Entre os ilustres amigos do inventor estava a Princesa Isabel

No longínquo 20 de julho de 1873, no antigo município de Palmira (atual Santos Dumont), localizado na antiga província (atual Estado) das Minas Gerais, nasceu o genial “Santô“, como os franceses o chamavam. O adjetivo genial é cabível ao inventor quando a importância definitiva do seu trabalho para o desenvolvimento da engenharia aeronáutica é considerada; Santos Dumont não fora o primeiro a ver o alvo, mas fora o primeiro a acertá-lo.

Quem passa pela História da Ciência não fica indiferente à disputa entre o inventor brasileiro e a dupla americana Wilbur e Orville Wright. Disputa, a bem da verdade, é um termo exagerado, é mais uma criação sensacionalista da incipiente mídia do século XX. A corrida para a construção do “mais pesado que o ar” envolveu dezenas — talvez centenas — de inventores, amadores e profissionais, no período de efervescência do fin du siècle.

O reconhecimento do pioneirismo dos irmãos Wright tem o seu cabimento. De fato, a dupla fora provavelmente os primeiros a alçar um voo controlado. Mas eles não fizeram isso com um avião. Não. O Flyer, uma espécie de asa delta motorizada, não era dotada de propulsão própria; a engenhoca fora catapultada para os ares. O mérito dos americanos, portanto, não está, definitivamente, na construção do primeiro avião da História.

O voo do 14-Bis, também conhecido como Oiseau de Proie (“Ave de Rapina” em francês) na capa do Le Petit Journal de 25 de novembro de 1906.

Um avião é um veículo motorizado capaz de voar por meios próprios, isto inclui a exigência da propulsão independente e os meios do manobramento durante o voo. A ausência de qualquer um destes elementos desqualifica o objeto da categoria de “avião”. Ademais, os exercícios de voo dos irmãos Wright eram realizados em lugares afastados, sem a presença significativa de testemunhas. No entanto, é evidente que o país que inventara o marketing não deixaria de propagandear o pioneirismo dos seus inventores. Jamais.

Uma réplica do 14-Bis no desfile de 7 de Setembro de 2006, em Brasília. Fonte: domínio público.

No dia 23 de outubro de 1906, no campo de Bagatelle, em Paris, uma multidão de mais de 1000 pessoas testemunhou o voo completo do 14-Bis. O primeiro voo da História durou pouco menos de 10 segundos, percorreu uma distância de sessenta metros a uma altura aproximada de dois metros do solo. O evento público contou com a presença dos membros da Comissão Oficial do Aeroclube da França, a entidade que, na época, representava a autoridade máxima para a homologação de qualquer evento importante, tanto no campo dos aeróstatos (no qual Dumont também destacara-se) quanto no dos “mais pesados que o ar“.

Há quem diga que Santos Dumont só conquistou o sucesso porque era rico e membro de uma família influente (seu pai fora um importante empreendedor nos tempos do Império), ou porque estava no lugar certo e na hora certa, a Paris do início do século. Esses fatores tiveram implicação real nas conquistas da vida do inventor, no entanto, considerá-los como a única causa do seu sucesso é desacreditar na existência objetiva do talento e do gênio humano. Pior: é fazer do homem prisioneiro das suas circunstâncias meramente materiais, o que, implicitamente, denota uma interpretação ideológica da biografia do gênio brasileiro.

A Princesa Isabel, protetora e ilustre admiradora do inventor brasileiro, observa o súdito em um voo experimental em Paris. Fonte: domínio público.

20 de julho é uma data definitivamente especial para a história da “conquista do ar“. Neste mesmo dia, em 1969, o homem pisava na Lua.

Com informações do portal History UOL e da Autobiografia de Santos Dumont.

“Sempre acreditei que o inventor deve trabalhar em silêncio; as opiniões estranhas nunca produzem nada de bom”.

Alberto Santos=Dumont.

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