MURALHA DE LIVROS | Lançamentos da Semana

Leônidas Pellegrini
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

Destaques

O grande destaque da semana é o lançamento da Edições Livre: A vida do venerável servo de Deus Frei Antônio de Sant’Ana Galvão, de Sóror Myriam.

A santidade, em sua expressão mais autêntica, reside no rastro de caridade e humildade deixado por aqueles que caminharam entre nós. Frei Antônio de Sant’Ana Galvão, o primeiro santo nascido em solo brasileiro, é o testemunho de que o Evangelho pode florescer em nossa própria terra de forma luminosa.

Nestas páginas, Sóror Myriam reconstrói os passos desse religioso franciscano, revelando a profundidade de sua vida interior e os frutos concretos de sua entrega total a Deus. Entre eles, a fundação do Mosteiro da Luz, em São Paulo — obra que expressou sua dedicação às mulheres que buscavam uma vida contemplativa na colônia — e as chamadas “papeletas”, pequenos bilhetes com oração em latim distribuídos aos enfermos como remédio espiritual, cuja fama atravessou séculos e chegou até os dias de hoje. Entre episódios históricos e relatos de devoção, emerge a figura de um homem que, mesmo dentro das limitações humanas, tornou-se instrumento de paz e esperança para todos os que a ele recorriam.

Mesmo após sua morte em 1822, aos 83 anos, Frei Galvão deixou um legado de tal magnitude que seu processo de canonização atravessou gerações de investigações e testemunhos. Sua trajetória nos serve como um exercício de piedade e um convite à santificação pessoal, inspirada pela mansidão e firmeza de quem dedicou cada instante da vida ao Reino de Cristo, consolidando-se como um dos nomes mais importantes da história religiosa brasileira.

Destaque também para o terceiro volume de Seminarium, de Olavo de Carvalho, lançamento da Vide.

Todo grande pensamento tem duas vidas. A primeira é secreta: acontece antes das conclusões, quando a ideia ainda é só uma faísca, uma intuição solta, uma frase rabiscada no meio da noite. A segunda é pública: o livro pronto, o argumento acabado, a tese que se defende. Quase sempre, só temos acesso à segunda. Os volumes de Seminarium constituem uma rara chance de ver a primeira.
Durante anos, Olavo de Carvalho tratou seu perfil como um verdadeiro diário filosófico: um lugar onde registrava, em tempo real, as impressões, os aforismos e as sementes de ideias que lhe ocorriam. Este terceiro volume reúne tudo o que ele escreveu ao longo de 2014, organizado por tema e por data.
O que você encontra aqui não são os frutos maduros do pensamento dele, mas as sementes. E há algo de íntimo, quase indiscreto, em acompanhar um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve no exato momento em que pensa: as dúvidas, os lampejos, o humor, a lucidez que às vezes parece loucura à primeira vista.
Para quem já estuda sua obra, é matéria-prima preciosa, o pensamento em estado nascente. Para quem está chegando agora, é um convite a conhecer não o Olavo das conclusões, mas o Olavo que pensa diante de você, sem retoque.

Outros lançamentos

Pela Auster, o Tratado de caracterologia, de René Le Senne.

A psicologia, quando se limita a médias e abstrações, afasta-se do homem real. Não lidamos com um tipo genérico, mas com indivíduos concretos, cuja singularidade se revela na maneira própria de sentir, reagir e agir no mundo. É nesse horizonte que a caracterologia se torna necessária: não como exercício teórico, mas como via de acesso à estrutura viva da individualidade. Segundo a tradição aqui assumida, o caráter não é um traço superficial nem um estado passageiro, mas a estabilização das tendências que, ao longo da vida, se consolidam e passam a orientar, de modo relativamente constante, a conduta. Ele não se reduz ao psicológico isolado: abrange disposições que se expressam no corpo, nas capacidades, no papel social e na própria história pessoal. É sobretudo na maturidade que esse conjunto se fixa, quando as inclinações deixam de oscilar e se integram numa forma relativamente estável de ser.

Com rigor conceitual e fidelidade à experiência, esta obra delimita o caráter como esse núcleo permanente da vida mental, distinguindo-o da personalidade e reconhecendo, ao mesmo tempo, o papel ativo do eu na condução da própria existência. Ao sistematizar tipos caracterológicos e consolidar uma tradição que recusa recomeços arbitrários, oferece uma linguagem mais precisa para compreender a si mesmo e os outros. Longe de um saber abstrato, a caracterologia revela-se como um instrumento de discernimento. Entre aquilo que recebemos como dado e aquilo que realizamos como destino, ela ilumina a forma singular de cada indivíduo, permitindo que o conhecimento deixe de ser mera descrição e se torne orientação: um meio de agir com mais lucidez, de reconhecer limites e possibilidades, e de situar-se com maior consciência no encontro com o outro e consigo mesmo.

Pela Kírion, o Trivium e o Quadrivium, de Santo Isidoro de Sevilha, em edição bilíngue latim–português, com tradução de Giuliano Sorello.

Composta no século VII pelo bispo que seus contemporâneos chamaram de Doutor das Espanhas, a obra foi a maior tentativa de reunir num só corpo tudo o que a Antiguidade sabia e atravessou a Idade Média como o livro de consulta que educou a Europa. Estes dois volumes trazem as sete artes liberais, coração da educação da época.
O Trivium reúne as artes da palavra. No livro da gramática, Isidoro percorre a origem das letras, as partes do discurso, os pés métricos, os sinais taquigráficos e jurídicos, os tropos e as figuras, até a distinção entre fábula e história. No da “retórica e dialética”, examina os gêneros de causa, as partes do discurso oratório e o silogismo.
O Quadrivium reúne as artes do número. Isidoro pergunta o que é o número, divide pares e ímpares, chega aos infinitos; passa à geometria e suas figuras; detém-se sobre a música e suas divisões harmônica, orgânica e rítmica; e fecha com a astronomia, a distinção entre astronomia e astrologia, a forma do mundo, o movimento das esferas, o curso do sol e as fases da lua.
Juntos, os dois volumes recompõem o percurso que formava o espírito medieval, das quantidades sensíveis às realidades eternas.

Pela Ecclesiae, São Francisco de Assis e as origem da Quaresma de São Miguel Arcanjo, do Padre Arthur Brulher.

Entre a Assunção de Nossa Senhora e a festa dos Arcanjos, São Francisco guardava quarenta dias de jejum e oração em honra de São Miguel. Inclusive, foi numa dessas quaresmas, no Monte Alverne, em 1224, que recebeu os estigmas.
E este livro apresenta uma das práticas mais características do espírito franciscano, o jejum de quarenta dias em honra do Príncipe das Milícias Celestiais, e mostra sua origem, seu significado e sua centralidade no caminho espiritual do Poverello.
É também um retrato de Francisco que demonstra o carisma que fundou uma Ordem, estigmatizou um homem e inspirou até a arte de poesia cristã.

E, pela Texugo, Os filhos de Bambi, de Felix Salten.

Muitos anos depois de crescer na floresta, Bambi se tornou pai. E agora é a vez de Faline cuidar dos filhotes: Geno, que não sai de perto da mãe e vê perigo em cada barulho, e Gurri, que já quer sair correndo pelo campo antes que alguém dê o sinal. Dois jeitos de estar no mundo, dividindo a mesma toca.
Os Filhos de Bambi conta o que vem depois do final feliz: a rotina, os medos, as descobertas e o dia a dia de uma família que segue vivendo na floresta — com toda a ternura e todo o perigo que isso significa.
Uma continuação que Felix Salten escreveu para quem nunca parou de se perguntar o que aconteceu com Bambi.


 

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