O tal do “politicamente correto” tem aversão à arte. E quem gosta de arte repudia o “politicamente correto”. Pseudo-artista engole, mas aí não conta. A tradição literária do ocidente conservou a sátira, registro do qual a paródia é uma modalidade, no topo da alta cultura. Já essa coisa de falar mansinho para não afetar suscetibilidades é invenção recente destinada a morrer no tempo.

A paródia evoca uma obra consagrada como suporte para a sátira. É isso o que ela faz. O formato é eficaz à medida que parte de algo conhecido e celebrado para debochar e questionar a respeitabilidade de outra coisa. A obra de referência e a obra final não precisam ter absolutamente nada em comum, a não ser a forma plástica, a base artística. 

Menos Firula e mais paródia

No meio do ano, a TV Chinchila lançou seu segundo vídeoclip-paródia. Com base numa canção clássica do Queen, a Bohemian Rapsody, agregaram todos os elementos em torno da sofrida passagem da reforma da previdência. Um rolo desgraçado cheio de ecos, saindo de baixo e esmurrando as paredes impermeáveis de um congresso duvidoso, entre os ouvidos moucos de um judiciário comprometido e o cansaço de um executivo assediado pela ânsia de corrupção alheia. 

Os humoristas-músicos conseguiram juntar os pontos de discórdia e costurá-los com os elementos estéticos de uma obra cuja estrutura, errática, suportava o conteúdo em jogo: um fio condutor que se estende aos trancos e barrancos e explode em euforias passageiras, espremido entre contrastes. Os caras acharam a música ideal para expressar os sentidos e sentimentos associados ao teatro da aprovação da reforma. Nem a derrapada do MBL durante o rolo todo passou em branco. Não à toa, Kim Kataguiri viria a receber uma homenagem só pra ele.

Às vezes o pessoal se pergunta se não deveria haver “limites para o humor”, “decoro para a piada”. Essa pergunta pelo visto nunca ocorreu aos humoristas mais virulentos do ocidente: Luciano de Samosata, Marcial, Juvenal, Erasmo, Shakespeare, Cervantes, Molière, Swift, Sterne, Cioran, Bierce e uma penca de outros. Se hoje há quem se questione a respeito, talvez seja por termos perdido a capacidade de entender esses caras, admirar e valorizar o seu desprezo explícito ao pudor fingido dos hipócritas.  

Felizmente, esse mal não acometeu o Chinchila. Vida longa ao trio! Se você ainda não os conhece, vá procurar. Arte não é política. Diplomacia aqui, cair de máscaras acolá. A cultura a todos acolhe. Sem temor ao contrassenso, que afinal habita sempre a própria alma.

A primeira graça

Segundo Filipe Trielli, a ideia começou por acaso em 2013, “quando o Felipe Moura Brasil, durante as manifestações de junho, fez uma paródia de Águas de março”. Não se conheciam na época. “Ele postou a letra no facebook. Eu peguei a letra, fiz uma base caprichada, pois eu queria que ficasse perfeito, e cantei com minha ex-mulher. Ela fez a Elis Regina e eu o Tom Jobim. E o Felipe adorou”. O atual chefe de redação da Jovem Pan introduziu o músico a outros formadores de opinião conservadores, como Flávio Morgenstern, Alexandre Borges, Paulo Cruz, “toda essa galera que depois ficou proeminente”. 

No começo, fazia de vez em quando e por diversão. “Agora, depois do clip do STF, primeira vez que a gente usou câmera, resolvemos dar um passo à frente”. Como 99% dos artistas, escritores e produtores de conteúdo conservadores, “é tudo na raça; esse último clip, por exemplo, custou 126 reais. Tirando o investimento em câmera, que a gente tinha feito para a produtora por outros motivos. Então… a produção é bem tosquinha, né? Mas funciona, quando a gente faz com carinho e com graça”.

Panela, Senso Incomum e Chá com a gente

Filipe toca a produtora Panela com o sócio Daniel Galli. Colaborador do site Senso Incomun, produz o podcast “Guten Morgen” há tempos. Em 2015, produziu o podcast “Contexto”, com Alexandre Borges, Bruno Garschagen e Felipe Moura Brasil. E atualmente, produz e apresenta o podcast “Chá com a gente”, vinculado à sua produtora e disponível nas plataformas Spotify e Soundcloud. 

“A panela é uma produtora de som e a gente sempre trabalhou com som, publicidade, longa-metragem, trilha-sonora. E eu fazia essa coisa da paródia nas horas vagas. Agora a gente resolveu levar mais a sério e tocar isso. A gente já tem o know-how todo, a parte técnica, os equipamentos”. 

Sobre a criação das paródias, Filipe é o responsável principal. “Normalmente eu faço a letra, os arranjos, eu toco todos os instrumentos… Agora que o Youtube recolhe os direitos autorais, não me preocupo mais em fazer a minha versão. Nos últimos vídeos, usei uma base pronta. Antigamente eu me preocupava em fazer. Mas dava um trabalho insano eu fazer todas as bases. Às vezes meu sócio me ajudava, pois ele também é músico”.

O que começou como uma brincadeira, virou um grupo. O espírito da produtora, com trabalhos de matiz lírico e humorístico na trajetória, está inteiro ali, segundo Filipe. “No fim do ano passado, eu contratei o Carlos de Freitas e o Luciano Oliveira. São figuras muito engraçadas, e quando eles vieram, entraram na onda das paródias e a gente começou a filmar. E aí a gente resolveu ousar. Não esperava esse estouro todo que foi o STF”. 

O mundo pode ser um lugar divertido para quem tem a decência de não se levar a sério demais e a sensatez de notar o absurdo, a cada vez que ele surge em nossa frente. Em política, o prato é cheio. A depender dos despudores circulantes em Brasília, a inspiração do Chinchila está garantida. Com ou sem lucro à vista. 

“Não é uma coisa que rende dinheiro, mas rende muita diversão”. 

Pra nós também.


Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado.

This div height required for enabling the sticky sidebar
Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views :