagina como seria a vida sem eletricidade? Sem internet? Sem estradas asfaltadas? Sem água encanada em casa? Sem supermercados? Sem televisão? Ele escolhera descansar ali, no campo, sem estrada asfaltada, sem internet, sem celular, apenas com o mínimo conforto da eletricidade, uma vitrola, discos e livros.

Era de tardinha e ele estava sentado no tronco de madeira que servia de banco, sob o abacateiro. Sorvia a fumaça do último cigarro e soltava a fumaça para que se juntasse às nuvens, entre as cores do céu. Lulu, uma cadelinha branca cochilava ao lado. Algumas galinhas ciscavam ali perto.  Naquele recanto o Vô me contou passagens da vida, sempre ao entardecer, até que a Vó se acercava e o convidava:

– Vamos entrar, meu velho?

Ele estendia a mão que ela tomava, levantava-se e seguiam os dois de braços dados.  Ambos sabiam que num dia cada vez mais próximo, voltariam à sua forma original. O Vô me disse uma vez, que os viventes costumam identificar os túmulos inscrevendo a presença de “restos mortais.” O correto seria dizer “restos vitais” que se transformavam, viravam grama, flores, moitas e até árvores. Que nem borboleta a alma saia do casulo e flutuava em direção ao infinito.

O Vô entendia de gente.   Conviveu com párias, trabalhadores pobres e ricos, pensadores, religiosos, cientistas, artistas, empresários, representantes do poder   revolucionários e conservadores. Sempre, como peru observador, manteve a liberdade interior, aprendendo em silêncio sobre a inconsequência dos homens, que afirmavam valores e praticavam o incoerente contrário.

Vou lhes contar do que o vô me contou. Então quero que vocês fechem os olhos um instante e imaginem uma vila pequenina, meio parecida com aqueles povoados que aparecem nos filmes medievais: o leito das ruas cobertos de areia branca, ora avermelhada. Uma praça da feira com gente vendendo objetos artesanais e alimentos como farinha de mandioca, verduras, frutas e legumes, grãos, pães, cestas, esteiras, cordas, fumo de rolo… O maior edifício do lugar é a igreja que olha tudo ao redor.

Num canto da praça estão muitos cavalos e mulas com os arreios presos a estacas. Do ouro lado as casas e alguns bares, como aquelas estalagens dos filmes, com muita roceiros falando alto, bebendo e comendo. Assim foi o cenário da infância do vô. Na adolescência foi estudar na capital. Na juventude, envolvido pelas ideias políticas, foi pra cadeia e sentiu o medo do desconhecido aumentar depois de fugir e virar clandestino.

Foi quando uns colegas estudantes o acolheram. Conversa vai, conversa vem, todos estavam decididos a sabotar o governo dos militares. Como e quando? Surgiram dezenas de organizações arrebanhando seguidores dos muitos próceres políticos que deitavam falação e arrotavam um poder que parecia fundamentado, pois o novo governo estava prendendo meio mundo e tinha de cair.

Toinho falou:

– Tenho um contato com o pessoal que está no Uruguai. A gente pode pedir asilo. 

– Como é isso?

– A gente entra numa embaixada e pede asilo. A embaixada é território onde o governo não pode prender a gente. Se o Uruguai, o Chile ou o México estão concedendo asilo político é só escolher.

– E depois?

– O país que conceder o asilo nos tira daqui sãos e salvos, é lei internacional. Ajudam a gente a trabalhar, estudar…

– E aí Vô?

Sem alternativas dancei conforme a música do momento. ‘Em Roma como os romanos.”

– Donde vem esse ditado, Vô?

Santo Agostinho mudou-se para Milão, para ensinar retórica e descobriu que ali não seguiam o costume de jejuar aos sábados. Daí Santo Ambrósio que era o arcebispo de Milão o aconselhou: “quando vou a Roma o jejum é aos sábados, mas aqui não vou ficar de barriga vazia…” – daí, em Roma como os romanos. 

Segui a carruagem para o exílio. Foi bom. Tive o tempo preciso para aprender que os generais, presidentes, reis e suas cortes, são esquecidos ou minimamente lembrados. Mas nomes como Dante, Shakespeare, Camões, Cervantes, Aquino, Agostinho, Tolstoi, Dostoievsky, Beethoven, Bach, Da Vinci, Van Gogh e tantos outros que plasmaram a beleza do espírito em obras literárias, musicais e pictóricas permanecem. Comecei a ler na prisão. Depois mergulhei na beleza dos museus e dos teatros.

Eles ensinam que o sentimento de realidade repousa num leito de crenças, na experiência e reflexão individuais que se afastam da opinião dos outros.  É essencial viver o amor e a verdade está colada à justiça das leis universais, únicas que podem compensar e guiar para fazer o melhor e superar os males que uns causamos aos outros.

Se as bombas dos arsenais americanos, russos, europeus e asiáticos, fabricadas com o trabalho de mineradores, transportadores, operários e cientistas remunerados pelos senhores da guerra fossem acionadas, não restariam torturados nem torturadores, governantes, nem governados, nem cristãos, islamitas, judeus nem palestinos, nobres ou plebeus, pretos, brancos, amarelos ou vermelhos, justiça ou injustiça. Apenas o silêncio quente e pacificado de um ponto no espaço infinito. 

E cada um de nós é parte desta civilização, ecoando e reproduzindo os mesmos pensamentos, comportamentos, palavras e ações. Assim temos pretendido, desde tempos remotos, como crianças   imaturas e cruéis, com medo do escuro, buscando esconderijos que não existem, porque ninguém se pode esconder de si mesmo. Depois de tanto sonhar e imaginar-se no caminho da perfeição a gente se descobre como um ponto circunstancial no   domínio de uma consciência ética eterna e imutável. To be or not to be! Viver na luz ou na escuridão.

Todas as mentes estavam atentas e obedientes ao papel do estado e das religiões. Bem antes, na esteira da Revolução Francesa, as cortes   cuja influência e poder de persuasão, no grito ou no fio da espada, dominavam o mundo conhecido, fomentando o comércio e conquistas guerreiras, decidiram separar as figuras de governo. 

À figura sobre o trono a lei facultou o poder total sobre a condição de vida e morte dos humanos. A direção dos negócios espirituais no mundo cristão ocidental, era atribuição exclusiva dos sacerdotes por delegação de Roma, onde reinava o Papa determinando os assuntos de estado, e na qualidade de “representante de Deus na terra”, com poderes para perdoar, consolar e conduzir   os humanos nos campos da fé. 

Ainda na juventude, visitei Roma. Os lugares “santos” – cada basílica, o museu do Vaticano, as catacumbas de São Calixto, o Coliseu, a Via Apia… Para receber a benção do Papa, fui até Castel Gandolfo onde ele estava em férias de verão.  O Papa de férias! Aquilo era assim como desligar-se das obrigações. Férias significavam tempo livre, tempo para o ócio papal sem responsabilidades, longe do mundo. 

A rua de acesso ao castelo tomada por lojinhas onde os eram vendidas as “relíquias dos santos”, folhinhas das oliveiras do horto onde Jesus esteve em oração, fragmentos das vestes de um ou outro santo, terços bentos, água do Rio Jordão…  Lembrava a rua de acesso à Basílica de N. S. Aparecida no interior de São Paulo, entupida de quinquilharias. 

A praça interna do castelo estava lotada de turistas falando todos os idiomas e fiquei atento – franceses, alemães, espanhóis, africanos – ouvia   o som de tantos idiomas – de repente o milagre! Eu entendia tudo quanto as pessoas falavam ali perto! Olhei ao redor e vi a bandeira do Brasil no chapéu de uma turista.

– Você é brasileira, eu também!

– Somos do Paraná, minha família toda está aqui.

O papo continuou e nos reencontraríamos em Roma. O que eu pensava ser um milagre foi arquivado. Que decepção! Ainda seria preciso estudar muito para entender os idiomas da Babel. Paguei trinta dólares por dois certificados da benção do Papa em nomes da minha mãe e da minha avó. Chegaram um mês depois pelo correio. Pareciam um diploma de luxo, escrito em letras góticas coloridas, garantindo “o perdão de todos os pecados se na hora de morte (elas) pronunciassem ou apenas lembrassem o nome de Jesus.”

Um velho álbum mostrava as fotografias dos lugares visitados. Lá estava ele diante do portal de Bernini que emoldura a entrada da Basílica do Vaticano, jogando moedas na Fonte de Trevi, diante da esfinge e das pirâmides no Egito, no Coliseu romano, diante do Monumento a Vitorio Emanuel II, primeiro rei da Itália como nação unificada e uma série de locais turísticos do planetinha desconhecido pela maioria dos habitantes.

Ficava pensando com meus botões de onde vinha tanto poder dos reis, presidentes, governadores, prefeitos, parlamentares para ditar normas, regras, cobrar impostos e fazer toda a gente trabalhar para mantê-los à tripa forra.


O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.

– Aristóteles

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