19.4 C
São Paulo
quinta-feira, 28 outubro, 2021

PERIGO RADIOATIVO | Os EUA ratificam o Tratado de Interdição Parcial de Ensaios Nucleares

Revista Mensal
Jonas Buccinihttp://www.revistaesmeril.com.br
Patriota, Conservador e Entusiasta da História Militar!

Em 7 de Outubro de 1963, o Presidente Kennedy ratificou um tratado de prevenção de testes nucleares

Contexto Geopolítico

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a rendição incondicional dos japoneses, em Setembro de 1945, após o lançamento de duas bombas atômicas em duas de suas cidades, em agosto, pelos americanos naquele mesmo ano, o mundo foi jogado em um contexto geopolítico de suspense.

Era o início da Guerra Fria, com a divisão dos países entre as forças alinhadas aos Estados Unidos (OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte) e aos países alinhados a União Soviética (Pacto de Varsóvia). Ambos os blocos começaram a criar um arsenal de armas nucleares para proteger seus interesses, nessa nova rodada na busca pela hegemonia global. Mas essa corrida armamentista teria um preço para suas próprias populações civis, que se tornariam vítimas da forma mais letal de defesa nacional: as armas nucleares. Para saber quais foram os efeitos dos Testes Nucleares da Guerra Fria na população civil (clique aqui).

Os Testes

Experiência “Trinity”, primeiro teste nuclear da história. Créditos: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Trinity_Detonation_T%26B.jpg

O primeiro teste nuclear da história foi realizado pelos Estados Unidos em 16 de Julho de 1945 no Novo México (EUA), a experiência “Trinity” realizada pelo Projeto Manhattan. Somente em 29 de agosto de 1949, a União Soviética tornou-se oficialmente a segunda “nação atômica”, quando detonou sua primeira arma nuclear em um teste no Cazaquistão.

Entre 1945 e 1980, os governos americano, soviético, do Reino Unido e da França explodiram 510 megatons de armamento nuclear no subsolo, sob a água e na atmosfera inferior e superior. Destes, 428 megatons – o equivalente a 29.000 bombas do tamanho das lançadas sobre Hiroshima, no Japão, ao final da Segunda Guerra Mundial – foram ao ar livre. A maior concentração de testes ocorreu no final dos anos 1950 e no início dos 1960. Por conta disso, as condições atmosféricas e climáticas de 1962-64 eram excepcionais e é improvável que se repitam.

Diferentes tipos de testes nucleares: (1) teste atmosférico (2) teste subterrâneo (3) teste atmosférico superior e (4) teste subaquático. Créditos: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Types_of_nuclear_testing.svg

Os testes também foram realizados a bordo de barcaças, no topo de torres, suspensas em balões, na superfície da Terra, a mais de 600 metros debaixo d’água e mais de 200 metros abaixo do solo. Bombas de teste nuclear também foram lançadas por aeronaves e lançadas por foguetes até 320 km na atmosfera. Pelos EUA foram 1054 testes, URSS; 715, França; 210, China e UK; 45, Índia, Paquistão e Coreia do Norte; 6.

Este gráfico mostra o nível de Carbono-14 (isótopo radioativo) na atmosfera medido na Nova Zelândia (vermelho) e na Áustria (verde), representando os Hemisférios Sul e Norte, respectivamente. A seta preta mostra quando o Tratado de Proibição Parcial de Testes foi promulgado. Os testes nucleares acima do solo quase dobraram a quantidade de radiação na atmosfera, antes que os níveis diminuíssem após o tratado. Créditos: https://earthsky.org/earth/what-is-radiocarbon-dating/

É difícil avaliar o número de mortes que podem ser atribuídas a exposição à radiação em testes nucleares. Milhões expostos à precipitação radioativa, provavelmente, ainda sofrem de doenças relacionadas a esses testes. Os efeitos prolongados permanecem tão silenciosos e problemáticos quanto os próprios isótopos.

Fator ”Kennedy”

Congressista John F. Kennedy sentado à máquina de escrever. Créditos: Encyclopædia Britannica, Inc.

Na posição de Senador (1953-1960), John F. Kennedy (Democrata) sempre apoiou a proibição de testes de armas nucleares. Ele acreditava que com essa pressão outros países desistiriam de entrar na perigosa corrida nuclear. Na campanha presidencial de 1960 se manteve firme nessa proposta, que gerava polêmica principalmente entre setores do Complexo Militar-Industrial.

Government filmmakers document an atomic bomb explosion at the test site in Nevada. 1957
Bem próximos, cineastas do Governo Americano documentam a explosão de uma bomba atômica no local de teste em Nevada (1957). Créditos: Galerie Bilderwelt/Getty

O Presidente Kennedy prometeu não retomar os testes no ar e prosseguir com todos os esforços diplomáticos para um tratado de proibição. Mas os conselheiros políticos e militares temiam que a União Soviética tivesse continuado os testes subterrâneos secretos e obtido ganhos em tecnologia nuclear, pressionando Kennedy para retomar os testes.

Com base numa pesquisa, em julho de 1961, o público foi consultado e aprovou o retorno dos testes por uma margem de dois para um.

Tratado de Interdição Parcial de Ensaios Nucleares

O Presidente Kennedy assina o tratado de proibição de testes nucleares para os Estados Unidos, observado por um comitê de Senadores, o Vice-Presidente Lyndon Baines Johnson e o Secretário do Exterior, Dean Rusk. Créditos: GETTY IMAGES

Após a Crise dos Mísseis de Cuba (em outubro de 1962), os líderes dos EUA e da URSS procuraram reduzir as tensões entre suas nações. Possibilitando a reabertura de um diálogo sobre a proibição de testes nucleares.

Em 25 de julho de 1963, após apenas 12 dias de negociações, as duas nações concordaram em proibir os testes na atmosfera, no espaço e debaixo d’água. No dia seguinte, em um discurso na televisão anunciando o acordo, Kennedy afirmou que uma proibição limitada de testes “é de longe mais segura para os Estados Unidos do que uma corrida armamentista nuclear ilimitada”.

FILE - In this Oct. 7, 1963, file photo, President John F. Kennedy signs the Limited Test Ban Treaty during a ratification ceremony in the White House Treaty Room in Washington. Critics of the Iran nuclear deal claim it is flawed, among many reasons, because it does not demand that Tehran also change its behavior at home and abroad. That complaint ignores the United States’ long history of striking arms control agreements with the Soviet Union, a far more dangerous enemy. Dating as far back as the Limited Test Ban Treaty in 1963, U.S. administrations engaged the Soviet Union in agreements to limit nuclear threats while not linking deals to Soviet human rights abuses and the active arming and funding of leftist, anti-American revolutionary movements around the world. Watching from left are, Sen. John A. Pastore, D-R.I.; Undersecretary of State W. Averell Harriman; Sen. William Fulbright, D-Ark.; Sen. George Smathers, D-Fla.; Sen. George D. Aiken, R-Vt. (AP Photo/File)
O Presidente Kennedy assina o tratado de proibição de testes nucleares para os Estados Unidos, observado por um comitê de Senadores, o Vice-Presidente Lyndon Baines Johnson e o Secretário do Exterior, Dean Rusk. Créditos: (AP Photo/File)(The Associated Press)

O Tratado de Proibição Limitada de Testes Nucleares foi assinado em Moscou, em 5 de Agosto de 1963, pelo Secretário dos Estados Unidos Dean Rusk, o Ministro das Relações Exteriores Soviético Andrei Gromyko e o Secretário de Relações Exteriores britânico Lord Home – um dia antes do 18º aniversário do lançamento de uma bomba atômica em Hiroshima.

O Presidente Kennedy assina o tratado de proibição de testes nucleares para os Estados Unidos, observado por um comitê de Senadores, o Vice-Presidente Lyndon Baines Johnson e o Secretário do Exterior, Dean Rusk. Créditos: John F. Kennedy Presidential Library and Museum

Nos dois meses seguintes, o Presidente Kennedy convenceu um público temeroso e um Senado dividido a apoiar o tratado. O Senado aprovou o tratado em 23 de setembro de 1963, por uma margem de 80-19. Kennedy assinou e foi ratificado em 7 de Outubro de 1963.

O Tratado

  • Testes de armas nucleares proibidos ou outras explosões nucleares debaixo d’água, na atmosfera ou no espaço sideral;
  • Permitiu testes nucleares subterrâneos, desde que nenhum resíduo radioativo caia fora dos limites da nação que realiza o teste;
  • Comprometeram os signatários a trabalhar para o desarmamento total, o fim da corrida aos armamentos e o fim da contaminação do meio ambiente por substâncias radioativas.

Comentários na assinatura do Tratado de Proibição de Testes Nucleares


Senhoras e senhores.

Em suas primeiras duas décadas, a era da energia nuclear foi cheia de medo, mas nunca sem esperança. Hoje o medo é um pouco menor e a esperança um pouco maior. Pela primeira vez, conseguimos chegar a um acordo que pode limitar os perigos desta época.

O acordo em si é limitado, mas sua mensagem de esperança foi ouvida e compreendida não apenas pelos povos das três nações originárias, mas também pelos povos e governos das centenas de outros países que o assinaram. Esse tratado é o primeiro fruto do trabalho do qual multidões participaram – cidadãos, legisladores, estadistas, diplomatas e soldados também.

Séria e incessantemente esta Nação – mas nunca somente esta Nação – procurou a porta de entrada para o desarmamento efetivo em um mundo onde a paz é garantida. Hoje temos um começo e é justo reconhecer a todos cujo trabalho ao longo dos anos ajudou a tornar esse início possível.

O que o futuro trará, nenhum de nós pode saber. Este primeiro fruto da esperança pode ou não ser seguido por colheitas maiores. Mesmo este tratado limitado, por mais promissor que seja, só pode sobreviver se receber de outros o apoio determinado na letra e no espírito que, por meio deste documento, prometo em nome dos Estados Unidos.

Se este tratado fracassar, não será nosso e, mesmo que fracasse, não lamentaremos ter assumido esse compromisso nacional claro e honrado com a causa da sobrevivência do homem. Pois, de acordo com este tratado, podemos e ainda devemos manter nossa vigília em defesa da liberdade.

Mas este tratado não precisa falhar. Este pequeno passo em direção à segurança pode ser seguido por outros mais longos e menos limitados, embora também mais difíceis de serem tomados. Com nossa coragem e compreensão ampliadas por esta conquista, vamos prosseguir na busca do desejo essencial do homem pela paz.

Como Presidente dos Estados Unidos e com o conselho e consentimento do Senado, eu agora assino os instrumentos de ratificação deste tratado.”

— Presidente John F. Kennedy, Sala de Tratados da Casa Branca, 07 de Outubro de 1963

O tratado entrou em vigor em 10 de outubro de 1963 e foi proclamado pelo presidente no mesmo dia desta declaração.

Referência

US nuclear tests killed far more civilians than we knew, QUARTZ, acessado pela última vez em 07 de Outubro de 2021 – https://qz.com/1163140/us-nuclear-tests-killed-american-civilians-on-a-scale-comparable-to-hiroshima-and-nagasaki/

NUCLEAR TEST BAN TREATY, John F. Kennedy Presidential Library and Museum, acessado pela última vez em 07 de Outubro de 2021 – https://www.jfklibrary.org/learn/about-jfk/jfk-in-history/nuclear-test-ban-treaty

Remarks at the Signing of the Nuclear Test Ban Treaty, The American Presidency Project, acessado pela última vez em 07 de Outubro de 2021 – https://www.presidency.ucsb.edu/documents/remarks-the-signing-the-nuclear-test-ban-treaty


A paz que buscamos, fundada em uma confiança decente e esforço cooperativo entre as nações, pode ser fortificada, não com armas de guerra, mas com trigo e algodão, com leite e lã, com carne e madeira e arroz. Estas são palavras que se traduzem em todas as línguas da terra. Estas são as necessidades que desafiam este mundo em armas

— Presidente Dwight David “Ike” Eisenhower, 1953

Esmeril Editora e Cultura. Todos os direitos reservados. 2021

Gosta de nosso conteúdo? Assine Esmeril, tenha acesso a uma revista de alta cultura e ajude a manter o Esmeril News no ar!

- Advertisement -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais do Autor

A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL JÁ COMEÇOU?

Guerra Biológica (Vírus), Guerra Psicológica (Mídia), Guerra Econômica (Embargos) e Guerra Cibernética (Instabilidade em Aplicativos) “A guerra não é mais...
- Advertisement -spot_img

Artigos Relacionados

- Advertisement -spot_img