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segunda-feira, 20 setembro, 2021

A Coisa mais bonita do Mundo

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

A beleza está ao nosso redor, talvez seja necessário apenas algum esforço, ou boa vontade, para a reconhecer, ou o olhar da inocência

Um conto de José Anselmo Santos.

Seis homens remavam na madrugada, conduzindo a grande canoa pelo caminho sinuoso do rio, em direção ao mar. As árvores olhavam inclinadas sobre a rua líquida, curiosas, observando a passagem dos navegantes. Talvez temerosas de alguma agressão. Talvez solícitas para ajudar com a sombra, oferecer algum fruto. Ou reconhecendo o velho tronco de uma espécie tombada a golpes de machado e transformada na embarcação rudimentar, que conduzia pessoas ainda sonolentas.

Na popa ia o patrão manobrando o leme, imprimindo a direção. Nos bancos à sua frente os três pares de homens morenos e parrudos remando em perfeita sincronia, gerando um som parecido ao de tambores, um ritmo ligado às batidas do coração, seguido pelo canto das águas, sangue que circulava nas veias da terra. No céu a estrela d’alva brilhava destacando-se entre os incontáveis pontos brilhantes que aos poucos sumiam enquanto o sol pintava tudo de ouro e azul.

A vegetação despertava revelando sua exuberância à luz e espalhando cheiros no ar. Os sacos com mercadorias ocupavam a parte central da canoa. Logo adiante nos dois bancos dos passageiros estava o casal e um menino de olhos bem abertos, fascinado com as imagens que surgiam das sombras. Ainda não imaginava que passaria a vida buscando ver e retirar da escuridão da ignorância um parco entendimento da verdadeira natureza da terra e dos homens em sua relação com o infinito desconhecido.

Logo surgiu a casinha branca entre os cajueiros e a proa da embarcação apontou para o ancoradouro onde outra canoa descansava. Um cachorro latiu e correu para receber os visitantes, enquanto um homem atlético de cabelos negros e a mulher esguia, de olhos brilhantes e riso aberto, que enxugava as mãos no avental branquinho, saíam da casa dando os bons dias.

– Chegou na hora Júlio… O café está esperando… – disse o homem enquanto agarrava a corda e amarrava na estaca segurando a canoa.

Os remadores começaram a descer e ajudaram os passageiros. O menino saltou na água com os pés descalços e logo a mãe foi dizendo:

– Devagar… Vá pedir a benção a dona Das Dores.

– A benção dona Das Dores!

Ele sentiu a mão que alisava seus cabelos o ouviu-a dizendo:

– Como está grande! Deus lhe abençoe e faça feliz. Venham… Vamos entrar…

– Ô comadre… Quanto tempo…

– Pois então, chegou o dia. Como vai a saúde?

– Bem, na graça de Deus. Como está bonito aqui…

-Entre… Entre… Fiz o bolo de puba que você gosta.

Aquela era a parada para o café da manhã e tempo de descanso para os remadores que teriam mais algumas horas de exercício até a foz do rio. O menino foi explorar o quintal e observar os aratus vermelhinhos, agarrados nos troncos dos mangues à margem do rio. Aquele era um bichinho bobo. Pra pegar uns vinte e levar pra panela bastava ter uma lata e sair batendo. O som os atraia e a curiosidade facilitava a captura.

Chamaram-no da casa.

– Vá lavar as mãos pra tomar café – a mãe disse enquanto preparava a caneca de leite tépido com mel que foi sorvido com gosto. Pediu um pedaço de beiju com coco e licença pra esperar lá fora.

– Vá, mas não se afaste muito que já vamos sair.

O cachorro o acompanhou correndo para recolher os capucos de milho que ele atirava ao longe para apreciar a agilidade do bicho. Sentou-se à sombra, encostado ao tronco de um cajueiro, mordeu o beiju e deu um pedaço ao cachorro, que, ao lado, apreciava as galinhas que ciscavam por ali, catando bichinhos. Acariciou a cabeça do bicho e coçou por trás das orelhas vendo o rabo que balançava, falando, do jeito que falam os cachorros. Contou pra ele a história de Tubarão, o primeiro cão amigo que ganhou de seu pai. Veio numa caixa de sapatos e cresceu depressa.

– Você não se importa com as galinhas? Se fosse o Tubarão já estaria correndo atrás delas e pegando pelo pescoço. Só num domingo que a gente foi passear e demorou muito a voltar pra casa… Acho que ele sentiu vontade de brincar… Cavou um buraco perto da cerca do galinheiro, afastou as varas, entrou e matou bem umas dez… Não comeu, só matou… Acho que não gostava de galinha crua. Aí papai pegou uma corda e amarrou no pescoço dele. Ficou de castigo… No outro dia amanheceu solto… Não sei como fez pra desamarrar a corda do pescoço. Meu pedaço de galinha ensopada é a coxa. Pois eu juntava todos os ossos e ele já sabia… Vinha correndo pegar o petisco na minha mão… Morreu. Ouvindo com atenção, o cachorro apoiou a cabeça na perna do menino, como dizendo: “eu estou aqui”.

Logo chegou a hora de seguir a viagem. Despedidas, adeus ao cachorro e a navegação recomeçou. As árvores e manguezais pareciam afastar-se com os bandos de passarinhos e saguis enquanto a estrada líquida ficava mais larga. O pai conversava com o patrão, sobre o tempo, as marés e os peixes.
Surgiram as camboas, redes de pesca formando um semicírculo, armadas a partir das margens. Quando a maré baixava os peixes maiores ficavam presos nas malhas e eram recolhidos para chegar às feiras salgados e desidratados ao sol. Os peixinhos e piabas escapavam.

As cores das margens começaram a mudar. A argila negra sumiu dando lugar a areias amareladas e logo brancas como sal. O pai mandou-o experimentar a água. Era salgada mesmo! Os coqueirais dominaram a paisagem e a Ilha apareceu com sua construção de pedras cinzentas olhando o mar imenso, morada de peixes tão grandes como a baleia que engoliu Jonas, salvo por milagre.

Todos desembarcaram e dois burrinhos foram carregados com os fardos e as malas, enquanto os viajantes caminhavam descalços sobre a areia morna em direção a casa. Na varanda apareceu o tio Terêncio, com um chapéu de palha, descendo os degraus de pedra para receber o irmão, a cunhada e o sobrinho. Tirando o bigode, o tio era a cara do pai. Abraçaram-se e ele o ergueu no colo dando uma volta, apontando o mar, os coqueiros, a casa e o pomar, disse:

– Tem um mundão aí para você explorar e vou lhe apresentar um amigo pra mostrar tudo.

A mãe disse:

– Vá dando corda… Depois não se arrependa.

Na varanda estava Donana, que logo veio ajudar a mãe e mostrar o quarto, o banheiro, a casa, falando pouco, reservada, mas com um sorriso iluminado de quem estava pronta para servir e agradar.

– Me arranja um copo de água, Donana? – disse a mãe.

– Venha, venha… – Na sala de jantar, Donana serviu a água fresca das moringas de barro.

Os homens conversavam na varanda, enquanto o menino sentado na escadaria de pedra contemplava o mar, fascinado pelos tons de verde e azul profundo, as ondas que avançavam lambendo a areia, deixando um bordado de espumas brancas que logo sumiam. Estava contando o ir vir das ondas quando a mãe o chamou:

– Daniel, venha beber água.

Donana o serviu e comentou:

– Como é bonito seu filho. Regula na idade com o meu Odair. A senhora vai conhecer. Ele vai ter com quem brincar.

– Não sabia que era casada…

– Sou não senhora. Foi um deslize… O pai já morreu… Afogado. – Dizendo baixou a vista para esconder a mentira.

– Sinto muito.

Com ajuda de Donana, a mãe foi arrumar o quarto. Depois seguiram à cozinha para preparar o almoço, trocando informações sobre temperos e receitas. As verduras e legumes eram colhidas na horta cercada de varas de bambu. A mãe havia trazido latas de bolacha, chocolate e uns litros de azeite português, além de outras coisinhas para reforçar a despensa durante o mês.

Nem era preciso. As galinhas andavam pelo terreiro, por baixo das mangueiras e cajueiros, catando formigas e bichinhos. De noite empoleiravam-se nas árvores. No galpão de ferramentas estavam as caixas onde punham os ovos e chocavam as ninhadas para garantir omeletes, frangos ensopados com batatas ou envolvidos em molho pardo para regar a macarronada aos domingos. Durante a semana as refeições eram preparadas com peixes, camarões, siris e regularmente um pirão de guaiamus garantidos por Odair, que os capturava em armadilhas e os alimentava com restos da cozinha, num viveiro coberto, nos fundos do galpão.

O pai e o tio sumiram entre os coqueiros. Ele ficou ali, sentado na escada de pedra pensando em sair correndo pela areia branca, quente e macia, banhar os pés nas marolas, sentir a carícia daquele elemento grandioso que parecia ser um espelho imenso refletindo o céu. Foi quando ouviu:

– Êi! Você é Daniel, não é?

– Sou… E você?

– Odair… Meu padrinho Terêncio mandou chamar pra comer maçã de coco. Vamos?… Correndo!

Saíram por baixo do pomar e em pouco tempo estavam na área dos coqueirais, batidos pelo sol. Adiante estava a clareira onde os cocos empilhados eram descascados por alguns caboclos. O pai e o tio, sentados num tronco, bebiam água de coco. Odair tomou o facão e abriu um dos frutos, com destreza, oferecendo ao menino. Repetiu a tarefa e sentou-se para sorver o líquido fresco e adocicado.

– E as maçãs? Você falou de maçãs…

– Vamos procurar… Elas estão nos cocos secos… Balançando a gente sabe que não têm água… Aí a gente sabe que tem maçã… Este aqui.

Com dois cortes certeiros abriu o coco. Lá estava uma forma de maçã, branca e esponjosa. Odair a retirou, cortando em duas partes oferecendo a metade. Daniel experimentou, apreciou o sabor suave e o perfume, enquanto o tio explicava que aquilo era a forma embrionária de um coqueiro novo. Dirigindo-se a Odair, disse:

– Amanhã, bem cedinho, você acorda o Daniel e leva ele pra pegar siris. Quero daqueles bem grandes para o nosso almoço.

– Sim, padrinho.

– Agora vamos voltar pra casa que minha barriga já está roncando.

A mesa estava posta e o chão da casa era frio, diferente da areia quente que ainda estava entranhada entre os dedos dos pés descalços. A mãe o mandou lavar as mãos, Odair foi ajudar na cozinha e depois veio para a mesa. Sentaram-se todos e o pai, antes de iniciarem a refeição, agradeceu a Deus pelos alimentos, pela saúde, pelo bem-estar da família.

Donana começou a servir os pratos para os meninos, pirão, couves, arroz e pedaços de carne, vagens e quiabos, folhas verdes e rodelas de tomate num cantinho. A mãe elogiou o tempero do cozido enquanto o pai e o tio falavam sobre a safra dos coqueirais que seria embarcada para a fábrica nos próximos dias. Do galpão, onde os trabalhadores eram servidos, chegavam risadas, o som de uma viola e logo um canto dolente:

“Passeia meu bem, passeia,
Por paragens que eu te veja,
Inda que a boca não fale,
Meu coração te festeja*

Daniel, ao entardecer, voltou aos degraus da varanda, fitando as águas inquietas até que o caminho de ouro alaranjado apareceu, enquanto a bola de luz dourada do sol ia sumindo no horizonte. As garças se empoleiravam parecendo flores brancas nas copas das árvores e o espaço abriu-se para a visão espetacular das estrelas e da lua.

Dormiu ouvindo a cantiga do mensageiro do vento pendurado na varanda, misturada à conversa do mar com as copas dos coqueiros. Sonhou navegando num barco azul com velas brancas, embalado com o cheiro e movimento das águas, apreciando o voo dos pássaros que buscavam o alimento num mergulho rápido. Sentiu-se pleno como uma partícula integrando a obra infinita daquele mar e do céu, na eternidade insondável, sem medo da incerteza, absorvendo com alegria cada naco de vida.

Odair, que ocupava uma cama no mesmo quarto o acordou bem cedinho. Saíram os dois, levando um saco e tridentes de arame grosso fixados num cabo de madeira. No refluxo das ondas os siris apareciam correndo de volta ao mar. Era o momento de cercá-los, prender na areia com o tridente e logo recolher cuidadosamente no jacá.

Pegue assim, por trás. Esses bichos têm muita força nas garras, podem arrancar seu dedo fora…
Riam juntos enquanto juntavam os “bichos” no saco de aniagem; era divertido! Um corre-corre para escolher os maiores entre dezenas. De volta à cozinha devoraram as talhadas de cuscuz com ovos e leite com mel. Em poucos dias estavam unidos como irmãos, compartilhando aprendizados e percepções.

– Hoje vai aparecer a lua cheia… Você vai ver a coisa mais bonita do mundo!

– Eu já vi a lua cheia…

– Mas não a daqui… Você vai ver… É bem grandona… E vai saindo do mar, suindo pelo céu e acendendo as estrelas… Tanta estrela que a gente fica zonzo. O padrinho sabe o nome de um monte delas… Disse que existem mais estrelas no céu que gente e formiga na terra.

– Eu também conheço algumas: o cruzeiro do sul, as três Marias…

– Já olhou a lua pelo binóculo de um olho só?

– Telescópio? Tem um aqui?

– O padrinho tem. Ele monta na areia, ajeita na direção da lua e dá pra ver São Jorge montado no cavalo… E um lugar do céu que é poeirento, que nem uma neblina…

– Isto quero ver.

Ao entardecer voltavam para encontrar a mãe na varanda do casarão de pedra, descansando numa rede amarela conversando com Donana.

Chegaram? – Donana disse, emendando – Vai molhar a horta e recolher os ovos meu filho… Depois banho!

A mãe sentou-se na rede e perguntou:

– Onde andou a tarde inteira?

– A gente foi ver as casas dos índios, tomar banho de mar, e de noite vamos ver a lua cheia. Odair disse que o tio tem um telescópio…

– Mas isto é depois do jantar. Donana vai fazer uma sopa supimpa! Agora vai ajudar o Odair e depois, banho pra tirar este fedor de gambá.

O sol havia desaparecido e a sopa também, junto com o pão assado no forno do fogão de lenha. As esteiras esperavam forrando a areia ao lado do telescópio montado sobre um tripé. Acomodaram-se nas esteiras e aos poucos a lua apareceu como um fiozinho de fogo sobre as águas e aos poucos revelou o contorno redondo, para logo mostrar-se por inteiro em sua beleza única.

O mar cantava junto com o vento que tocava com dedos ágeis as cordas das harpas nas folhas dos coqueiros. O tio orientou o telescópio. Primeiro as mulheres olharam manifestando admiração diante da grandeza de Deus.

– Sua vez Daniel.

– Oba! – Foi o que disse antes de começar sua viagem pelo céu, mudo, com um nó na garganta, sem pensar, como se voasse num tapete ou nas costas do “Pavão Misterioso”. De repente, afastou-se. Chorava.

– O que foi? Chorando por quê? – O tio perguntou alisando seus cabelos.

– Nada não… É bonito por demais… O céu… É muito…

Foi para a esteira onde estava Odair, que tocou no seu ombro e perguntou:

– Lindo demais, não é?

– Que nem você disse.

Quase não respirava, sentindo assim como se estivesse envolvido por um manto de paz. A lua e as estrelas pareciam estar ao alcance das mãos. Lembrou o “lugar poeirento no céu” e pensou que era uma poeira de estrelas, que cobria e enfeitiçava aquelas pessoas silenciosas e reverentes diante do manto bordado de ouro pairando acima da terra. O manto de Deus! A “coisa mais bonita do mundo!”

(*) Silvio Romero, “Folclore Brasileiro”, Tomo II, pág. 489, Livraria Editora José Olímpio, 1954


Não possuímos direito maior e mais inalienável do que o direito ao sonho. O único que nenhum ditador pode reduzir ou exterminar.

– Jorge Amado

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