O Coronel, o Padre, o Médico e o Sapateiro

… o padre Antônio tem razão, é casado e não esconde de ninguém.

Era o que repetia a todo instante o único protestante da cidade, o sapateiro que chegou ninguém sabe vindo de onde, com a mulher mais dois filhos adolescentes, todos com a pele muito clara e os cabelos amarelos que nem gema de ovo, coisa nunca vista num povoado em que todos eram morenos com os cabelos negros. Até as imagens dos santos que estavam na Igreja de Nossa Senhora tinham os cabelos negros. Erick era o nome do sapateiro que não sabia que o mesmo Papa tinha dado permissão ao padre para casar-se.

Aquele era um povoado escondido, esquecido, desconhecido, quase um bicho de pé naquele país que aparecia nas comemorações, como o desfile escolar de 7 de setembro, com muitas bandeirinhas de papel verde e amarelo, azul e branco com aquelas estrelinhas e a faixa dizendo “Ordem e Progresso” nas mãos da criançada fardada, marchando em fileiras tortas. Pais e filhos, autoridades, todos se envolviam para abrilhantar os eventos solenes. As crianças adoravam o café com leite, broas de milho e bolos, que as famílias levavam para servir na prefeitura depois do desfile.

A única novidade era a presença de um grupo de gringos com máquinas fotográficas do tamanho de um bonde, todos hospedados na casa grande do engenho desativado, lá onde havia um catavento que alimentava baterias e fornecia a eletricidade que a gente do povoado nem sabia como funcionava. Coisa de gringo, que o dono do engenho era um italiano fugido das europas. Os visitantes passavam metade da noite zanzando no pasto, olhando as estrelas. Mas nunca chegaram no povoado. Gente metida a besta!

Aquele foi um dia de festa diferente, grandioso, com todos se misturando para celebrar a posse do Dr. Rubens, o médico que as más línguas diziam ser maçom, eleito prefeito com a totalidade dos votos, claro, sem concorrentes contrários ao fazendeiro pissuidor, (como diziam na fala destrambelhada), da maioria das terras e boiadas do município, homem posicionado na política do estado e visível nas missas dominicais.

Dotô Garcês, como era conhecido o homi, chegava dirigindo o único carro da cidade, e parava bem na frente da escadaria da igreja. A missa começava quando ele, a mulher cheirosa que nem um gambá, mais os dois filhos, se posicionavam nos assentos reservados na primeira fileira, diante dos genuflexórios especiais forrados com almofadas de cor esmeralda.

Um dia que prenunciava grandes acontecimentos futuros para o bem de todas as almas, o padre, a mulher e os filhos do padre, como todos os cristãos, usavam os melhores trajes e pareciam radiantes na expectativa do churrasco oferecido pelo dotô Garcez: três bois foram matados e já se sentia o cheiro da carne que começava a ser assada na praça da feira, em frente à prefeitura, ao lado da igreja, onde várias mesas, cobertas com toalhas de plástico, estavam forradas com as bandejas pães, farofas, arroz e copos de papelão ao lado de garrafões de vinho e garrafas com licor de jenipapo (para as mulheres).

As mulheres da Rua da Palha, eram lavadeiras. O nome da rua indicava que todas as casas eram cobertas de palha de coqueiro. Estavam felizes, prontas pra comer carne. Já tinham limpando as tripas dos bois no rio, um trabalho paciente pra virar pelo avesso e limpar bem as fezes. Depois as tripas secavam, salgadas, estendidas sobre o fogão de lenha. O que ninguém sabia: pra limpar e transportar as tripas, elas utilizaram as mesmas bacias de alumínio onde transportavam a roupa suja da cidade pra lavar. Nas cordas, a roupa das famílias secava ao sol como as tripas ao lume do fogão. Alvas do padre, jalecos do médico e lençóis do prefeito lado a lado.

Quando os sinos anunciaram o fim da missa solene, o foguetório pipocou anunciando o início da cerimônia de posse do novo prefeito. Da igreja, encabeçando o cortejo, o padre com a família, o prefeito com a esposa e o dotô Garcez, desceram as escadarias e se encaminharam para a prefeitura. O povaréu seguindo seus guias e os gaiatos falando que iam tirar a barriga da miséria.

No salão da prefeitura não cabia tanta gente! Aquilo parecia uma lata de sardinha. O zum zum zum e os gritos de viva este e viva aquele, pareciam intermináveis como os discursos dos notáveis em saudação ao porvir, aos novos tempos de “ordem e progresso”. Os sovacos já molhados de suor, os lenços que aliviavam as testas e recolhiam o catarro dos narizes inflamados, pediam pelo fim do suplício daquela cerimônia sem fim. As barrigas começavam a roncar pedindo carne assada.
Algumas crianças esmagadas começavam a chorar. As mãos inchadas de tantas palmas e as gargantas roucas de tantos vivas, a cerimônia foi encerrada com as palavras no novo prefeito:

Agora minha gente, o churrasco está esperando. Todo mundo pra festa. Muito obrigado!

Em alvoroço a gente invadiu a praça, enquanto as autoridades seguiam para a residência do dotô Garcez para o regabofe privado com pratos exóticos e vinhos finos.

Quando as panças estavam forradas, aconteceu que o céu começou a escurecer, o sol ia sumindo pintado de preto. Parecia assombração que de repente o dia virasse noite. Foi um corre corre, uma gritaria de “valha-me Deus!” “é o fim do mundo!” Mulheres e marmanjos se ajoelhavam em desespero.

Começou a festa dos cachorros que aproveitaram o momento para comer alguns pedaços suculentos da carne esquecida pelos churrasqueiros. Com a força das preces, o sol foi aparecendo de novo, o céu foi ficando bem azul e o fenômeno do eclipse total do sol passou para a imaginação com as mais diversas e oportunas versões.

Anos muitos anos se passaram para que uns poucos curiosos soubessem que os gringos hospedados no engenho eram militares da United States Army Air Force realizando um projeto secreto para observação do eclipse. Militares e cientistas que desenvolviam armas de destruição em massa. Era mais uma etapa do programa de medição precisa das grandes distâncias intercontinentais, dados de apoio para o lançamento de mísseis balísticos.

Pra que se importar com essas coisas? A vida continuava seu curso lerdo no povoado que já era cidadezinha, tranquila como sempre, com padre novo sem ser casado. O dotô Garcez? Era governador. E o sapateiro Erick, continuava sapateiro e pastor de templo batista, uma casinha na Rua da Palha onde se reuniam semanalmente alguns gatos pingados.


A mais triste das vidas e a mais triste das mortes são a vida e a morte do homem que não tem coragem de morrer pelo bem, quando por ele não possa viver.

-Rui Barbosa

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