BRUNA TORLAY丨HAARP, alarmismo climático e teorias conspiratórias

Bruna Torlay
Bruna Torlay
Estudiosa de filosofia e escritora, frequenta menos o noticiário que as obras de Platão.

Curiosamente, muitos críticos incisivos da hipótese segundo a qual emissões de carbono derivadas de atividade humana elevam a temperatura da terra – a famigerada tese do aquecimento global – muitos críticos dessa hipótese abraçaram outra, versando também interferência da ação humana sobre o clima para explicar a calamidade vivida no Rio Grande do Sul. Trata-se do suposto impacto climático do [finado] projeto HAARP.

A ironia da coisa está na origem comum do alarmismo climático, batido refrão da agenda globalista, e dessa teoria, hoje considerada conspiratória, mas em 1999 levada muito a sério por autoridades internacionais, e difundida pelo Parlamento Europeu num relatório oficial sobre ambiente, segurança e política externa.

A relatora desse documento, publicado em janeiro de 1999, foi a deputada sueca Maj Britt Theorin, uma socialdemocrata tipicamente promotora da agenda globalista e falecida em 2021. No relatório A4-0005/1999, o programa HAARP é descrito como “um sistema de armamento que perturba o clima”. Em vez de citar apenas os pontos que pretendo comentar, ofereço ao leitor o texto integral formulado pelos deputados da União Europeia:

O HAARP - Programa de Investigação de Alta Frequência Auroral Activa (High Frequency Active Auroral Research Project) é da responsabilidade conjunta da Força Aérea e da Marinha dos EUA, em colaboração com o Instituto de Geofísica da Universidade do Alasca, de Fairbanks. Experiências semelhantes decorrem também na Noruega, provavelmente na Antárctida, mas também na antiga URSS. O HAARP é um programa de investigação em que é utilizado um dispositivo terrestre, uma rede de antenas, cada uma alimentada pelo seu próprio transmissor, cujo objectivo é aquecer sectores da ionosfera graças a potentes raios de frequências de rádio de impulsos. Deste aquecimento de sectores da ionosfera resultam buracos ionosféricos e lentes artificiais.

Isto pode ser utilizado para muitos fins. Através da manipulação das particularidades eléctricas da atmosfera é possível controlar energias gigantescas. Utilizadas como arma militar contra um inimigo podem produzir efeitos devastadores. Com as técnicas do HAARP pode-se dirigir para um ponto determinado uma energia milhões de vezes superior à que é possível controlar com um emissor clássico. A energia pode também ser dirigida contra alvos móveis, o que poderia ser utilizado contra mísseis inimigos.

O projecto permite criar melhores comunicações com os submarinos e manipular as condições metereológicas mundiais. Mas também o contrário, perturbar as comunicações, é possível. Através da manipulação da ionosfera é possível bloquear as comunicações mundiais, ao mesmo tempo que as suas próprias chegam ao destino. Outra aplicação deste sistema é a tomografia por penetração da crosta terrestre, que podemos imaginar como um exame da Terra ao raio X a diversos quilómetros de profundidade para detectar jazidas de petróleo ou gás, mas também instalações militares subterrâneas. Outra das aplicações do sistema HAARP é o "radar além-do-horizonte" que segue a curvatura terrestre para observar objectos que se aproximam a grande distância.

Desde os anos 50, os EUA realizaram explosões de material radioactivo na cintura de Van Allen para investigar qual o efeito das explosões nucleares a alta altitude e das emissões electromagnéticas resultantes da explosão sobre as transmissões de rádio e as operações de radar. Isto criou novas cinturas de radiações magnéticas que abrangem quase todo o globo. Os electrões moveram-se ao longo destas linhas de campos magnéticos e criaram uma aurora boreal artificial sobre o Polo Norte. Através destes testes militares criaram-se sérios riscos de perturbação da cintura de Van Allen por muito longo tempo. Os campos magnéticos terrestres podem ser perturbados em largas zonas e impedir as comunicações por rádio. Segundo cientistas americanos, pode levar várias centenas de anos até que a cintura de Van Allen estabilize numa situação normal. O Projecto HAARP pode ter como resultado alterações das condições climáticas. Pode também influenciar todo o sistema ecológico, especialmente nas zonas sensíveis da Antárctida.

Uma consequência extremamente séria do HAARP são os buracos na ionosfera provocados pelas fortes ondas de rádio emitidas para uma determinada zona. A ionosfera protege-nos das radiações cósmicas. Espera-se que estes buracos na ionosfera sejam de novo preenchidos, mas a experiência das alterações da camada de ozônio aponta no sentido contrário. Isto significa que existem vários buracos na zona de proteção que a ionosfera constitui.

O HAARP, em virtude das suas vastas consequências para o ambiente, constitui um problema mundial e deve-se pôr a questão de saber se as vantagens desse sistema compensam os riscos. Os efeitos ecológicos e éticos devem ser investigados profundamente antes de continuar com a investigação e os testes. O HAARP é um projecto quase totalmente desconhecido do público e é importante aumentar a consciência do público em geral sobre este projecto.

O HAARP está ligado a 50 anos de investigação espacial intensiva, de clara natureza militar, nomeadamente como parte da chamada "guerra das estrelas" para controlar as camadas superiores da atmosfera e as comunicações. Esta investigação deve ser considerada como seriamente prejudicial para o ambiente e podendo ter efeitos incalculáveis para a vida humana. Ninguém sabe ainda hoje de forma segura os efeitos que o HAARP pode ter. A cultura do secretismo no seio da investigação militar deve ser combatida. O direito à transparência e ao controlo democrático dos projectos de investigação militar e o controlo parlamentar devem ser promovidos.

Uma série de acordos internacionais ("Convenção sobre a proibição de utilização militar ou outra utilização hostil de técnicas de alteração do ambiente", "Tratado da Antárctida", "Tratado sobre os princípios a seguir pelos Estados na exploração e investigação do espaço exterior, incluindo a Lua e outros astros" e a "Convenção da ONU sobre o direito marítimo") fazem com que o HAARP pareça muito contestável, não só do ponto de vista humano e político como também jurídico. O Tratado da Antárctida estabelece que a Antárctida deve ser utilizada unicamente para objectivos pacíficos. Isto implicaria que o HAARP viola o direito internacional. Todos os efeitos dos novos sistemas de armas devem ser investigados por órgãos internacionais independentes. É necessário preparar novos acordos internacionais para, em caso de guerra, proteger o ambiente contra destruições desnecessárias.

Em síntese, eis o documento oficial, escrito e revisto por parlamentares da União Europeia, que deu origem às teorias conspiratórias de que tal projeto teria por finalidade o controle do meio ambiente, sendo capaz de impactar “todo o sistema ecológico”. Surgiu pela porta da frente globalista, portanto, a ideia de que o HAARP pudesse “ter como resultado alterações das condições climáticas.” O mesmo documento, ademais, fundamenta o caráter preocupante e nocivo do HAARP com base na “experiência das alterações da camada de ozônio”.

O projeto HAARP foi interrompido em 2014 e hoje permanece inativo. Mas eis aí a fonte de todas as teorias conspiratórias que circulam mundo afora a seu respeito desde o início dos anos 2000. A mesma fonte, aliás, de onde surgem as exigências da legislação ambiental rigorosa que inviabilizou a construção de diques e demais recursos preventivos no Rio Grande do Sul. Eis aí o tipo de ação humana que, de forma indireta, realmente teve parte de responsabilidade na catástrofe: a obsessão em controlar a natureza, ou as consequências da interação humana com ela. E vejam, de forma indireta porque a única coisa que se poderia ter feito para prevenir a calamidade atual era um trabalho preventivo de contenção dos efeitos da inundação sobre cidades construídas em área de risco. Mas mesmo esse necessário arremedo foi deixado de lado em decorrência da pressão da agenda das “mudanças climáticas”, que interfere no hábito humano de interagir com a natureza de forma sempre arriscada, nunca previsível, jamais absolutamente harmônica.

O grupo da direita política que abraçou a curiosa hipótese de “calamidade planejada”, vejam só a ironia, agiu de forma semelhante aos idiotas úteis da agenda ambientalista. De quebra, ainda deu de presente para o governo federal a possibilidade de provar que “a extrema-direita compartilha fake-news sobre a tragédia no sul”.

Ganham duplamente os socialdemocratas com o recente compartilhamento voraz dos temores que a União Europeia criou há mais de 20 anos. Reforçam a tese de que o homem tem poder sobre o clima na cabecinha dos supostos adversários políticos, e ainda os processam ou prendem por isso.

Diante de tamanho prodígio, confesso que fico sem palavras.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Se o MP proibiu a dragagem do rio Guaíba para atender demandas dos ambientalistas é bem possível que parte da responsabilidade pela tragédia seja dos juristas ativistas.

  2. Acompanho Sanchotene. E os efeitos políticos colaterais estão explicados no artigo.
    E a Holanda, quem diria? Nada a aprender?
    P.S.: A cidade de Rio Grande no seu plano diretor do início do século, tinha canais atravessando a cidade para equalizar as marés do oceano e cheias da lagoa dos Patos. Passando pelo Saco da Mangueira. Só um foi mantido, o da atual Av. Major Carlos Pinto, a.k.a “Canalete”, com manutenção precária. Establishment.

  3. “Eis aí o tipo de ação humana que, de forma indireta, realmente teve parte de responsabilidade na catástrofe: a obsessão em controlar a natureza, ou as consequências da interação humana com ela.”

    Esse é o ponto central da questão.

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