FILOSOFIA INTEGRAL | Profetas da Destruição

O mundo se nos depara, constantemente, com fatos que parecem anomalias. São acontecimentos que nos dão a impressão de que as coisas saíram do lugar. Podem ser abalos econômicos, desastres naturais, convulsões sociais ou conflitos militares.

Apesar de haver também muita coisa positiva no mundo ─ o amor, a arte, a solidariedade, o companheirismo e a associação ─ parece que temos uma tendência constante de preferir olhar o que há de errado com ele.

E mesmo que as tragédias e os conflitos não sejam totalmente inesperados, quando acontecem, costumamos agir como se fossem sinais de uma nova era, enxergando neles um prenúncio da decomposição da sociedade como a vivenciamos. Parece que vivemos em uma constante dor de parto de um novo tempo.

Por sermos atraídos pela desgraça ─ por motivos que eu desconheço ─ nossa postura favorece muito o surgimento de “profetas de apocalipses”, que atuam como “canários de minas de carvão”, captando presságios de catástrofes e sintomas de calamidades para vaticinar o flagelo. Esperam, com isso, gerar uma expectativa pelo pior e, por consequência, medo.

No entanto, enxergar a desgraça não precisa ser uma tendência inescapável. Muitas vezes, é uma questão de escolha, quando não de mero interesse.

A verdade é que todas as sociedades são compostas por propósitos diversos, objetivos diferentes e visões de mundo antagônicas. Por esse motivo, os planos, os projetos, as configurações e os acertos existentes nelas são sempre frágeis e temporários, estimulando conflitos constantes e intermitentes disputas de poder. Seria realmente estranho, portanto, que tudo permanecesse sempre em paz e sem perturbações. Por isso, ocorrer crises é bastante esperado, haver distúrbios é sempre previsível.

O que muita gente não percebe, porém, é que se os conflitos fazem parte da natureza da sociedade, isso não significa que ela é composta apenas deles. Pelo contrário, ao mesmo tempo que há disputas, há acertos; enquanto vê-se violência, enxerga-se solidariedade; se há ódio, há também amor. Tudo está aí, numa mistura louca, assustadora e, ao mesmo tempo, fascinante.

Logo, o problema não é falar das crises, nem alertar para os perigos ─ afinal, eles existem; o grande problema é a ênfase nas tensões e o vaticínio da assolação que a acompanha. O que prejudica a vida das pessoas é a retórica da destruição que esses profetas do fim disseminam, criando uma expectativa ininterrupta pelo pior e um pessimismo generalizado.

Contudo, não nos enganemos! Se existem prognosticadores agourentos, que só sabem apresentar o lado da desgraça, é porque, em muitos casos, eles ganham com suas previsões. Podem ser ganhos pessoais, de prestígio, porque despertam a tendência humana de olhar a tragédia e mover-se por ela, mas também pode ser porque sonham com uma outra sociedade, segundo os devaneios de seus mestres. Há quem preveja a destruição não porque a vislumbre, mas porque a deseje.

Um tipo especial desses últimos são os revolucionários. Sua pregação afirma que a sociedade atual tem seus dias contados e é preciso que ela seja destruída para uma outra surja em seu lugar. Por conta disso, a qualquer sinal de perturbação, ele se excita com a possibilidade do fim da sociedade como ele a conhece. Seu único objetivo, portanto, é fomentar o pessimismo e gerar instabilidade.

Mas se esses cultores da desgraça se aproveitam do aspecto negativo da sociedade é por que têm plena consciência que não há nenhum risco em seus prognósticos. Sabe por quê? Porque nunca são cobrados pelo que dizem. Mesmo quando suas profecias não se concretizam, seu prestígio não diminui. Pelo contrário! Como explicado por Leon Festinger, no seu livro “When Prophecy Fails”, em muitos casos, seus seguidores, diante de uma previsão errada, tornam-se ainda mais fanáticos e ainda mais intransigentes quanto à verdade do vaticinado. Lembremos que grandes seitas de solidificaram e cresceram exatamente quando suas principais profecias erraram; ideologias se mantêm firmes exatamente porque suas previsões não se concretizaram.

Por tudo isso, seguir esses cultores da destruição não é, de fato, inteligente. Afinal, enquanto sofremos com a expectativa de desgraça, eles se fartam e ganham muito com ela.

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1 COMENTÁRIO

  1. Ótimo artigo. Nuances de assunto geralmente varrido para debaixo dos tapetes: “Quero ver sangue, senão onde está a graça?”.
    E achamos que ET’s são malvadões! Hahahaha!

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