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domingo, 19 setembro, 2021

O curioso caso da Fundação Palmares: a Inquisição cultural que nunca existiu

Revista Mensal
Larissa Castelo Branco
Bibliotecária em hiatus que se aventura na escrita, revisora textual, metida a cinéfila e apaixonada por Comunicação e Literatura. Em constante batalha contra a desinformação e a histeria coletiva, aprendeu com a esquerda como um ser humano não deve ser.

Materiais que não cumprem a missão institucional da Fundação, determinada em Lei, serão doados

A ala intelectual iluminada cult letrada ultra mega dileta do Brasil está em polvorosa e ataca novamente. O motivo? O relatório intitulado Retrato do Acervo: três décadas de dominação marxista na Fundação Cultural Palmares. O documento traz minuciosa análise e justificativas para respaldar a doação de mais de 300 livros, que faziam parte do acervo da biblioteca da Fundação.

Falou em livro, o cult bacaninha sobe no púlpito para bradar sobre o atentado cruel que a cultura e a Literatura sofrem nas mãos da direita. Pouco importa se a obra é de essência duvidosa ou se está ali no acervo apenas porque possui uma capa muito bonita… O que interessa, na verdade, é manter as aparências, aquela boa e velha estante cheia de livros nunca lidos, jamais entendidos e tampouco úteis.

A biblioteca é um organismo vivo, conforme preconiza uma das leis basilares da Biblioteconomia: “Uma biblioteca é um organismo em crescimento”. Tal lei, assim como as outras regentes, foram criadas por Shiyali Ramamritam Ranganathan, matemático e bibliotecário indiano, considerado o patrono da profissão.

Por ser um organismo em constante crescimento, a biblioteca passa por mudanças: entram e saem livros mediante diretrizes e políticas pensadas para proteger o fim ao qual a Instituição se destina. No caso da Palmares, os livros em questão traziam como pautas principais: sexualização de crianças, manual de guerrilhas, odes ao Comunismo e exaltação à figura do criminoso. Não é pertinente aqui nos aprofundar na questão do conteúdo em si.

O busílis da questão é a relação entre meio e fim da biblioteca da Fundação Palmares, cujo objetivo é a preservação e manutenção dos registros históricos e culturais de personalidades negras relevantes para o Brasil e para o mundo. Conforme já sabido, a hegemonia da esquerda impregnada por anos na instituição permitiu que a fundação fosse reduzida a um mero Centro Acadêmico, oferecendo consulta a obras que não passaram por um processo de avaliação sério, com crivo bibliotecário, ou se passou, nota-se grandes tendências políticas e ideológicas.

No relatório, menciona-se o descarte de uma obra de Machado de Assis, datada da década de 30, sob o argumento de que a escrita à moda antiga poderia impactar de forma negativa na escrita contemporânea de seus leitores, o que particularmente considero um ledo engano. Ponto negativo e mais combustível para o histerismo das cabecinhas iluminadas da redoma acadêmica e pseudo alfabetizada.

Nomes como Thomas Sowell, por exemplo, só vieram ser citados durante a atual gestão, o que comprova que a questão racial é apenas uma pauta sequestrada e utilizada de forma sórdida para manipular o caminho que cada indivíduo deveria seguir por conta própria: o de atribuir juízo de valor à informação.

A doação de livros faz parte do processo natural de uma biblioteca, em especial quando destinado àqueles que já não possuem condições de restauração ou cujo conteúdo não representa os objetivos da instituição que o abriga. Ao contrário do que a panelinha intelectualoide afirma, não houve, em momento algum, retrocesso quanto à manutenção do acervo. Eu mesma, enquanto bibliotecária, fiz diversos descartes ao perceber que alguns itens simplesmente não condiziam com o propósito dos locais de trabalho onde exerci a profissão.

Cabe também desmentir e desmistificar a ideia de que um descarte de livros equivale a uma inquisição, onde livros são queimados enquanto fanáticos religiosos dançam em volta entoando línguas estranhas. A bem da verdade, o descarte acontece sob as formas de doação, desbaste e permuta (troca de materiais entre bibliotecas, caso o livro tenha condições de ainda ser consultado ou emprestado). Não há caça às bruxas, nem um novo Index Prohibitorium, a oxigenação de um acervo é perfeitamente normal e faz parte da vida da biblioteca e consequentemente de seus usuários, que sempre anseiam por novidades e possibilidades informacionais que irão lhe permitir a construção de seu próprio juízo de valor e percepções de mundo.

Essa ideia de que uma biblioteca se faz com uma sala cheia de livros depositados é parte de uma mentalidade arraigada na intelectualidade medíocre, que se contenta com leituras de folhas de livros e conversas recheadas de firulas bonitas, que amaciam o ego de quem se acredita piamente que está a um degrau a mais na evolução humana.

Bibliotecas se fazem impactando vidas, mudando realidades, aguçando a sensibilidade e senso crítico, servindo à comunidade e ao mesmo tempo deixando-a se aventurar por caminho de mãos dupla, dando autonomia aos seus indivíduos para questionar, não lhes castrando a capacidade de duvidar daquilo que é oferecido.

Aviso: após a publicação da matéria, o Coordenador do Centro de Informação e Referência da Cultura Negra (CNIRC), Marco Frenette, entrou em contato com a revista e complementou a informação sobre o trecho que se refere a Machado de Assis: A obra Papéis Avulsos é citada no capítulo “Defasagem e Obsolescência do Acervo”, como prova de descaso com o acervo, por este não ter passado por um processo de renovação ao longo dos anos. O livro não será descartado, pois considera-se que o autor é um dos pilares da literatura brasileira. Grande prova disso é o desejo de chamar a biblioteca da Palmares de Biblioteca Machado de Assis.

Com informações da Fundação Cultural Palmares


Há pessoas que têm uma biblioteca como os eunucos um harém.

– Victor Hugo

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