REFLEXÕES | V – O materialismo religioso de Feuerbach  

Ronaldo Mota
Ronaldo Mota
Neste espaço discutiremos diversos temas de filosofia, antropologia e cultura de modo crítico e ácido, sempre fugindo do lugar comum e das explicações simplórias. É uma coluna dedicada a quem tem fome e sede de verdade; a quem não confunde assertividade com soberba; a quem é constantemente fustigado pelo chicote espiritual do amor à Sabedoria, que impele sempre para a origem e para os fundamentos das coisas.
Por isso Feuerbach denominava Espinosa “o Moisés dos livres pensadores modernos”. Em 1847, Feuerbach coloca a questão: “O que Espinosa chama, lógica ou metafisicamente, substância, e Deus teologicamente?” E, a essa questão ele responde categoricamente: “Nada mais que a natureza”. Deus se apresenta como sujeito, a natureza como atributo. A filosofia, que se emancipou definitivamente das tradições teológicas, deve suprimir essa falha da filosofia, no fundo exata, de Espinosa. “Abaixo esta contradição!” exclama Feuerbach. Não Deus sive natura, mas aut deus aut natura. Aí está a verdade.”  
(G.V. Plekhânov. Os Princípios Fundamentais do Marxismo. Ed. Hucitec, p. 14)  

A Essência do Cristianismo  

Feuerbach, certamente por influência de Marx e Engels, passou à posteridade como um materialista ateu. Todavia, aqueles que conhecem apenas os sentidos vulgares dos termos ateísmo e materialismo dificilmente poderão entender o pensamento de Feuerbach. 

A obra magna de Feuerbach, A Essência do Cristianismo (1841), tem como ponto central a teoria da alienação religiosa. As explicações mais comuns dessa teoria repetem o mesmo esquema: Deus, para Feuerbach, seria uma invenção do homem; o homem teria exteriorizado suas qualidades criando um ser distinto dele; negando-se e alienando-se o homem teria acabado por adorar sua própria invenção. Para Feuerbach, no processo histórico o “homem começa por lançar a sua essência para fora de si, antes de a encontrar em si. A sua própria essência começa por ser para ele objeto como uma essência diferente.”. Essa ação de “lançar a essência fora de si”, segundo Feuerbach, é o ato religioso, pois:  

Na religião, o homem tem como objeto a sua própria essência, sem saber que ela é a sua; a sua própria essência é para ele objeto como uma essência diferente. A religião é a cisão do homem consigo: ele põe Deus face a si como um ser que lhe é oposto. Deus não é o que o homem é – o homem não é o que Deus é.” 

(L. Feuerbach. A Essência do Cristianismo. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp. 23;41)      

Para Feuerbach, portanto, o ato religioso visa à própria essência do homem. O Deus da religião é na verdade a própria essência do homem vista como distinta dele por ele mesmo. Ora, essa “cisão”, que faz com que Deus seja apenas a essência do homem exteriorizada, não é, propriamente, a negação da existência de algo com características tipicamente divinas, mas uma espécie de divinização do homem.  

De acordo com Feuerbach: 

A cisão só se dá entre seres que estão desunidos, mas que devem ser um só, que podem ser um só e que, por consequência, na essência, na verdade, são um só.” 
(L. Feuerbach. A Essência do Cristianismo. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p. 42) 

Segundo essa doutrina, o ato religioso não erra por imaginar um ser com características divinas, mas por separar, por distinguir essa divindade do homem. Feuerbach não esconde seus objetivos pois declara naturalmente: 

A nossa tarefa é justamente mostrar que a oposição do divino e do humano é inteiramente ilusória” 

(L. Feuerbach. A Essência do Cristianismo. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p. 24) 

Na Introdução dessa mesma obra, sob o título A essência do homem em geral, Feuerbach chega à conclusão de que a verdadeira essência do homem é:  

A razão, a vontade, o coração. Um verdadeiro ser é um ser que pensa, ama e quer. Verdadeiro, perfeito, divino é apenas o que existe em função de si. E tal é o amor, tal a razão, tal a vontade. A trindade divina no homem, acima do homem individual, é a unidade de razão, amor e vontade. 

(L. Feuerbach. A Essência do Cristianismo. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp. 11-12)  

Em sua obra, Princípios da Filosofia do Futuro, Feuerbach afirma: “Mas, se Deus é unicamente um objeto do homem, que é que se nos revela na essência de Deus? Nada mais do que a essência do homem. Aquele para quem o ser supremo é objeto é ele próprio o ser supremo.”. 

(L. Feuerbach. Princípios de Filosofia do Futuro. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 43) 

Evidentemente, quem quer que conheça, ainda que sumariamente, a teologia hegeliana e os axiomas de Espinosa, não se espantaria com tais afirmações, visto que foram cunhadas por um discípulo de Hegel e grande admirador de Espinoza. Todavia, esse homem é muitas vezes apresentado como um mero ateu materialista, o que nos força a explicitar um pouco mais a natureza desse materialismo sui generis

Feuerbach afirma que o que distingue o homem do animal é a consciência. Contudo, para ele: 

 “Consciência em sentido estrito ou próprio e consciência do infinito é o mesmo. Consciência limitada não é consciência; a consciência é, por essência, de natureza infinita.” 

“Por consequência, se pensas o infinito, pensas e confirmas a infinitude da faculdade de pensar; se sentes o infinito, sentes e confirmas a infinitude da faculdade de sentir.” 

(L. Feuerbach. A Essência do Cristianismo. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp. 10;18)  

Evidentemente, a “consciência” apresentada aqui por Feuerbach não poderia se restringir e ser idêntica, na condição de infinita, àquele conjunto de reações químicas restritas a um pequeno órgão material limitado por uma caixa craniana de um indivíduo humano, como poderiam pensar materialistas empiristas. Essa doutrina fica ainda mais explicita quando ele trata do sentimento humano. Segundo ele: 

se o sentimento é o órgão essencial da religião, a essência de Deus nada mais exprime do que a essência do sentimento. O sentido verdadeiro, mas oculto, da frase ‘o sentimento é o órgão do divino’ é o de que ‘o sentimento é o mais nobre, o mais excelente, isto é, o divino, no humano’. Como poderias perceber o divino através do sentimento, se o sentimento não fosse ele mesmo de natureza divina? O divino só é reconhecido pelo divino, Deus apenas por ele mesmo.” 

(L. Feuerbach. A Essência do Cristianismo. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p.19)  

Deus é o sentimento puro, ilimitado, livre. Qualquer outro Deus que ponhas aqui é um Deus imposto de fora ao teu sentimento. O sentimento é ateu na acepção da fé ortodoxa, segundo a qual a fé se liga a um objeto exterior. O sentimento nega um Deus objetivo – é para si mesmo Deus.” 

(L. Feuerbach. A Essência do Cristianismo. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp. 20) 

Nesse sentido, cremos que Wackenheim está correto ao fazer a seguinte avaliação sobre o trabalho teórico desenvolvido por Feuerbach: 

La ambición de Feuerbach es suprimir esta distancia [entre Deus e o homem], substituyendo la teología por la antropología. No busca destruir la religión o lo sagrado, sino transformar lo sagrado y fundar una nueva religión, la religión de la humanidad. Feuerbach la denomina ‘antropoteísmo’.” 

(Charles Wackenheim. La quiebra de la religión según Karl Marx. Ediciones Península, 1973, p. 123) 

É perfeitamente compreensível que Feuerbach desenvolvesse essa visão de mundo com noções típicas do velho panteísmo, principalmente em suas concepções de matéria e de natureza. Feuerbach sentia essa necessidade de abandonar as expressões, formulações e explicações tipicamente teológicas, ainda que o conteúdo fosse, em muitos aspectos, os mesmos encontrados na teologia de Hegel ou no panteísmo de Espinosa. 

O próprio Feuerbach, em suas Teses Provisórias para a Reforma da Filosofia (1842), resumiu de modo muito eficiente sua ideia de ateísmo e a origem desse seu materialismo religioso:  

“o «ateísmo» é a consequência necessária do «panteísmo», ou «panteísmo consequente».”  

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