Os policiais chegaram ao anoitecer, arrombaram a porta e o imobilizaram, algemaram e conduziram à prisão

Sozinho na cela estreita e sem janelas, paredes pintadas de preto, sentia o fedor da sentina. O carcereiro trancou a porta de ferro e o prisioneiro deitou-se no alcochoado imundo com a cara voltada para as grades, buscando respirar algum ar menos infecto. Sentia frio.

Olhando para o teto passou a imaginar, como num filme, a própria vida. Queria entender coisas que estavam além de seu alcance de conhecimentos e informação. Sabia que ninguém o visitaria. Os pais e irmãos, os amigos de infância estavam a milhares de quilômetros de distância. A lâmpada forte que nunca se apagava impedia de saber se era dia ou noite. A campainha estridente que soava a intervalos impedia o sono.

Não tolerava o pai, policial militar de cara fechada, controlador, que frequentemente espancava os filhos e parecia desprezar a mulher. Ela, a mãe, era uma pessoa dócil e resignada, que saia de casa apenas para ir à igreja duas ou três vezes por semana, resignando-se no mais em cumprir as tarefas domésticas, alisando os cabelos dos filhos para espantar os maus pensamentos.

Afastara-se da família e os anos passaram, muitos anos, com muitas cartas trocadas com a mãe e raras visitas à casa onde nasceu. Enfrentou o mundo buscando liberdade. Aprendeu a mentir, fingir, emocionar-se também, para chegar àquele instante, impotente e marginal. Sentia-se como animal enjaulado a quem restava apenas a liberdade de pensar. E pensava que a liberdade estava mesmo era na condição de relacionar-se amorosamente com os semelhantes, viver solto para andar descalço ou banhar-se na chuva, juntar pedras e construir um abrigo, descobrir e utilizar os bens disponíveis para a construção física e mental. Preservar o bom e o belo na caminhada.

Liderou pessoas em nome de uma crença obscura, atravessou áreas desertas e chegou a um castelo em ruínas. Renunciou à fé, valores incutidos na infância, tudo quanto o caracterizava como pessoa.

Exilado, conheceu parte do velho mundo apreciando coisas belas e outras espantosas. A prepotência de uns, o envolvimento com ideais falsos, a solidariedade entre semelhantes e a saudade da terra natal, do idioma e dos costumes o fizeram aceitar a volta na condição de clandestino, para entrar na rotina mudar o mundo, armado de sonhos fantasiosos incutidos por um grupo pretensioso, um grupo sedento de poder totalitário.

Estava só! Cada quem é só para decidir o que fazer da própria vida, percebendo que os poderosos manipulam as pessoas como elementos descartáveis, buchas de canhão. Estava só como sempre esteve desde que foi envolvido e esmagado pelo mecanismo de controle mental, dando credibilidade a promessas que pareciam verdadeiras. Estava só e cansado das decisões desastrosas para si e para aqueles com quem, eventualmente conviveu. Enfrentou o mundo, fingiu, emocionou-se, legitimamente marginal depois de atravessar desertos que o levaram aos ambientes áridos da inutilidade.

Um dia encontraria o amor numa relação humana harmônica e construtiva, num encontro de almas. Centenas de noites e dias de busca, testes de afeição, aventuras nos caminhos da infidelidade. Com os olhos fechados repassava cada evento, tentando resgatar emoções repetitivas para a satisfação dos sentidos, prazer estético, intelectual, físico. Taí.! Foi o que lhe foi roubado junto àquele grupo. Na realidade eram apenas enganos, manipulação, mentiras.

Há muito que fazer antes que uma mosca circule pelo rosto, pelos lábios e pelas pálpebras fechadas sobre os olhos castanhos pedintes como olhos daquela cadela dócil e carente. Percebia as contingências do ambiente, quando vestiu os trajes de soldado determinado a alcançar uma taboa de salvação num mar revolto e cheio de mistérios, que agora podia identificar como ânsias de poder e ambição mascaradas de “luta pelas liberdades”.

Que liberdades? Pois tudo quanto havia nessa história escondia uma realidade avessa aos direitos humanos: matar e desprezar valores morais, negar justiça, segurança para todos os comuns. Quimeras, utopias na contramão da realização do bem-estar prometido.
O homem marcado teme novas aventuras. Está paralisado. Sabe que lhe restam forças. Mas ainda não sabe como utilizá-las à falta de um projeto confiável e viável. O dia a dia das pessoas tem sido decidido nos grandes centros de pesquisa tecnológica controlados por homens descendentes de linhagens poderosas. Os que decidem nas sombras robotizaram a produção industrial do mesmo modo que os aspirantes antagônicos do poder real robotizaram a mente de gente simplória, como ele mesmo, agora prisioneiro e só, conservando a única liberdade da mente contaminada por dúvidas e insegurança existencial.

Os pensamentos voavam incontroláveis, como num pesadelo, quando a porta de cela foi aberta e o carcereiro lhe entregou uma caneca sebosa com um líquido escuro e adocicado, mais um pedaço de pão. Como fazer para que as gentes, pudessem viver num ambiente livre e criativo, sem temores, sentindo um restinho de entusiasmo no coração, sentindo os sabores da vida em vez dos temores instalados na mente?
Estava só. Colhendo o que plantou. Joio em lugar do trigo. Estar só era atentar para os menores ruídos que identificavam a aproximação de alguém. Estar em silêncio como um animal ferido, presa fácil para os predadores. Estar só era refrear o grito: preciso de você! Me dá um abraço! Deixe que eu chore no seu ombro! Diga uma palavra sincera e amiga. Humana de verdade. Ainda existia humanidade? Ora porra! Que pieguice!

Precisava ter fé nele mesmo para administrar a vida com escolhas pontuais no mundo que é como sempre foi. Parece que somente as escolhas individuais eram viáveis para mudar o mundo de cada um. Os humanos estavam mesmo presos em currais mentais.


Estamos todos condenados à prisão solitária dentro de nossa própria pele, por toda a vida.

– Tennessee Williams

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