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terça-feira, 28 junho, 2022

FILHO DOUTOR

Revista Mensal
José Anselmo Santos
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

Da semeadura no campo ao cultivo do saber

Edgar era uma pessoa cuja vida, qualidades humanas e mãos calejadas o caracterizavam como “um forte”. Nascido e criado na pequena propriedade rural, pele lisa e brilhante de tanto absorver os raios do sol lidando com plantações, vacas, porcos e galinhas; frequentou a escola e gostava de ler desde livros e jornais até rótulos de garrafas de pinga. Refletia e ria com tudo quanto via, ouvia e absorvia como louvor à vida.

Seus olhos castanhos sorriam para os olhos verdes de Maria José, a mulher amiga amada com quem criou dois filhos: Ana e Manoel. Tudo quanto possuía, como a belezura de casa com varanda e redes à sombra de jasmins perfumados, se originara do trabalho árduo e das mãos milagrosas da mulher que o ajudava em todo tipo de trabalho. Uma família respeitada, convivendo com a vizinhança em estreita fraternidade, frequentando com mínimas falhas as cerimônias e festas do calendário religioso.

Os enlaces com o mundo exterior estavam nas notícias do rádio que falava de um ambiente estranho e distante, hábitos e comportamentos, crises e doenças desconhecidas, fatos e decisões, algumas incompreensíveis e inadmissíveis para os valores entronizados naquela família. Quando Manoel decidiu ir para a cidade grande realizar o sonho de ser doutor, Edgar e Maria José aprovaram e fizeram das tripas coração para arcar com as despesas da educação superior do filho. Ana, que ficou em casa, orgulhava-se do irmão.

Cada vez que Manoel visitava a família parecia mais sabido e cheio de novidades. Queria porque queria que o pai comprasse uma televisão. Mas o velho era resistente e recusava os modernismos do capeta: o rádio era suficiente para alegrar os momentos de descanso com a música folclórica, ou para assombrar quando contava sobre os desastres que acometiam aquele mundo dito civilizado, um mundo controvertido e briguento que transformava a gente em manada desmiolada. Era o que Edgar sempre dizia, conservando os valores familiares, orgulhoso de poder ajudar um filho a ser doutor, faltando um ano pra receber o diploma.

Naquele ano Manoel quase não visitou a família. Andava metido com as manifestações políticas que reuniam milhões de pessoas nas grandes cidades, portando bandeiras e faixas exigindo a queda do governo e um novo sistema administrativo, menos oneroso, um sistema de governo capaz de priorizar as necessidades do indivíduo livre e empreendedor. Uma frase nova surgia em seu vocabulário: “Brasil verde e amarelo, sem foice e sem martelo”. Ele sabia que a foice e o martelo referiam o regime comunista que avançava impondo leis vindas de fora dificultando a vida produtiva e familiar.

A mesa estava posta sobre a toalha branca como a neve, adornada com os bordados de acabamento esmerado e amoroso de Maria José. O cheiro gostoso e as cores do verde das couves e amarelo da polenta com frango dominavam o ambiente quando Manoel chegou de surpresa para a alegria dos pais e da irmã. O quase doutor em Direito estava eufórico com a queda do governo, como se alguma coisa se fosse alterar para melhorar a vida do mundo, sem entender que naquele sítio, as vacas continuavam a parir e dar leite, as galinhas a fornecer e chocar os ovos, os porcos, as fruteiras e o riacho, como os dias e noites, trabalhavam em harmonia cumprindo sua rota no universo sem medida. Cada forma de vida apoiando a outra.

Já no minúsculo curral do reino do Direito, Manoel estava atento e prisioneiro das leis que acreditava capazes de mudar o mundo, leis para punir os pervertidos daquele reino, onde os governantes de pança cheia inventavam limites até para o pensamento, para as crenças, para que todos fossem obedientes e servis, como escravos obrigados a suar nos eitos, pagando o que as leis mandassem para que as pessoas comuns preservassem o direito de trabalhar e sobreviver.

– As leis obedeciam à Constituição – pontificava o futuro doutor com a boca cheia de polenta – O poder emana do povo…

– É… mano? Emana mesmo? – perguntava Ana, sem esconder o toque irônico, mas desejosa de saber mais sobre o aprendizado do irmão quase doutor.

– Quero ver ter poder de mandar a chuva no tempo certo… – dizia seu Edgar.

– Não é deste poder que estou falando, pai! É do poder de organizar o Estado, a sociedade pra todo mundo viver melhor, progredir.

– Vida melhor a gente consegue é com trabalho que dá o poder de criar manter a família e manter você na escola… E só contei com ajuda da sua mãe, sua irmã e o poder de Deus!

– Taí mano! É o poder de Deus, que dá a gente o poder de alimentar quem vive na cidade grande. Os que “organizam o estado” dependem do poder que Deus nos dá para manter a vida.

Alimentado por raízes emocionais e bem verdadeiras, aquele mundo rural parecia distante das realidades que desafiavam Manoel no caminho escolhido. Era um adestramento para pensar e agir diferente do que permeava os dias de sua família. Cidade e roça diferiam muito no modo de perceber a vida na ordem da inteligência do Criador. Na cidade as leis primavam na proteção do consumo e na cobrança de impostos. Na roça estavam presentes fé, respeito e procedimentos econômicos, em contato e dependência direta com as imutáveis leis da natureza. Mas o braço grande das leis do governo acabava interferindo na roça.

Logo Manoel teria de constituir um lar e pensava com educaria os filhos. As bebidas e as noitadas estudantis se haviam tornado vício que roubava horas de estudo necessárias para dominar as disciplinas do curso universitário. Era um estudante medíocre, mas entendia que as glórias atribuídas a alguns dos personagens históricos do seu país eram uma falácia, uma pílula de engano para manter a moral dos trabalhadores urbanos em regime febril e fabril.

Manoel, que tendia às conversas pacificadoras mais que sair na porrada para conquistar um poder efêmero, conseguiu formar-se. A família reuniu os amigos para a comemoração e o doutor reencontrou alguns amigos de infância, como Francisco, que foi soldado, cabo e sargento e depois deu baixa, plantou uma roça, casou e montou o negócio de charuto e fumo de rolo artesanal, que vendia nas bodegas.

Também gostava de uma cachacinha e farra. Ouviu falar de democracia e comunismo, mas seu interesse era pelos rabos de saia, sem deixar de cuidar dos filhos como pai amoroso. Até concordou com a mulher e fez o esforço preciso para formar um filho padre.

Um moço destacado e severo, Padre João foi pra Roma e voltou trazendo uma benção do Papa para a família e alguns terços bentos de presente para a vó, mãe e tias. Um padre, que ensinou no primeiro sermão: todos estes nomes com os quais rotulam formas de estado, instituições, ideologias, partidos, políticas de esquerda ou direita ou centro, são apenas iscas pra engabelar e escravizar a mente dos que se afastavam da vida em sua plenitude, dos que perderam o amor por si mesmo e se tornaram incapazes de amar aos semelhantes como ensinou Nosso Senhor Jesus Cristo.

Passados muitos anos, conversando com o amigo doutor, Francisco lembrou o dia em que conduzia o filho, padre João, naquele carro novo, quando ele largou um balde d’água na fervura do seu entusiasmo:

– Pai, você já pensou por que as pessoas estão sendo adestradas para “amar” carros, motos, artistas de televisão, roupas com logomarcas, pílulas, corridas, alimentos industrializados, bandas de música lixo?…

Foi bem ali, debaixo da velha goiabeira que Francisco perguntou a Manoel:

– E que tem feito o doutor?

– Advogar e dar aulas na Universidade.

– Doutor e professor… Está com a bola toda!

– O sistema conduz a gente como boiada. É preciso ensinar a moçada a romper o isolamento do grupo, ultrapassar a estupidez coletiva. Se o padre João estivesse aqui, podia dizer que a missão é conduzir a moçada a preencher o cérebro com as verdades que fluem de uma fonte inesgotável, Deus, inteligência infinita, cuja compreensão está fora do alcance humano.

Um sabiá começou a trinar e a relva pareceu vibrar, como se estivesse dançando. O céu estava azul e o calor do sol envolvia o planeta que girava incansável no espaço infinito.


Se eu acredito em Deus? Mas que valor poderia ter minha resposta, afirmativa ou não? O que importa é saber se Deus acredita em mim.

– Mario Quintana

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