Como as consequências da tradução da Bíblia em língua vernácula são comparáveis ao irrevogável impacto das redes sociais sobre o cenário político contemporâneo?


O domínio da tecnologia anda de mãos dadas com o poder político.

Em tempos onde a bomba atômica já é uma tecnologia dominada, tal como naves espaciais, a principal tecnologia em disputa não é a bélica – a única que importou em todos os tempos que nos precederam – mas a da informação.

Tecnologia da informação é, originalmente, a tecnologia que faz com que as informações circulem. Não tem necessariamente a ver com computadores, já que informações circulam desde que o mundo é mundo.

A tecnologia da informação mostrou seu poder pela primeira vez na história pelas mãos de Johannes Gutenberg, o inventor dos tipos móveis de imprensa, no século XV. A invenção de Gutenberg reduziu o tempo necessário para a reprodução de livros de semanas para horas.

Quando os protestantes dominaram a técnica da impressão de livros, puderam inundar a Europa com reproduções da Bíblia Sagrada em língua local, quebrando assim o monopólio católico tanto sobre a reprodução quanto sobre a interpretação das escrituras sagradas.

O primeiro protestante a se aproveitar sistematicamente deste avanço tecnológico foi Lutero. Não por acaso, se tornou o reformador mais conhecido do mundo, embora não tenha sido nem o primeiro nem o segundo a lutar para alterar a estrutura política da Igreja de dentro para fora.

Aberto o caminho da crítica, o catolicismo teve que se adaptar ao fato de não ser a voz única no mundo cristão, e ter que disputar a interpretação das escrituras sagradas com qualquer cidadão que possuísse uma bíblia na mão.

Tecnologias da informação hoje

A principal tecnologia da informação nos séculos XV a XIX foram os livros. No século XX, provavelmente foram o rádio e a TV. No século XXI, não resta dúvida de que são as redes sociais.

Nota-se uma tendência à popularização e à diversificação do acesso à produção de informações com o passar do tempo. Veja só: para ler um livro, é necessário dominar a linguagem e a leitura; pessoas não-alfabetizadas não têm acesso a informações quando elas são transmitidas exclusivamente de forma escrita. O rádio muda isso, já que com ele é possível ter acesso à informação simplesmente por meio da capacidade de compreensão auditiva da língua falada. Com a TV, a demanda é ainda menor, já que o domínio da língua ouvida é dividido com os estímulos visuais produzidos pela tela.

As redes sociais, além de possibilitar a escolha por parte do usuário entre ler, ouvir ou ver o conteúdo que deseja, traz a inovação de permiti-lo produzir conteúdo para outros usuários. Este conteúdo pode ser produzido, tanto em forma escrita, como oral, como audiovisual, por meio da posse de um único aparelho que custa, na maior parte do mundo, menos que um salário mínimo.

Não há dúvidas de que os custos para os produtores de informação do século XXI são os mais baixos da História. Nunca foi possível fazer uma mensagem alcançar tanta gente a um custo tão baixo.

Democratização da informação e controle da opinião pública

Os efeitos da democratização das informações são, no entanto, desastrosos para aqueles que possuíam o controle – não só comercial, mas também político – das tecnologias de comunicação que foram dominantes outrora.

Não é exagero afirmar que desde o início do século XX, no Brasil, poder midiático e poder político sempre caminharam juntos: políticos alimentando a imprensa, imprensa alimentando políticos. A aliança entre as duas partes foi estável e bem sucedida por muito tempo.

Quando cidadãos comuns passaram a dominar a tecnologia das redes sociais, no entanto, este arranjo de apoios mútuos ruiu. Repentinamente, quem influenciava milhões passou a não influenciar ninguém.

É neste ponto que a comparação com o processo vivenciado pela Igreja Católica durante e depois da Reforma é muito profícua:

O que temos assistido no Brasil é a reação desesperada de quem já perdeu os anéis, e agora teme por seus dedos. A censura e a perseguição são ferramentas de quem já não possui nenhuma esperança de vencer por meio da razão. Aconteceu no passado, e está acontecendo agora.

Da mesma forma como protestantes foram perseguidos por séculos dentro e fora da Europa, acusados de heresia, militantes conservadores de nossos tempos são presos, têm suas casas invadidas, seus equipamentos de trabalho confiscados e suas vozes silenciadas sob a acusação de serem antidemocráticos.

É muito sugestivo lembrar que aqueles que condenavam seus adversários como hereges não viam mal em vender indulgências, queimar inocentes, usar o nome de Deus visando benefícios pessoais, extorquir cidadãos humildes. Não. Hereges eram os que apontavam a imoralidade destes desvios de conduta. Hereges eram os outros.

Da mesma forma, em nossos tempos, aqueles que condenam seus adversários como antidemocráticos não vêm problema em colocar a polícia para invadir as casas de seus oponentes, impedir o acesso dos investigados aos termos da investigação, banir redes sociais de candidatos em tempo de campanha eleitoral, mudar a interpretação da lei de acordo com a conveniência e os interesses do momento. Não. Antidemocráticos são os outros.

O mundo não é justo.

Não temos notícia de vendedores de indulgência que tenham sido condenados pela Igreja Católica em vida por subverter a doutrina cristã em benefício próprio. Nenhum dos inescrupulosos Papas que usaram o nome de Deus para oprimir, em vez de libertar, sofreu qualquer tipo de constrangimento em vida. Muitos deles são, até hoje, tratados como santos.

Da mesma forma, é provável que nenhum daqueles que hoje usam seu poder para perseguir inocentes, e calar homens justos, vá ter a devida punição em vida. Dependendo de como a História caminhar, pode ser que ainda consigam se safar da punição do mundo dos homens.

Poder tem prazo de validade

Por outro lado, a História nos mostra que, uma vez dominada a tecnologia, o retorno ao status quo anterior é simplesmente impossível. Não houve como fazer os homens desaprenderem a imprimir livros, tal como não dá pra fazê-los deixar de usar as redes sociais e as modernas formas de comunicação: elas vieram para ficar, e vão engolir tudo o que existiu antes delas.

Os poderosos de nossos tempos tentam, de forma patética, fazer a mesma coisa que Papas ávidos por poder e influência fizeram em séculos passados: usar suas posições de poder e prestígio para perseguir oponentes.

Naquele tempo, a perseguição dos Papas aos protestantes produziu uma enorme publicidade em favor dos subversores, que se tornaram famosos pela perseguição que sofreram, e acabaram por cativar inúmeros corações que compartilhavam o mesmo sentimento de revolta, mas não encontravam uma forma de expressar seu descontentamento. A perseguição católica só aumentou a velocidade da conversão protestante.

Da mesma forma, a censura a vozes discordantes do establishment contemporâneo pode fazer vítimas pontuais do lado dos perseguidos, mas no longo prazo os efeitos serão os mesmos produzidos pelas perseguições papais: os perseguidos ganham notoriedade, seguidores e simpatizantes. Os perseguidores, antipatia, ódio e desprezo; só são respeitados enquanto são capazes de gerar medo. Consequentemente, tornam-se reféns de seu próprio poder, esquecendo-se de que não são Papas, e que seu poder – embora pareça – não é eterno nem infinito.

fim
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