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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

Consciência: diários dos soldados da 1ª G. Mundial

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Ler os registros pessoais dos combatentes é uma forma eficiente de acessar as perspectivas individuais da Grande Guerra

Abstraído o conceito romantizado que o termo ganhou nos nossos dias, um diário é precisamente o registro do conjunto das experiências com a realidade vividas por um indivíduo. É evidente que há grande variação de estilo, de profundidade e, claro, de sinceridade com que o sujeito se põe a escrever, a registrar suas impressões sobre tudo o que lhe acontece. Não é difícil entender o porquê da importância desses escritos para as ciências humanas — sobretudo para a História e para a Psicologia.

Durante a I Guerra Mundial, a Força Expedicionária Britânica (BEF, sigla em inglês) solicitava aos soldados o registro do quotidiano dos conflitos nas trincheiras e campos de batalha. A narrativa, a despeito da linguagem marcadamente burocrática, deixava transparecer, contudo, as angústias vividas pelos soldados durante os conflitos. O propósito oficial dos diários era o registro dos desdobramentos factuais da guerra, no entanto, um estudo publicado no jornal Media, War and Conflict, no início de agosto, revela que os combatentes colocaram no papel muito mais do que o solicitado.

O estudo é de autoria de Debra Ramsay, da Universidade de Exeter, na Inglaterra. A tônica da pesquisa é a demonstração de que os diários de guerra não eram um espaço neutro de informações, mas sim um lugar no qual ocorria a expressão da individualidade dos soldados. Ramsay salienta que a narrativa fora feita em linguagem formal, característica do ambiente militar, de forma concisa: “Duelo de artilharia das 4hs:30min às 5hs:30min. Morteiros de trincheira e atiradores de elite causaram problemas consideráveis. O trabalho na Linha de Defesa continuou”, registro de 28 de abril de 1917.

Há, no entanto, outros textos que extrapolam os limites do pragmatismo militar e transmitem o desespero infligido pelas condições brutais da matança generalizada. Um recurso estilístico salientado pela pesquisadora é a repetição. Numa entrada datada de 22 de outubro de 1914, sobre os conflitos numa vila na Bélgica, há a descrição de um bombardeio adjetivado como “furioso”. O soldado registra ainda que há um “fogo de rifle contínuo” que criara “uma provação muito desafiadora”. Essa expressão, “muito desafiador”, é bastante frequente nos diários que, segundo Ramsay, são de “partir o coração”.

“[Os diários] mostram [as] tensões entre os soldados e as instituições de guerra”.

Debra Ramsay

Debra Ramsay observa que, em função das imensas dificuldades no campo de batalha, com os soldados sob a tensão constante da iminência da morte, a escrita era frequentemente impossível. Nesses momentos os registos ficavam com uma ou duas linhas no máximo. Ainda assim, os regimentos de Nottinghamshire e Derbyshire, no final de setembro de 1916, conseguiram relatar os horrores da guerra praticamente de hora em hora. Trechos riscados evidenciam o impacto psicológico dos conflitos. Ramsay comenta que havia rabiscos desordenados em uma caligrafia que, se registradas sob outras circunstâncias, seriam de uma elegância admirável.

“Estou fascinada pelo fato desses documentos pertencerem a uma categoria própria, eles não são pessoais e nem são oficiais. Os indivíduos que os utilizam têm sido capazes de expressar sua individualidade dentro da burocracia que está cada vez mais definindo vida e procedimentos militares. Eles nos contam algo sobre a experiência humana de guerras que você não encontra em nenhum outro documento, porque foram esquecidos”.

Debra Ramsay

Com informações da Revista Galileu e do jornal Media, War and Conflict.

“Eu nunca havia passado e nunca havia imaginado que eu poderia passar 48 horas medonhas e de coração apertado como as últimas”.

Capitão James Patterson no dia 16 de setembro de 1914
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