ENTREVISTA | Os erros da Rússia contra o mundo

Leônidas Pellegrini
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

Cristian Derosa comenta seus dois livros recentemente lançados sobre a natureza e os perigos do eurasianismo

Se você não conhece o eurasianismo, corrente ideológica da década de 1920, e reciclada por Alexandr Dugin e Edward Limonov nos anos 90, você precisa ler o recém-lançado O mínimo sobre o eurasianismo, de Cristian Derosa. Nesse volume, você entenderá o mínimo sobre a ideologia que move as ações políticas de Valdimir Putin, e que, sendo algo elaborado para a destruição do Ocidente como ainda o conhecemos, tem seduzido tantos conservadores incautos pelo Ocidente.

E se você quer se aprofundar nas bases em que se sustenta o eurasianismo, não deixe de ler outro livro de Derosa, O sol negro da Rússia, em que são expostas em detalhes as raízes ocultistas do eurasianismo – uma obra que é, antes de tudo, um alerta aos cristãos deslumbrados com as soluções políticas vindas da Rússia, sob o alegado combate ao materialismo ocidental, mas que representam, no fundo, o falso profetismo expresso no conjunto de crenças anticristãs que atravessaram a história sob a forma de heresias e, na modernidade, as novas escatologias políticas do gnosticismo.

Conheça um pouco mais sobre o eurasianismo e seus desdobramentos na entrevista a seguir, em que Derosa comenta esses dois importantes lançamentos.


Revista Esmeril: Dois livros seus foram lançados recentemente: O mínimo sobre o eurasianismo e O sol negro da Rússia. De que trata cada um deles?

Cristian Derosa: O Mínimo sobre o eurasianismo é um bom ponto de partida para quem não conhece o assunto, já que se trata de uma pesquisa aprofundada e com certo grau de complexidade quando falamos de conceitos políticos que hoje foram desconfigurados da realidade geopolítica. Embora tratemos bastante da raiz ideológica do fenômeno, o Mínimo pode ser uma leitura introdutória.

O sol negro da Rússia é uma pesquisa sobre as raízes e fontes por trás do neoeurasianismo, corrente que resgata o antigo eurasianismo russo da década de 20 a partir do movimento Nacional Bolchevique, criado por Aleksandr Dugin e Edward Limonov nos anos 90, que teve como pano de fundo a busca do regime de Putin por preencher o grande vazio deixado pelo desgaste marxista na Rússia e a necessidade de adequar os interesses do Kremlin em recuperar antigas “colônias” soviéticas. Esse objetivo foi acrescido de uma espécie de continuidade das velhas operações de subversão contra o Ocidente, que agora ganham contornos espiritualistas e ocultistas por meio de um apelo jovem e aparentemente conservador.

Revista Esmeril: Em seu livro O sol negro da Rússia, há um capítulo intitulado “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo”, palavras de Nossa Senhora em Fátima que muitos católicos entendem como uma referência aocrescimento do comunismo mundo afora.Existe alguma correção, algum ajuste a ser feito nessa interpretação?

Cristian Derosa: Em Fátima, Nossa Senhora se refere a “erros”, isto é, não se esgota no comunismo. Mas mesmo se considerarmos o fenômeno comunista na sua totalidade, veremos que ele não é um resultado de um movimento ateu, materialista e marxista apenas, mas foi uma resposta a anseios espiritualistas presentes na religiosidade russa desde o século anterior. O comunismo funcionou na Rússia porque foi abraçado tanto por ateus revolucionários quanto por místicos intelectuais, como os antigos “Narodniks” (populistas) que ansiavam por utilizar o velho paganismo eslavo como base metafísica revolucionária, o que fizeram a partir de expedientes teosóficos e gnósticos. O fenômeno da parapsicologia e espiritismo no regime conta hoje com grande bibliografia a respeito e já não é novidade que o ateísmo e o materialismo foram muito mais “veículos” socialmente aderentes à juventude da época, assim como o racismo biológico nazista, do que propriamente um princípio que orientava as elites. Portanto, os “erros” da Rússia são o comunismo e toda a metafísica gnóstica que o orientou e que reaparece agora, no eurasianismo, em sua forma assumidamente satânica.

Revista Esmeril: Quais as relações da cultura wokecom a Rússia?

Cristian Derosa: O ideólogo russo Aleksandr Dugin, grande artífice dessa nova abordagem, não poupa esforços e parcerias linguísticas para seus objetivos. Dugin é da geração da KGB, filho de agente da Inteligência, responsável pela subversão. Mas a sua geração jovem estava inserida num ambiente de ocultismo, satanismo, magia negra e subversão cultural e espiritual. Uma das fontes desse misticismo alternativo é Helena Blavatsky, cuja teoria das “raças-raíz” da humanidade, é conhecida por inaugurar a utopia pós-moderna de que a história sagrada culminaria no aparecimento de uma raça superior. Essa utopia favoreceu o aparecimento de inúmeras doutrinas e seitas no início do século XX, como a ariosofia, na Alemanha, a eugenia, que unia teses biológicas e darwinistas, mas nos EUA fomentava a crença de que essa raça sagrada apareceria em solo americano. Esta é a utopia por trás do racialismo da Fundação Ford (não por acaso apoiadora do nazismo) e de nomes feministas importantes como Margareth Sanger, conhecida como a “mãe do aborto” no mundo. Isso porque, para Blavatsky, a raça superior que surgiria tinha uma natureza andrógina, sendo considerada “superior” às definições e papéis sociais usuais. Por outro lado, Dugin assume agora um papel conservador e tradicionalista, mas evoca as “tradições” do “logos de Cibele”. Dugin tenta dar uma abordagem intelectual e erudita, mas o fato é que o culto de Cibele possuía rituais de “castração do homem”, sendo uma das raízes ocultistas da ideologia feminista. Da mesma forma, por diversas vezes, Dugin se refere à natureza andrógina do povo russo, em oposição à masculinidade e feminilidade típicas do Ocidente.

Revista Esmeril: Fale um pouco mais sobre as relações da política russa com o ocultismo.

Cristian Derosa: A Igreja Ortodoxa Russa nunca teve um processo de inquisição, um critério que servisse como proteção doutrinal da sua versão do cristianismo. Pelo contrário, houve frequente tolerância com fenômenos e abordagens místicas individuais, muitas vezes marcadas por uma sede espiritualista que levava às especulações ocultistas. Uma das bases mais sólidas da formação de Dugin está no Círculo Yuzhinski, grupo de ocultistas que começou durante o regime soviético, incentivado por maçons ligados ao teatro e que foram responsáveis pelas primeiras traduções de Guénon para o russo. Não por acaso, a formação desse círculo teve a influência de maçons franceses.

O círculo comungava interessados em sufismo, tradicionalismo e ocultismo. A base do grupo, na verdade, era formada pela influência entre o tradicionalismo de René Guénon e o ocultismo Völkisch, também chamado “votanismo”, culto a Odin típico do norte da Europa. Esta se tornou a principal formação de Dugin. Em comum entre essas duas correntes está a crença na Tradição Primordial, que estaria na região mítica de Shamballa, mas permanece presente em toda e qualquer abordagem esotérica (iniciática) presente nas religiões tradicionais. Ora, como o cristianismo ocidental, especialmente a Igreja Católica, não possui uma corrente esotérica como ocorre, por exemplo, no islamismo (o sufismo), Dugin afirma estar no cristianismo ortodoxo russo esse caminho secreto, razão pela qual ele, apartado da igreja oficial russa, diz ser um adepto do caminho dos Velhos Crentes, corrente que se desvinculou da Igreja oficial. No entanto, há mais razões para acreditar que as afinidades de Dugin estão mais com Aleister Crowley e Guénon do que com qualquer cristianismo russo, como busco mostrar no livro.

Dugin é autor do livro Fundamentos da Geopolítica, que foi adotado pela escola militar russa no final da década de 1990, a partir do governo de Putin, para formar a nova mentalidade ideológica do seu regime.

Revista Esmeril: O que vem a ser a “ocultura antiocidental”?

Cristian Derosa: É um fenômeno que já foi subterrâneo, vindo da cultura underground, mas que hoje está totalmente alastrado pela cultura pop ocidental, espalhando ocultismo de maneiras às vezes bastante escancaradas por meio da difusão de símbolos ocultistas. No livro O sol negro da Rússia, abordo a presença e influência disso no rock, heavy metal e principalmente no fenômeno do black metal escandinavo, material de exportação que hoje influencia boa parte da cultura pop musical e artística, principalmente na literatura e no cinema, desde meios mais sutis aos mais literais. Trata-se de uma continuação do fenômeno da espiritualidade new age, mas com uma objetificação mais literal nos cultos satânicos, em alguns casos, e em outros se expressa por uma crítica aparentemente moralista ao ocidente, como nos movimentos MGTOW juvenis, masculinismo etc. Na cultura estética, há um incremento de um sadismo cínico com grande penetração na mentalidade estética da juventude, cuja principal expressão estética está na arte japonesa dos animes. Na literatura e no cinema, surge da exploração dos mundos imaginários, linguagem da ficção, que conquista até mesmo conservadores em busca de simbolismos ancestrais que possam ser expressos em linguagem pós-moderna, um caminho perigoso que não raro conduz a vias ocultistas de maneira sutil.

Aleksandr Dugin se vale deste imaginário pós-moderno e antiocidental construído pela subversão soviética, de um lado, e fomentado por uma classe artística já vitimada por essa subversão, para um público juvenil ainda mais desorientado espiritualmente. O resultado tem sido uma linha cada vez mais tênue entre a guerra cultural e o satanismo, o que infelizmente tem levado cristãos e até católicos para o lado obscuro da política.


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