Destaque
O destaque da semana é o lançamento da Edições Livre: Arte de furtar, do Padre Manuel Costa.
Em um reino onde a corrupção se instalou em cada ofício, tribunal e repartição, um padre jesuíta de língua afiada decidiu pôr tudo no papel — e entregou o manuscrito ao próprio rei.
Escrito em tom satírico, o texto constrói uma falsa “arte” do roubo para denunciar vícios sociais, corrupção política, abusos de poder e hipocrisias morais. Com ironia refinada e linguagem vibrante, o autor descreve as múltiplas formas de furtar — não com as mãos, mas por meio de cargos, privilégios, negócios e artifícios retóricos. O resultado é um retrato crítico da sociedade portuguesa que, surpreendentemente, ecoa em diferentes épocas. A obra custou ao seu autor o exílio de Lisboa.
Atribuída durante séculos ao pregador Padre Antônio Vieira, a obra é hoje reconhecida pela crítica como trabalho do Padre Manuel da Costa (1601–1667), jesuíta alentejano cujo perfil intelectual e trajetória biográfica coincidem com precisão notável com o texto. Um documento descoberto no arquivo central da Companhia de Jesus em Roma, datado de cerca de 1660, nomeia-o expressamente como autor.
Mais de trezentos anos depois, a sátira permanece atual. Porque a arte de furtar, como Costa bem sabia, nunca saiu de moda.

Outros lançamentos
Pela Sétimo Selo, O capote, de Nikolai Gógol.
A obra conta a história de Akáki Akákievitch, um modesto copista de São Petersburgo que passa a vida inteira invisível para todos, exceto como alvo de zombaria. Quando seu velho capote se torna irreparável, ele precisa comprar um novo. O problema: o preço está muito além das suas posses.
O que se segue é uma transformação silenciosa. Akáki começa a economizar cada copeque, abre mão do chá, das velas, das meias. E aos poucos o capote novo deixa de ser uma peça de roupa e se torna a única coisa que dá sentido à sua existência. Como escreveu Gógol: “Era como se ele não estivesse mais sozinho, mas com uma amável amiga que concordasse em trilhar com ele a estrada da vida”.
Publicada em 1842, esta novela inaugurou a literatura russa moderna. Não é por acaso que se atribui a Dostoiévski a célebre frase: “Todos nós saímos do Capote de Gógol”. Tolstói, Tchékhov, Turguêniev, todos descendem desta história de um homem pequeno que o mundo engoliu sem mastigar.
Mas Gógol não escreveu apenas uma denúncia social. Como observa Otto Maria Carpeaux no posfácio desta edição, o aparente realismo de Gógol é, na verdade, um realismo diabólico, onde funcionários são espectros, a burocracia é uma máquina de triturar almas e o riso que o leitor sente é, no fundo, um grito de angústia.

Pela Kírion, Vida das plantas nos campos e jardins, de Arabella Buckley.
Neste volume, a autora sabia fazer a criança parar diante de uma erva daninha qualquer e enxergar ali um mundo inteiro. Neste livro, ela mostra como as folhas trabalham em silêncio para alimentar a planta, por que algumas flores se armam de espinhos e venenos, e de quantos jeitos engenhosos uma semente consegue viajar, no vento, na água, presa às penas de um pássaro.
A escrita é perfeita para ler em voz alta com os pequenos, transformando a leitura numa aula viva de botânica. Um livro para os lares que cultivam, junto com as flores, o gosto pela observação atenta e o encantamento diante da Criação!

E pela Texugo, a versão de Dinah Maria Craik do clássico A Bela Adormecida.
Essa versão chega em português pelas mãos de Luiza Morais, que cuidou do ritmo frase por frase pra história soar bem quando lida em voz alta. E ganhou imagem nas ilustrações de Mayara Nogueira: as sete fadas-madrinhas em volta do berço, a fada que desce numa carruagem de fogo puxada por dragões, a floresta densa que cresce em quinze minutos e depois se abre sozinha pro príncipe passar.
Um conto que parece batido até você reparar no que ele tem de estranho e bonito.
