Quem é a Direita brasileira?

O impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil foram eventos que colocaram a “direita” em evidência. Mas, afinal, quem é a direita no Brasil?

Este texto se proporá a delinear as características do que acredito ser as duas principais vertentes da direita no Brasil, ciente de a análise não será exaustiva e que, mesmo dentro de cada uma delas, a variação interna é relevante.

O (re)nascimento da “Direita”

O processo de impeachment de Dilma Rousseff, disparado por manifestações públicas a partir do ano de 2013, trouxe a direita ao protagonismo da política nacional. Naquele contexto, as pautas apresentadas eram fim da corrupção, diminuição do Estado e proteção à propriedade privada. O principal expoente político da época foi o Movimento Brasil Livre (MBL).

Consolidada em 31 de agosto de 2016, a deposição de Dilma Rousseff potencializou o crescimento exponencial de personagens e organizações de direita. Este movimento culminou, anos depois, na eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República.

Não é necessário muito conhecimento de política para saber que Bolsonaro e MBL representam vertentes distintas da direita, apesar de ambos terem ganhado o mundo no momento político da derrocada do PT e da esquerda brasileira.

Dando referências e nomes às ideologias

Se MBL, Partido Novo e simpatizantes flertam com ideais libertários, Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho e simpatizantes agregam os conservadores. Nesse sentido, entendemos que as principais vertentes em disputa no Brasil atual são os libertários e os conservadores.

A agenda libertária pode ser rastreada já nas obras de Robert Nozick e Ludwig von Mises, por exemplo. A agenda conservadora, por outro lado, reúne valores cuja sistematização remete a Edmund Burke (referência clássica) e ao próprio Olavo de Carvalho (referência contemporânea).

Pontos de convergência

Conservadores e libertários têm muitos pontos de convergência. Destaco, entre eles, o direito à propriedade privada, o livre mercado, o direito à vida e a liberdade de consciência.

Direito à propriedade privada significa a proteção ao produto do trabalho de cada indivíduo. Livre mercado significa a ausência de interferência externa sobre a liberdade dos indivíduos de trocarem, comprarem e venderem entre si os produtos de seu trabalho. Direito à vida significa a proteção à vida de cada indivíduo. Liberdade de consciência significa que indivíduos são livres para discordar das autoridades e buscar o que julgam ser melhor para si.

Elencados os pontos comuns entre conservadores e libertários, não surpreende que, no mundo real, pautas liberalizantes na economia como a Reforma da Previdência e a Reforma Tributária só encontrem resistência à esquerda, quando conservadores e libertários advogam pelo livre mercado. Também não surpreende que o pacote anti-crime de Sérgio Moro seja consensual entre as duas partes, já que ambas buscam a proteção da vida e da propriedade privada.

Sobre libertários

Libertários, por definição, não estão nem à esquerda nem à direita: estão ao lado do indivíduo contra qualquer tipo de coerção ou opressão. O ideal libertário preconiza que um indivíduo não pode ser obrigado por ninguém a fazer algo que não queira, nem impedido de fazer algo que queira, se não causar dano a ninguém, exceto a si próprio.

No que diz respeito ao governo e ao Estado, o alistamento militar causa ojeriza a libertários porque significa a obrigação do cidadão de colocar sua vida em risco para proteger um ente autoritário e ilegítimo: o próprio Estado. Além disso, o pagamento de impostos é encarado como roubo, já que trata-se de uma transferência de dinheiro que o cidadão deve fazer ao governo de forma compulsória, sob pena de perder todos seus direitos e até ir preso (pelo Estado) se não o fizer.

Nesta linha, “Família”, “Pátria” e “Igreja” não são valores nucleares, sendo os libertários francamente contrários a qualquer tipo de comunidade associada ao coletivismo como método de reivindicar uma moral que limite o comportamento e as decisões individuais. Via de regra, libertários são os primeiros a apoiar movimentos separatistas, a emancipação precoce dos filhos de uma família e o surgimento de dissidências religiosas de qualquer natureza.

Por fim, a única entidade pública vista com bons olhos por libertários é o Mercado, o livre mercado. Libertários acreditam que o Mercado é a arena onde produtos e serviços são trocados de forma voluntária. Partem do pressuposto que o Mercado é a soma das vontades e aspirações de todos os indivíduos, de modo que seu resultado não pode ser outra coisa senão riqueza, saúde, prosperidade, avanço tecnológico e paz.

O “modelo de Estado” favorito dos libertários é, consequentemente, aquele em que o Mercado ocupa os lugares do Estado e promove a livre concorrência em todos os âmbitos da sociedade.

Sobre conservadores

Conservadores têm, em geral, ojeriza a teorias sociais que tomam a racionalidade humana como único parâmetro a ser seguido, desprezando elementos como a vida religiosa, a vida afetiva e as tradições de um povo.

A categoria “povo” em si, aliás, já é um grande ponto de divergência entre conservadores e libertários, já que conservadores pressupõem que povos existem como entidades coletivas, e possuem cultura, valores morais, e tradições específicas. Nesse sentido, indivíduos pertencem a comunidades por nascimento, e não por consentimento.

Outra categoria distintiva dos conservadores em relação aos libertários é a religiosidade e a referência à Igreja como base fundamental de valores e moralidade de um povo. No Ocidente, o cristianismo se apresenta como a base espiritual da sociedade. Dessa forma, conservadores ocidentais acreditam que o povo possui uma espiritualidade que lhe define: o cristianismo.

Além de espiritualidade, os povos possuem passado. Isso significa que possuem sua História. A História significa o molde sobre o qual um povo foi criado, e o caminho percorrido por todas as gerações que precederam a que hoje aí está. Da mesma forma, gerações futuras herdarão as instituições, os costumes e a moral legadas pela geração que hoje vive.

Conservadores entendem, portanto, que a sociedade é um contrato firmado não somente pelos que hoje vivem, mas também pelos que já viveram (no passado) e pelos que viverão (no futuro). Decisões políticas não podem, portanto, ser tomadas visando apenas o futuro imediato, mas devem vislumbrar os efeitos de longo prazo que acarretam.

Para conservadores, as tradições são parâmetros para a ação prática, transmitidos de geração a geração. Longe de ser ideias que um indivíduo isolado tira do nada, são hábitos que foram adotados por um grande conjunto de pessoas durante vasto período de tempo, o que gera, por um lado, a depuração das falhas da razão humana; e por outro, a formação de uma identidade coletiva fundamentada na incorporação conjunta de hábitos herdados por um grupo de pessoas.

Pátria, Família e Igreja são, portanto, entidades fundamentais para uma sociedade conservadora.

Perspectivas para o Brasil

Quando a agenda direitista para economia e segurança já estiver em funcionamento no Brasil, o trinômio Pátria, Família e Igreja deve dar o tom ao debate político, pois conservadores julgam estas instituições basilares à sociedade, enquanto libertários as têm como mecanismos passíveis de oprimir as liberdades individuais. O dissenso em relação à relevância do trinômio Pátria, Família e Igreja deve reverberar em questões como tráfico de drogas, direito ao aborto, educação, fronteiras e defesa.

Tráfico de drogas

Libertários tendem a defender a legalização do comércio de todo e qualquer tipo de entorpecente, ao passo que conservadores tendem a defender sua proibição incondicional.

Aborto

Conservadores tendem a caracterizar esta prática como assassinato, ao passo que libertários tendem a defendê-la como forma de autonomia de um indivíduo sobre o próprio corpo.

Educação

conservadores entendem que o Estado deve garantir a transmissão das tradições e a da moral de seu povo para as próximas gerações, ao passo que libertários tendem a ver nisso a imposição autoritária de uma moral coletiva ao indivíduo.

Fronteiras e defesa

Libertários tendem a defender a extinção do alistamento militar obrigatório e mesmo a desobrigação de qualquer cidadão – pelo Estado – a colocar sua vida a serviço da Pátria. Libertários são defensores de fronteiras abertas e do direito de se separar de um Estado opressor (secessionismo).

Conservadores, por sua vez, repudiam a possibilidade de fronteiras abertas e fazem questão de manter a soberania da Pátria sobre o território nacional. Entendem ainda que o Estado deva ter o poder de convocar seus cidadãos à defesa de seu próprio território e são francamente contrários a qualquer tipo de separação territorial ou política.

Raiz da divergência

A divergência entre libertários e conservadores não é econômica, mas moral. Nesse sentido, imagina-se que as querelas entre as duas linhas só tomarão maiores proporções quando as pautas de economia e segurança – em que as vertentes estão de acordo – já estiverem em plena operação.


7 Comments

  1. “… o alistamento militar causa ojeriza a libertários porque significa a obrigação do cidadão de colocar sua vida em risco para proteger um ente autoritário e ilegítimo: o próprio Estado”. Discordo. Não é pelo Estado que se luta. Mas pelo próximo. Pela família. Pela nação. Muito me admira libertários ainda terem pautas de segurança como pautas comuns, enquanto defendem questões opostas da moralidade, como se causas e consequências não estejam interligadas. Muito Romantismo.

  2. É importante descrever tb a existência dos “isentoes” (alguns de nossos parentes, amigos, colegas de trabalho , de faculdade enfim, uma grande parte da nossa Classe Média) que vivem em cima do muro em relação a política. Estes isentoes ja estão no colo da nova esquerda (Mbl, jovem pan, Tabata,
    Doria e seus novos aliados) danosa e pior que a velha esquerda, pq continuam tendo como meta a corrupção.

  3. É importante descrever tb a existência dos “isentoes” (alguns de nossos parentes, amigos, colegas de trabalho , de faculdade enfim, uma grande parte da nossa Classe Média) que vivem em cima do muro em relação a política. Estes isentoes ja estão no colo da nova esquerda (Mbl, jovem pan, Tabata, Doria e seus novos aliados) danosa e pior que a velha esquerda, pq continuam tendo como meta a corrupção.

  4. Artigo enxuto, muito bem escrito e esclarecedor no que concerne à essência do problema, obviamente que este último tenha sido apresentado de forma suscinta.
    De minha parte faria apenas uma pequena ressalva quanto ao tripé Pátria, Família e Igreja. Eu preferiria a forma mais abrangente: Pátria, Família e Crença ou Fé.

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