O escritor Mark Twain, depois de ler os documentos reunidos pelo historiador e arqueólogo francês Jules Étienne Quicherat, disse que a Donzela de Orleans era “facilmente e de longe a pessoa mais extraordinária já produzida pela espécie humana”

No dia 18 de abril de 1909, Joana d’Arc, a jovem francesa condenada a morrer na fogueira por defender sua e sua pátria contra os invasores, foi beatificada. No ano seguinte, o Papa Bento XV a canonizou, declarando-a Santa Joana d’Arc; e Padroeira da França nesse mesmo ano. O arqueólogo e historiador francês Jules Étienne Quicherat, na primeira metade do século XIX, reuniu documentos oficiais do julgamento e reabilitação de Joana d’Arc e apresentou os resultados da sua minuciosa análise em cinco volumes. Foi nesse momento que o mundo moderno teve a confirmação da veracidade do mito que inflamou os corações dos franceses e de pessoas de todo o mundo, incultas ou eruditas, como o escritor americano Mark Twain.

A história da jovem de Domrémy — sua terra natal, no nordeste da França — é bastante conhecida por aqueles que professam ou não a Fé Católica. Pudera! Talvez não exista um personagem medieval (Joana d’Arc viveu e morreu já no fim desse período histórico) cuja vida fora tão ricamente documentada quanto ela. A história de sua vida e de como libertou a França do domínio inglês atravessou séculos através da narrativa oral dos populares até se consagrar no mito nacional francês. Mas só depois da publicação das pesquisas de Quicherat o quadro da sua existência ganhou contornos nítidos. Joana cativou a imaginação de historiadores, dramaturgos, novelistas, escritores e cineastas; uns se aproximaram mais da verdade do que outros.

O que é um Santo? No âmbito da Fé Católica, um Santo é, substantivamente, alguém que se aproximou tanto de Jesus que se tornou um modelo de como imitá-Lo. Observando que, na realidade histórica do mundo ocidental, o Cristianismo fora a força de agregação de uma plêiade de valores civilizacionais, é gritante a importância da atuação dos Santos nas comunidades, nos meios sociais, na cultura e no meio político em que viveram. Contudo, com o advento de um formidável conjunto de novas ideias abertamente anticristãs (ou discretamente antipáticas à ), Santos, como Joana d’Arc, sofreram a tentativa da “desconstrução“. Hoje, alguns tentam fazer da imagem da Donzela de Orleans um expoente do feminismo; esta interpretação capenga ignora, dentre outros aspectos da sua biografia, seu desejo de consagrar a própria virgindade.

“O tipo de pessoa que sabia por que mulheres usavam saia [como Joana d’Arc] era justamente o que mais justificativas tinha para não usá-la”.

G. K. Chesterton, escritor e apologeta inglês.

A intenção de Joana d’Arc jamais foi a de se destacar num mundo masculino. Na verdade, como atestam os relatos, ela relutou em aceitar a missão que recebera. Tão logo o Delfim da França foi coroado, a jovem Joana tentou retomar a simplicidade da sua vida em Domrémy. Sua infância foi completamente dedicada à prática da arte de construir um lar. Há um registro do seu julgamento em que ela diz: “(…) Na costura e na tecelagem, não temo mulher alguma“. Como se vê, a licenciosidade feminista estava tão distante de Joana d’Arc quanto o céu dista da terra. Os relatos compilados pelo historiador e arqueólogo Quicherat sobre o comportamento dos soldados franceses na presença de Joana d’Arc são, talvez , os mais significativos no confronto contra a narrativa falsificada para fazer da Santa uma representante retroativa do feminismo.

Quando Joana ingressou na liderança do exército francês, um de seus primeiros atos fora expulsar, à base da espada, todas as prostitutas do acampamento militar. Os soldados e oficiais que prestaram testemunho afirmaram que a Santa era uma jovem cuja modéstia teve uma influência decisiva no comportamento deles. Os soldados compreenderam a atitude, e a virtude heroica dela os inspirou a amá-la e segui-la.

Joana d’Arc, aos dezenove anos, provou ter o domínio das virtudes. Uma em especial, a virtude da fortaleza, atraiu a atenção das inteligências militares que conviveram com ela. Joana foi perita em táticas de guerra, seu discernimento da realidade bélica que se desenhava na sua frente, em campo de batalha, só podia ser explicado através da iluminação divina.

Exceto em assuntos de guerra, ela era simples e inocente. Mas quando montava e liderava um exército para a batalha e quando discursava para os soldados, ela se comportava como o mais experiente capitão do mundo, como alguém que possuía a experiência de uma vida inteira”.

Capitão de Chartres.

Contudo, seu domínio virtuoso das táticas de guerra não se limitava somente ao sacrifício no campo de batalha. Joana d’Arc tinha impressionante consciência da realidade política que urgia no seu tempo. Depois de intensificar o cerco à região de Orleans, o Delfim, guiado pelos seus conselheiros, decidiu seguir com a campanha e invadir a região da Normandia. Joana convenceu-os de que o melhor a se fazer, a melhor estratégia, seria abrir caminho até Reims e sagrar Carlos como rei. A ação, segundo Joana, seria decisiva para desmoralizar os ingleses e fortalecer a disposição dos franceses para permanecer no combate. Seu plano foi observado, o que levou à vitória final da França.

Existe uma mensagem que se mantém como pano de fundo na extraordinária vida de Joana d’Arc: ela viveu e morreu lutando pela defesa de um único povo, de um único país; da sua pátria, do seu povo, do seu sangue. Hoje, com as aspirações revolucionárias de um império universal cada vez mais explícitas, o contraponto oferecido pelos relatos da vida de uma Santa francesa do século XV nos convida a olhar a vida com um pouquinho mais de lucidez. Santa Joana d’Arc, com o seu sacrifício, nos ensina o heroísmo, o senso de dever, a coragem, a , mas nos ensina também a perceber que o pedacinho de terra no qual vivemos é o lugar que nos foi designado por Deus para nele cuidarmos da nossa salvação.

Com informações do portal UOL– History, do site do Pe. Paulo Ricardo e do livro Joana d’Arc, por Mark Twain.

“Brinquedo Aide, Dieu te aidera”. Do francês medieval, “Deus ajuda quem se ajuda”.

Joana d’Arc.

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