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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

Entrevista com Giorgio Cappelli

Revista Mensal
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

Um erro que queria evitar, e que alguns autores cometem, é criar um “homem de saias”

 

Giorgio Cappelli, que se consagrou com as True Outstrips, tirinhas protagonizadas pelo professor Olavo de Carvalho, está de volta com uma nova publicação, A Fivela Ardente de Bila, publicada pela editora Inverso.

Com seu humor inteligente e muitas vezes escrachado, Giorgio nos apresenta, na figura da jovem guerreira Bila, uma espécie de “desconstrução da desconstrução”, uma fortuita zoeira, ao melhor estilo Monty Python, com personagens do atual modismo Girl Power na cultura pop.

Bila, as True Outstrips, novos projetos e publicações de Cappelli, lacração nos quadrinhos e muito mais podem ser conferidos na entrevista a seguir. Boa leitura!

 

Esmeril News: Giorgio, em primeiro lugar, diga como está a produção das True Outstrips. Existe alguma previsão para um próximo volume encadernado?

Giorgio Cappelli: Neste momento específico, comecei uma “série dentro da série”, com doze tirinhas inspiradas na Teoria das 12 Camadas, do Olavo. Apesar de eu não saber se a Opção C pretende editar um Volume 2 das True Outstrips, estou perto de ter material para tanto. Foram 160 tiras no álbum anterior, e quase 320 atualmente; a mesma quantidade, portanto.

Esmeril News: Você lançou recentemente o álbum de quadrinhos A Fivela Ardente de Bila, pela Editora Inverso. Fale um pouco sobre como nasceu essa personagem, e também sobre as influências que a inspiraram – algumas delas estão na própria folha de rosto  do álbum, não?

Giorgio Cappelli: A ideia da personagem Bila é antiga. Sempre trabalhei com protagonistas masculinos, turminhas e, claro, havia as “mocinhas” que eram os interesses românticos deles. Nesses anos todos que escrevo, nasceram também personagens do sexo feminino, como a Apolônia, uma mulher exuberante e ingênua, e Tânia Saginatta, uma trintona com sobrepeso e modos abrutalhados que faz de tudo para arranjar namorado. Tem tanto êxito quanto o Cebolinha com seus planos!

Chegou, porém, um momento em que eu quis desafiar a mim mesmo e criar uma protagonista divertida e mais densa que a Apolônia e a Tânia. Pensei numa guerreira “pós-adolescente” num universo de fantasia estilo Conan ou Senhor dos Anéis, com pitadas de humor.

Um erro que queria evitar, e que alguns autores cometem, é criar um “homem de saias”. A primeira oportunidade para a personagem veio em 1995: fiz uma página de mangá só de brincadeira e coloquei em meu portfólio. Essa página caiu nas mãos de uma moça que gostou do que viu e me chamou para desenhar hentais para a editora dela, a Vertical. A personagem chamava Bárbara, a bárbara, e as histórias… Vocês podem imaginar. Eu olhava aquilo e pensava: “Não fosse esse conteúdo hardcore, seria uma personagem e tanto!”

Resumo da história: mais de vinte anos depois, reformulei a Bárbara e rebatizei como Bila, em homenagem à minha esposa, Sandra. Ela é filha de cearenses e tem olhos verdes. Segundo um finado tio dela, eles parecem duas “bilas” – que é como se chamam as bolinhas de gude no Ceará.

Sobre as influências: há um pouco de tudo: Asterix, Groo, lendas, contos de fadas, HQs e filmes do Conan e a trilogia Senhor dos Anéis.

Esmeril News: Quando te entrevistei para a Revista Terça Livre, em setembro de 2020, falamos a respeito do avanço das agendas lacradoras nos quadrinhos, e de lá para cá as coisas pioraram consideravelmente, sobretudo com personagens icônicos (Capitão América e Superman, por exemplo), e também fora das páginas, com a perseguição aos artistas não alinhados ao establishment da lacração, como o Joe Bennett. Como você percebe essa “marcha da vaca para o brejo”, como diria o professor Olavo de Carvalho, no mundo dos quadrinhos?

Giorgio Cappelli: Acho bem triste e irritante, tanto quanto a atitude dos que aceitam isso passivamente. Você citou o Olavo. Ele diria algo como “Quem tem medo do insulto, já perdeu a briga”. Felizmente há artistas reagindo a essa palhaçada (porque não tem outro termo mais educado para definir), como o caso do Bennett. Há também um lado bom: o público abandona esses quadrinhos e qualquer artista com conteúdo conservador tem muito mais chances de se dar bem.  

Esmeril News: As outrora gigantes Marvel e DC tinham os justos títulos de Casa das Ideias e Casa das Lendas. Elas ainda são dignas de tais honrarias? Caso não sejam, quais títulos você daria hoje em dia a essas editoras?

Giorgio Cappelli: Eu chamo a Marvel de “Casa da Ideia Fraca” ou “Casa do Não Dá Ideia”. Já a DC a gente pode denominar “Distúrbio Cognitivo”, como bem definiu o Ricardo Cardoso, amigo português da página Heroilogia e do blog Fortaleza da Solidão.

Esmeril News: Já que estamos falando de lacração, vamos voltar à sua personagem Bila. Ela a princípio tem toda uma aparência de mais uma produção “moderninha”, digamos assim, seguindo a atual onda feminista da cultura pop, mas é perceptível que na verdade ela pode ser até considerada uma paródia disso tudo, algo como um Monty Python zoando as próprias modinhas feministas. Foi isso mesmo?

Giorgio Cappelli: Sabe que eu nunca tinha parado para pensar nisso? A intenção sempre foi fazer rir, divertir e atingir o maior número possível de pessoas. Tanto mulheres quanto garotas que leram, gostaram bastante. Se as feministas torcerem o nariz, melhor ainda! Não faço quadrinho pra elas.

Uma curiosidade: assim que eu havia terminado os primeiros roteiros com a Bila,  lá por 2013, quis que uma mulher desenhasse a HQ, para dar o “toque feminino”. Procurei ajuda numa página supostamente de mulheres que apreciam cultura pop (cujo nome não mencionarei, mas que parece algo como “Dork Girls”). Nem me responderam! Então, assumi o lápis e o nanquim, e meu parceiro de projetos, o Enéas Ribeiro, ficou responsável pelas cores. Ele apresentou duas histórias para a Inverso e, pronto! Por ironia do destino, uma editora composta por mulheres!

Esmeril News: pra finalizar, gostaria que falasse sobre outros projetos seus, se possível. Havia um romance juvenil que era sua menina dos olhos, não?

Giorgio Cappelli: É tanta coisa! No momento a Marco Editorial vai lançar meu romance A.E.I.O.U.P. – Alienígenas Extraterrestres Intergalácticos de Outro Universo ou Planeta. A trama se passa em 1987, e conta com um quarteto de garotos na faixa dos 16 anos que descobre uma invasão de ETs em curso. Além de suspense, ação e humor, eu me permiti dar uma alfinetada no gramscismo. Muito sutil. Quem não pegar na primeira leitura, insista até achar.

Recentemente, após um ano de empenho, concluí a segunda aventura do Extracurricular Cucaracha. Estou procurando uma editora que deseje publicar. Além disso, há anos tenho escrito duas séries: uma sobre um paleontólogo aventureiro, chamado Luís Viana Gomes, que se mete com dinossauros vivos nas duas primeiras aventuras; e outra, passada em 1912, sobre um clínico geral especializado em monstros, o alemão Adolph Rudolph. Ele já se encontrou com Gregor Samsa, de A Metamorfose, com o advogado do Dr. Jeckyll, de O Médico e o Monstro, e com um bem-sucedido discípulo do cientista louco de A Ilha do Doutor Moreau. Tudo, porém, de forma implícita. E a minha menina dos olhos: o romance histórico Isto Não É um Conto de Fadas também virá por aí. Espero ter tempo, saúde e condições para produzir essas e mais obras.


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