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sábado, 28 maio, 2022

ENTREVISTA | O escritor fantasma

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Conheça o serviço de Ghost-Writing

Um Fantasma ronda o mundo das letras: o fantasma do escritor. Ou, mais exatamente, o escritor-fantasma. Mas fiquem tranquilos: ele não é uma criatura das sombras – e, ao contrário da personagem nefasta que rondava os sonhos e manifestos revolucionários do século XIX, é aliado e protetor de quem padece de alguma crise de criatividade ou enfrenta o conflito entre uma tarefa muito grande e um prazo muito pequeno… Quem nunca, não?

Ao contrário do que muitos ainda costumam pensar, a tarefa de escrever romances, ensaios ou roteiros audiovisuais exige, além de talento, um bocado de dedicação e uma dose generosa de esforço físico e mental. Por isso, contratar alguém que já tenha a habilidade e a experiência da escrita pode ser a solução para quem sonha em registrar suas ideias por escrito – em especial, para quem tem muitas ideias e pouco tempo.

É aqui que entra a atividade do ghost-writer – nome pelo qual o profissional de texto se tornou conhecido. Literalmente, o escritor fantasma: um redator especializado em escrever livros, artigos e até mesmo criar músicas e trilhas sonoras sob encomenda, para serem assinados por outra pessoa. Enfim, alguém para ajudar a resolver problemas. Um fantasma que não assombra – no máximo, surpreende e encanta.

Na verdade, a profissão de ghost-writer vem de longa data – embora tenha sido no século XX que ela tenha “viralizado”, tornando-se uma necessidade econômica, em particular no mundo das celebridades e das personalidades políticas. Mas os “fantasmas profissionais” já foram regularmente contratados para redigir discursos, biografias – e até para dar continuidade ao legado de um autor consagrado após a sua morte. Foi o caso, por exemplo, do escritor britânico Ian Fleming, criador de James Bond, o agente 007 – que graças aos ghost-writers “sobreviveu” à morte do escritor, em 1964.

A sombra desse espectro sobre as Letras é bem mais antiga. Muitos surpreendem-se com a extensão e a variedade da obra do escritor francês Alexandre Dumas (1802-1870), embora poucos saibam que Dumas contava com uma equipe de ghost-writers, que desenvolviam, pesquisavam e transformavam em livro os esboços e rascunhos que ele apresentava. O mais “famoso” desses fantasmas foi Auguste Maquet.

Na história recente do Brasil, temos um caso famoso, antípoda ao de Dumas: se em terras francesas vários ghost-writers escreveram como o romancista de Os Três Mosqueteiros, aqui um romancista fez as vezes de ghost para um político – no caso, o escritor baiano Autran Dourado, que foi o “fantasma” do presidente Juscelino Kubitschek, em suas cartas abertas aos brasileiros e principalmente nos discursos. A parceria foi mantida em segredo durante anos (afinal, a discrição é o segredo do negócio), só vindo à tona muitos anos depois. Modesto ou prudente, Autran Dourado tratou de minimizar sua participação, resumindo assim seu trabalho: “Eu era apenas a mão que escrevia”.

A esta altura, o leitor já deve ter concluído que existem muitas “mãos que apenas escrevem”, muito mais do que supõe a nossa vã filosofia. Eu mesmo tive a ocasião recente de conhecer um escritor-fantasma, que trabalha com empenho e sucesso há exatos seis anos – mas tem na bagagem uma experiência de três décadas dedicadas à Literatura e ao Jornalismo. Declino de revelar seu nome, pela própria natureza do ofício: ghost-writers trabalham em relativo anonimato, principalmente para proteger os clientes das malícias e indiscrições dos outros. Mas posso revelar que nosso personagem trabalha com uma equipe animada e experiente, e esbanja criatividade e bom-humor já a partir do nome da empresa: o Fantasma da Obra – Serviços de Ghost-Writing.

Em parte por curiosidade, mas também pelo compromisso de ajudar a espalhar uma Boa-Nova, não resisti à tentação de entrevistar nosso criativo e bem-humorado Fantasma, e saber de suas boas obras. Divido aqui com os leitores da ESMERIL algumas lições inesperadas, com que o entrevistado surpreendeu o entrevistador. Fantasma discreto, pediu apenas para que seus nomes – dele e da equipe – não sejam revelados. Mas devo adiantar, sem trair sua confiança: trata-se de um romancista dos bons. E (alerta de spoiler!) de vez em quando colabora com a ESMERIL. Li dois dos livros publicados pelo nosso Fantasma, o homem tem duas das condições fundamentais para, no universo das Letras, exercer a caridade: talento e boa-vontade.

E agora, vamos à entrevista:

Esmeril: Em que momento da sua vivência com a arte da escrita surgiu a ideia do Fantasma da Obra?

Fantasma: Ao longo dos anos, quanto mais eu desenvolvia minha expertise na arte da escrita – seja como escritor, seja como redator profissional – fui percebendo que eu tinha uma habilidade de que nem todos dispunham. Pessoas que estão sempre precisando divulgar algum trabalho, transmitir suas ideias e experiências, mas não dispõem desse talento que, modestamente, aceito e reconheço como um dom de Deus. Entendi então que a melhor forma de agradecer ao Criador pelo talento recebido é ajudando aos outros…Até que finalmente resolvi criar a empresa.

Esmeril: Então ela é bem recente…

Fantasma: Sim. Como empresa, e como trabalho em equipe, o Fantasma da Obra existe desde meados de 2016. Quer dizer, tem uns seis anos de existência. Mas o fato é que todos os integrantes da nossa turma já trabalham com ghost-writing desde longa data. Eu, por exemplo, faço isso há 25 anos! Nossos colaboradores também: são redatores e pesquisadores que há pelo menos uma década investem nesse trabalho de dar vida e voz à mensagem de nossos clientes. A marca O Fantasma da Obra veio apenas dar nova roupagem a essa longa jornada.

Esmeril: Por que o nome da sua empresa nos soa familiar?

Fantasma: Claro, e não por acaso: é uma referência ao romance O Fantasma da Ópera, do francês Gaston Leroux, publicado em 1909. De lá para cá, o nome foi ficando cada vez mais famoso, mesmo para quem não leu o livro. Foram tantas as adaptações para teatro, ópera e cinema que acabaram dando fama ao romance de Leroux – sempre mais citado do que realmente lido. A adaptação mais famosa é o musical que estreou na Broadway em 1986 e desde então vem batendo todos os recordes: já foi visto por mais de 100 milhões de pessoas. Há alguns anos, o trocadilho me veio à cabeça – foi inevitável. E acabou se tornando uma forma de demonstrar nossa capacidade criativa. Tem dado certo: apesar de menos notório, nosso Fantasma vem espalhando bons serviços para um bom punhado de clientes satisfeitos.

Esmeril: Todo trabalho significa muito mais do que “uma forma de ganhar dinheiro”… Para vocês, é um jeito de ajudar aos outros. É isso?

Fantasma: Exatamente. A principal ajuda, a mais óbvia, é a de colocar no papel as ideias de quem tem dificuldades de escrever. São profissionais das mais diversas áreas, que também têm direito de transmitir seu recado. Pode ser um executivo, um médico, um jovem missionário… Mas sempre tivemos que encarar outros desafios, alguns bastante inesperados. Por exemplo, muitos estudantes universitários que têm dificuldades para terminar seu TCC, escrever sua dissertação ou tese, acabam frente a frente com a tentação de comprar o trabalho pronto na dark web, ou de plagiar monografias já publicadas. Para estes, oferecemos a oportunidade de contar com nossa ajuda na pesquisa e redação final de seu texto, de uma maneira correta, às claras – sem que ninguém precise mergulhar no “lado escuro” da internet. É também uma forma de ajudar ao próximo, não acha?

Esmeril: E não é desconfortável trabalhar sem aparecer, escrevendo trabalhos que outros vão assinar?

Fantasma: Não é bem assim. Na verdade, vemos como a oportunidade de exercitar nossa humildade, trabalhando no anonimato. Afinal, não é exatamente esse o princípio da caridade? Mesmo numa relação profissional, é possível treinar a humildade, a discrição. Somos um fantasma católico!

Esmeril: O senhor disse que o Fantasma já produziu obras para um naipe variado de clientes. Pode citar alguns?

Fantasma: Lamento decepcioná-lo, mas vou insistir num aspecto: a discrição, o anonimato, é o segredo do nosso trabalho. Certamente não estamos fazendo nada errado, mas o fato é que boa parte dos clientes não gosta de admitir que contratou alguém para escrever por eles. Se eu ficar dando nomes “aos bois”, vou trair a confiança de muita gente. No máximo, posso mencionar os “milagres” sem citar o nome dos santos. Um dos primeiros que escrevi foi o livro de memórias do diretor-presidente de um grande grupo de petróleo.

Há também um médico oncologista, que mais recentemente eu ajudei a apresentar suas pesquisas e experiências profissionais na luta contra o câncer.
Outro caso memorável: uma psicóloga estudava um negócio chamado “terapia de vidas passadas”, atividade meio marota. Pois ela me contratou e, ao longo do trabalho, consegui ajudá-la a rever sua posição – e ela acabou percebendo que estava no caminho errado, mexendo com as trevas do mundo.

Não posso garantir que tenha se convertido ao catolicismo, mas abandonar aquelas “práticas sinistras” já foi um grande passo! Enfim, seriam muitos os exemplos. Mas o trabalho que mais me encheu de alegria foi o livro de um Padre, contando a sua própria conversão e o trabalho missionário que
acabou desenvolvendo numa cidade turística da Região dos Lagos, no Rio de Janeiro.

Esmeril: Pelo visto, o campo de atuação do Fantasma da Obra é bem vasto.

Fantasma: Sem dúvida! Desde casas editoriais que precisem desenvolver e finalizar um projeto de livro a empresários e profissionais liberais – e, como eu disse, Padres que precisem registrar e difundir suas obras de evangelização. Já tivemos entre os clientes inclusive dois blogueiros. Não custa repetir que não se trata apenas de “frentes de trabalho”, e sim de uma grande variedade de oportunidades para ajudar as pessoas. Enfim, acho que cabe aqui citar o comediógrafo latino Terêncio: “Nada do que é humano me é estranho”.

Esmeril: Muitas pessoas ainda estranham o trabalho do ghost, mas a profissão já é bastante antiga, não é mesmo?

Fantasma: Exatamente: além de ser abrangente, é um trabalho que já tem um longo passado. Posso citar exemplos antigos e recentes. Na história da Igreja Católica, por exemplo: várias encíclicas papais foram escritas por ghost-writers, que anonimamente contribuíram para a propagação do Cristianismo. No campo da música, temos o caso ilustre do compositor austríaco Mozart, que durante anos foi contratado para escrever músicas que seus “patrões” da nobreza exibiam como suas. Mas isso não impediu que ele também criasse uma obra extensa e magnífica.

Mais recentemente: sabe-se que Charlie Chaplin forneceu apenas uma ideia geral para as canções da trilha sonora de Tempos Modernos, que na verdade foram compostas por seu ghost David Raksin. Outro exemplo é a música Respect, que apesar de imortalizada em 1967 pela voz de sua “autora oficial”, Aretha Franklin, foi escrita na verdade por um ilustre desconhecido, David Ritz.

Esmeril: E na política, onde a comunicação é um fator importantíssimo: isso é uma prática também comum? Ou o caso de JK foi uma exceção?

Fantasma: Exceção nenhuma: em política, ter um ghost-writer é a regra. Cito aqui só alguns exemplos famosos. No Brasil, o filho bastardo do Visconde de Vila Nova da Rainha, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, não era apenas o melhor amigo de D. Pedro I – era também seu ghost-writer, para as cartas, memórias e discursos. Nos Estados Unidos, podemos citar o caso de John Quincy Adams, o real criador da Doutrina Monroe: ele escreveu o documento enquanto trabalhava como secretário de Estado do presidente James Monroe – mas a doutrina leva até hoje o nome do político, e não o de John Adams.

Esmeril: Muito bem, senhor Fantasma, o que os interessados devem fazer para contratar os serviços do Fantasma da Obra?

Fantasma: É simples: basta entrar em contato pelo WhatsApp (21) 99138-2353. Ou pelo e-mail: anfeborges@gmail.com. Há também a página do ghost no Facebook. Nosso Fantasma é camarada, e está sempre pronto para ajudar!


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