A edificação, contemporânea de Jesus Christo, fora um símbolo arquitetônico do poder romano na região do Sul de Israel

Modernamente, o termo “basílica” consagrou-se como referência ao suntuoso local de culto dos cristãos. A etimologia da palavra, no entanto, revela um referencial ligeiramente mais profano: a basílica era um “grande espaço coberto, destinado à realização de assembleias cuja origem remonta à Grécia Helenística”. Mais tarde, num esforço de mimese, os romanos assimilaram o tal modelo arquitetônico; a basílica tornou-se um lugar de excelência para as reuniões nobres, sumamente importantes e de interesse geral. Não fora sem motivo que, quando do advento do Cristianismo, a religião dos “pequenos Christos” tenha estabelecido seu culto no mais nobre dos locais públicos.

As basílicas romanas foram construídas em todas as províncias do Império. Na região da Judeia — o atual Sul de Israel — o rei Herodes, vassalo de Roma, construiu a Basílica de Ashkelon, a cerca de 70 quilômetros de Jerusalém. O Novo Testamento atribui a este rei, cognominado pelo poder romano de “Herodes, o Grande“, um dos atos de tirania mais cruéis já concebidos. A narrativa evangélica de São Mateus descreve como, num esforço desesperado para defender o seu trono da ameaça que o menino Jesus representava, Herodes condenou todos os meninos com menos de 2 anos de idade à morte. As profecias diziam que o Christo nasceria em Belém; todos os meninos daquela cidade morreram, exceto o menino Jesus que fora, com a Sagrada Família, refugiar-se no Egito até a morte de Herodes.

Herodes era mesmo louco. No fim da vida, paranoico e sofrendo de uma provável doença degenerativa, o rei da Judeia assassinou três de seus filhos, incluindo o primogênito. Contudo, nem só de tirania viveu o perturbado Herodes; o rei tinha também uma faceta empreendedora. Em razão de sua amizade com os romanos, edificou, durante o seu reinado, um legado de construções, incluindo o Aqueduto de Cesareia, o Segundo Templo de Jerusalém e Massada, a inexpugnável fortaleza. Recentemente, arqueólogos anunciaram que a Basílica de Ashkelon, outra das edificações atribuídas ao monarca — construção com 2000 anos de história — está prestes a recuperar o seu esplendor.

À semelhança de outras basílicas do mundo greco-romano, a de Ashkelon funcionava como centro nevrálgico da vida pública; o complexo abrigava o conselho municipal, tribunais e câmaras de comércio. O local, no entanto, não era um centro de culto, apesar de conter algumas estátuas de divindades, como as de Nice e Tique, deusas helênicas que personificavam a vitória e a prosperidade. O arqueólogo inglês John Garstang fora o responsável pela descoberta do sítio, nos anos 1920, no início do mandato britânico na Palestina. Conflitos políticos, típicos do Oriente Médio, no entanto, obrigaram Garstang e sua equipe a enterrarem novamente a descoberta arqueológica; elas temiam que Ashkelon se perdesse para sempre. Passados quase um século, os trabalhos no local recomeçaram em duas fases: primeiro, de 2008 a 2012 e, mais tarde, de 2016 a 2018. Nesta última fase das escavações, descobriu-se um anfiteatro, colunas e moedas datadas do reinado de Herodes, no fim do I antes de Christo.

Atualmente, as autoridades de Israel querem restituir a Basílica de Herodes à sua forma original. O objetivo é estabelecer no local um espaço ecumênico. Os restauradores israelenses planejam restaurar não só a antiquíssima edificação do rei assassino, mas a própria imagem do monarca. Herodes, consagrado pela tradição cristã como um louco profano, passará por um “tratamento de imagem”. O rei que, na tentativa malograda de matar o menino Jesus, obteve, em contraponto, diabólico sucesso com a morte de milhares de crianças.

Ashkelon, que ostentava 110 metros de comprimento e 40 metros de largura, já fora assunto nas crônicas de Flávio Josefo, o consagrado historiador que viveu no século I, quando este fez menção das construções de Herodes.

As ruínas de Ashkelon. Fonte: Emil Aladjem/divulgação

“Hoje, com base nas novas evidências, conseguimos entender as origens do registro histórico”.

Comunicado oficial dos arqueólogos da Autoridade de Antiguidades de Israel

Com informações da revista Veja e do site da Smithsonian Magazine.

“Os maus são odiados, não somente pelos homens, mas também pelo próprio Deus”.

Flávio Josefo

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