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domingo, 5 dezembro, 2021

O fim? Entrevista com Carlos Dias, ex-diretor de jornalismo do Terça Livre

Revista Mensal
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

“O Terça Livre pode ter terminado como empresa de comunicação, mas jamais a dimensão espiritual que forjou seu nascimento poderá ser tocada por qualquer poder humano”

Há exatamente um mês, em 22 de outubro, o Terça Livre encerrava suas atividades, a bem pouco tempo de completar seus sete anos (o que teria acontecido na última quinta-feira, 18 de novembro).

Um caminho de cancelamento foi sendo pavimentado em um período de mais ou menos dois anos até esse fatídico dia 22. Começou ainda em 2019, com as fakes news um blogueiro, o que  gerou uma CPMI vergonhosa e até hoje sem qualquer conclusão, que por sua vez gerou a abertura de dois inquéritos sem fundamentação e inconstitucionais, ações intimidatórias realizadas por capangas travestidos de autoridades policiais e diversas tentativas de cancelamento financeiro por parte das Big Techs – mas quem disser que houve planejamento, coordenação e método nessas ações é teórico da conspiração.

Curiosamente, como acontece com uma massa de bolo ou de pão, quanto mais batiam no Terça Livre, mais ele crescia. A cada nova narrativa criada pela velha mídia ou por “excelências” do Congresso Nacional, a cada cancelamento nas redes sociais, o número de assinantes do TL só aumentava. Com todos os percalços que enfrentava, a empresa só crescia. Diante de tão desesperador crescimento, uma atitude drástica precisava ser tomada. E foi, quase que num piscar de olhos, pelas canetadas de um Poder Supremo. A partir de um parecer fajuto e mentiroso de uma capandelegada, o Chefe Supremo do Brasil, Lord Egghead, mandou bloquear os caraminguás do Terça Livre, que precisou capitular. Vitória da juristocracia, enfim.

No entanto, como bem avaliou Carlos Dias, que esteve com o Terça desde sua fundação em 2014 como colaborador e, mais recentemente, como analista dos boletins e diretor de jornalismo, a dimensão espiritual em que se baseou a empresa, e que a guiou por estes quase sete anos, jamais poderá ser destruída.

Sobre o cancelamento do Terça Livre e a juristocracia reinante no Brasil, Carlos fala na entrevista de hoje.  

 

Esmeril News: O Brasil vive hoje sob uma ditadura que podemos chamar de juristocracia. Gostaria que comentasse sobre esse assunto com base no que vem acontecendo de maneira geral no mundo e especificamente Brasil, e mais especificamente em relação a como isso afetou o Terça Livre.

Carlos Dias: Há uma sutil semelhança entre os fenômenos estranhos que ocorrem no Brasil e no mundo no campo das liberdades. A crise se dá exatamente nos eixos de ordenação lícita do direito, do poder e da autoridade. Em primeiro lugar, houve uma ruptura, um divórcio extremamente perceptível entre poder e direito. O poder deixou de se submeter ao direito. Esse desalinhamento causou outra grave ruptura entre o poder e a autoridade.

Poder e direito tornaram-se oponentes na medida em que o poder fez prevalecer no âmbito das decisões a força do interesse, e podemos entender que existe no Brasil um poder que atua contra o direito. Da mesma maneira, a ruptura entre poder e autoridade permite perceber que a imposição pela força do poder prescinde da autoridade de confirmar o seu valor e aceitação livre.

O caso hipoteticamente jurídico ou judicial do Terça Livre é o exemplo concreto do acima tratado. Vivenciamos o uso do poder da força, de forma desmedida e altamente potente, contra uma empresa de comunicação regularmente estabelecida, acusada sem provas de produzir conteúdo mentiroso. O Terça Livre sofreu uma espécie de condenação prévia, em processo de teor desconhecido, portanto, sendo incapaz elaborar justa defesa para buscar a devida reparação das acusações imputadas.

A crise de ordem na esfera jurídica no Brasil deve ser objeto de ampla discussão multidisciplinar para que se reencontrem a natureza e o caminho da Justiça, que, pelo que hoje se aponta, parece ser mais um privilégio.

Esmeril News: Em suas análises dos boletins do Terça Livre, você constantemente apontava como uma das causas desse agigantamento do Judiciário a omissão do próprio Legislativo, notadamente no Senado Federal. De fato, já houve na história de nosso país um Legislativo tão fraco como o atual, inclusive no que toca à base governista? Comente um pouco sobre isso.

Carlos Dias: Isso necessitaria de uma análise bem longa. Resumindo, a questão é bem clara: há instrumentos constitucionais disponíveis para lidar com abusos de poder e crimes de responsabilidade. O problema é que não existe mais a esperada independência entre os Poderes. Nota-se o evidente arranjo para a consagração de um sistema de poder que se apropriou do Estado, em forma de consórcio de poderes, incluído o Poder Executivo de outras épocas, para beneficiar oligarquias empresariais e financeiras mandatárias do orçamento da União com seus subsídios.

Esmeril News: Os boletins do Terça Livre também traziam frequentes análises sobre a cumplicidade da velha mídia nesse agigantamento do Judiciário no Brasil. Comente um pouco sobre isso.

Carlos Dias: A velha mídia sempre foi aliada e garantia da informação interessada e patrocinada pelas oligarquias políticas do país chegar ao povo na melhor forma de compreensão possível. No campo do Judiciário, a politização do STF, ocorrida nos governos do Partido dos Trabalhadores, gerou especial disfuncionalidade. O agigantamento citado na pergunta em relação ao Poder Judiciário deve-se muito mais à profunda corrupção vivenciada nos governos de esquerda do que propriamente uma autoexpansão do Poder.

Na verdade, a velha imprensa sempre foi braço de propagação de interesses de diversas linhas políticas, notadamente as do Poder Executivo.

Esmeril News: Na sua percepção, o que pode ser feito para barrar a juristocracia? Há alguma forma de ela ser combatida?

Carlos Dias: Simplesmente, com o restabelecimento da democracia no Brasil, no significado e no ato prático da expressão. Recuperarmos a independência e autonomia dos Poderes, limitando-os, no seu exercício, às fronteiras impostas pela Constituição. O poder deve retornar novamente às mãos dos cidadãos, consagrando o sentido da delegação responsável e do serviço.

Esmeril News: Rafael Fontana, que já fez parte do Terça Livre, recentemente publicou o livro Chinobyl, e nele relata o caso de Xu Xiaodong, lutador de MMA que desagradou ao Partido Comunista Chinês ao derrotar o mestre de kung fu Wei Lei, uma espécie de garoto-propaganda do governo, sendo então censurado e depois banido de todas as redes sociais, e asfixiado financeiramente, a ponto de ser impedido até mesmo de receber doações de fãs. Essa estratégia chinesa de cancelamento (censurar, banir da internet e asfixiar financeiramente) está sendo cada vez mais exportada mundo afora. Você acredita que o que foi feito com o TL, via Judiciário e Big Techs, foi sob orientações dessa diretriz chinesa?

Carlos Dias: Imagino que, de fato, o modelo Chinês foi a escola primária de operadores do Poder. Contudo, não há como negar, a tropicalização dessa insanidade, isto é, o ganho de características próprias, produzida por alquimistas de toda sorte no campo das Cortes Superiores.

Esmeril News: Como você avalia a recente declaração do ministro da Justiça, André Torres, a respeito do pedido de extradição contra Allan dos Santos – ainda que ele pareça ter voltado atrás em seu posicionamento –, de estar “apenas cumprindo ordens”?

Carlos Dias: Uma verdadeira indigência. A resposta parece curta, mas é suficiente.

Esmeril News: O Terça Livre terminou, mas seus ex-membros já estão se movimentando em diferentes direções com diferentes projetos, e isso deixa claro que esse novo jornalismo iniciado há sete anos pelo TL só poderá ser parado com atitudes mais drásticas de nosso Judiciário – e uma ameaça nesse já foi inclusive feita. Como você avalia essa situação? O que você consegue vislumbrar a curto, médio e longo prazos no tocante à nossas liberdades de expressão e de imprensa?

Carlos Dias: O Terça Livre pode ter terminado como empresa de comunicação, mas jamais a dimensão espiritual que forjou seu nascimento poderá ser tocada por qualquer poder humano. É impossível! O ambiente do Terça Livre foi muito mais um encontro de almas do que de meros intelectuais convergindo apenas num interesse negociável, por isso, sua indestrutibilidade.

Na verdade, espero uma espécie de contenção natural a partir de uma ampla discussão a respeito de direitos fundamentais, a natureza do direito e, por óbvio, da singela razão. O reencontro imprescindível entre alma e corpo para o resgate a civilização ocidental.


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