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sábado, 28 maio, 2022

ESPECIAL丨Paulo Cursino por ele mesmo

Revista Mensal
Lobohttps://www.facebook.com/atocadolobomau
Autor e criador da página @atocadolobomau Uma página de ideias, pensamentos e um pouco de poesia.

Escrever uma boa piada é uma forma de arte genuína, mas para aqueles que pensam que ideia surge a todo instante e quase sempre do nada, saiba que isto está bem longe de ser verdade. Por mais simples que possa parecer, escrever piadas é um trabalho intenso, desgastante como qualquer outro, e que requer muita transpiração e claro, inspiração.

Nesta edição especial sobre o humor, tive o prazer de conversar com um dos mais bem sucedidos roteiristas da TV e do cinema. Paulo Cursino é hoje um dos mais importantes e atuantes nomes do cinema nacional, conquistando com seus filmes gordas bilheterias e um lugar privilegiado (e merecido) no ranking do catálogo das melhores plataformas de streaming, o que não é para qualquer um, especialmente para um cara humilde, filho de um metalúrgico com uma costureira, e que veio conquistando seu espaço com muita garra, talento e uma personalidade mais do que admirável, já que, legítimo operário da arte, especialmente das letras, navega na contramão da ditadura do politicamente correto e das regras impostas pela militância política que vem tomando de assalto palcos e telas pelo Brasil.

Se Billy Wilder tinha em sua sala uma plaquinha com a pergunta “O que Lubistch faria?”, a Esmeril resolveu perguntar, sobre os mais diversos assuntos, o que Cursino faria, e eis as respostas neste delicioso bate papo sobre cultura e claro, humor, nosso tema do mês.


1-De onde surgiu a paixão pela escrita?

Não sei dizer. Minha família não contribuiu muito para isso. Sou filho de metalúrgico e costureira. Minha mãe gostava de ler quadrinhos da Disney e romances baratos de Sidney Sheldon vendidos em banca. Nunca tive uma biblioteca em casa quando garoto. O mais próximo disso era a casa do meu padrinho, onde íamos vez por outra, e eu me divertia com estante de livros dele. Eu gostava mesmo era de contar e ouvir histórias. No interior de São Paulo, na minha época, nós ouvíamos e contávamos muitas piadas, histórias engraçadas de familiares e vizinhos, e acho que minha vocação para o humor e a comédia veio daí. Minha paixão mesmo sempre foi mais pela leitura do que pela escrita. Se eu pudesse viver apenas de ler coisas, talvez optasse por isso. Até hoje leio muito mais do que escrevo. Escrevo na marra e na força de vontade, muito mais do que pela paixão ou pelo talento. Por isso demorei a assumir que gostaria de viver de escrever. Só depois dos 25 anos é que resolvi me profissionalizar. Nunca acreditei que conseguisse ou que fosse à frente escrevendo, apesar de todo mundo me dizer desde cedo que eu escrevia bem. Sempre tirei nota máxima em redação. Mas o fato é que eu nunca fui estimulado a escrever. Nunca. Há uma história engraçada em casa, na minha família sobre isso. Meu pai um dia conversou comigo e disse que aceitaria tudo, que eu tivesse qualquer profissão, ele aceitaria qualquer coisa. Só não queria que eu fosse escritor ou professor. A grande ironia é que eu me tornei escritor e minhas duas irmãs são professoras.

2-Você lembra qual foi o primeiro roteiro que você escreveu? Ele chegou a ser produzido?

Difícil dizer, não me lembro exatamente. Eu acho que dei muita sorte nisso, quase tudo o que escrevi foi produzido. A maioria das coisas que ficaram ou ainda estão na gaveta é porque eu decidi que não deveriam sair de lá. Mas eu me lembro de um roteiro que eu escrevi para a Globo, o primeiro especial que fiz para eles, o primeiro roteiro para o qual fui pago, que chegou a entrar em produção, mas não foi realizado. Era uma adaptação de “Idéias de Canário” do Machado de Assis para o Renato Aragão. O Renato estava com um projeto de adaptar clássicos infantis para especiais aos domingos, com o toque de comédia de trapalhões dele, e vários autores desenvolveram roteiros. Alguns foram gravados, como o do Péricles Barros, que adaptou “O Príncipe e o Mendigo”. Ficou muito bom. Mas quando eu entrei no projeto, todos os grandes clássicos mais conhecidos já estavam sendo desenvolvidos: “Romeu e Julieta”, “Cyrano de Bergerac”, “Três Mosqueteiros”, etc, então percebi que se eu fosse por esse caminho, acabaria não emplacando nada. Então radicalizei: peguei um conto pouco conhecido do Machado – que é um autor clássico – e fiz uma história inspirada em cima. Todos adoraram. Foi sucesso imediato. Chegamos a fazer escolha de elenco e tudo o mais, mas acabou sendo derrubado por questões de custo. Fiquei chateado à época, mas depois percebi que foi bom. Foi o meu primeiro trabalho lá e me abriu portas, mesmo não tendo sido produzido.

3-Você tem alguma regra como escritor? Um código pessoal que você segue? 

Não. Não acredito muito nessas coisas. Tento ser o mais livre possível quando sento para criar. A única regra que sigo, até porque não dá para ser diferente, é a de não ser escravo da inspiração. Acho a inspiração fundamental, necessária, mas nem sempre dá para esperar por ela. Aliás, quase nunca. Eu acredito que o escritor é sempre um bonde andando. A inspiração que corra atrás para pegá-lo. Às vezes ela consegue, às vezes não. O que não dá é para esperá-la.

4-Você já teve piadas vetadas na TV ou em algum de seus roteiros para o cinema? Se sim, conte-nos uma delas.

Muito pouca coisa e nada de muito relevante. A censura hoje se dá antes. O controle criativo hoje é tanto que você já sabe o que vai dar problema, então dá pra contornar algumas coisas. Sempre fui muito ligado nisso. Na Globo, quando escrevia uma piada que sabia que ia dar problema, eu colocava mais duas ou três ainda mais problemáticas. Normalmente quem lia fazia uma comparação, involuntária, e derrubava apenas as que eu coloquei para que caíssem. Autor realmente esperto consegue fazer passar o que quer. Ser pego de surpresa lá na frente é um pouco de amadorismo.

5- O que é mais fácil, ou menos difícil: escrever humor sozinho ou em grupo? Qual é a rotina de um operário da escrita dentro da indústria da TV?

Isso varia muito, de autor para autor, de trabalho para trabalho, de empresa para empresa. Nem dá para detalhar. Eu acho que humor tem que ser escrito pelo menos em dupla, para você testar suas piadas. Mas hoje nem eu mesmo sigo essa regra, muita coisa prefiro escrever sozinho, consigo ver as piadas funcionando antes. Experiência ajuda muito sempre. Claro que nem tudo funciona, mas minha média individual de acerto é muito acima da média de muitas equipes. Isso me valoriza, claro, e posso cobrar mais. Eu já trabalhei em equipe e fui chefe de redação por dez anos na Globo, liderei mais de duzentos autores nesse tempo todo em vários programas, contratei vários também que estão lá até hoje. Confesso que eu não tenho mais a menor paciência para trabalhos com equipes grandes ou com palpiteiros de produtoras. Acho as rotinas das Writers Room de hoje extremamente improdutivas e com resultados medíocres em sua maioria. O mercado funciona muito abaixo do que poderia com as rotinas de operários que estão estabelecendo. Quando reclamam para mim que há uma “crise criativa” ou “falta de autores” eu sempre rebato a pergunta: vocês estão investindo em criatividade? Estão investindo em autores de verdade? Porque há muito neófito hoje em postos de comando de produtoras e canais que acham que basta montar uma sala de redação, botar meia dúzia de redatores dentro, que a mágica acontece. Nunca será assim. Quem me conhece sabe que eu tenho um bordão pessoal: eu escrevo, não faço pão-de-queijo, não entrego fornadas. O streaming hoje, e até mesmo o cinema, é pior do que uma fábrica de salsichas, um embrulha-e-manda enganoso. Tem muito roteirista jovem se achando. O cara é o décimo-quarto dialoguista da cena 37 e pensa que é autor, que está bombando. Desculpe, cara, ninguém irá longe assim. Ou você se firma como autor, ou você batalha pelo seu nome, ou será um eterno digitador de luxo, um datilógrafo, uma secretária de gerentes de conteúdo. Mais um pouco você termina levando café e biscoitos para os caras.

6-E como lidar com a vaidade de algumas estrelas da TV? Na época do “Sai de Baixo” circulava muito pela imprensa notas sobre um constante desentendimento entre os atores, movidos por ego e muitas vezes implicando que um tinha mais piadas que o outro, já que o programa era gravado com plateia. Você vivenciou isto? Ou foi só mais uma lenda urbana da TV?

Vivenciei, presenciei, ouvi muita coisa, não só no “Sai de Baixo” como em vários outros programas e novelas, e na época eu via tudo isso como um grande stress, algo que realmente desanimava. Por muito tempo enxerguei os atores como gente mimada. Mas hoje vejo tudo como atrito normal de trabalho, como há em qualquer outro. Sempre digo que escrever é fácil, é a parte mais fácil do trabalho na verdade. Difícil é administrar egos, inclusive o seu. Você aprende com o tempo a ouvir mais os atores, a sentir o ambiente, e encaminhar melhor o texto. Hoje já sei preparar um roteiro à prova de reclamações. Mais uma vez: nada melhor do que a experiência. O importante é não gerar expectativas ou alimentá-las. Não prometer um personagem ou uma cena que você não poderá cumprir ou mesmo deixar o roteiro desequilibrado para alguém. Se você tem dois ou mais comediantes de peso em um projeto, você pode até ter o seu preferido, mas se não houver um momento de brilho para os outros, o erro é seu, do autor. O que aconteceu no “Sai de Baixo” é que pelo menos 2/3 dos autores era muito inexperiente, aquilo foi uma escola para muita gente, eu não tinha nem dois anos de casa quando fui parar lá. Então era óbvio que errávamos bastante e alguns atores realmente tinham motivos para reclamar, ainda que houvesse uma redação-final com mão forte. Escrever quarenta páginas de piadas por semana não é mole, nem todo mundo rende o que deve, então era bastante sofrido, uma guerra.

7-Nesta edição traçamos um especial sobre Chico Anysio, um dos maiores gênios da comédia, porém, numa de suas entrevistas, vi que citou o fato de Chico, apesar da genialidade cômica, ser um tanto azedo. Poderia definir melhor o razão da escolha de tal adjetivo?

Não me lembro, mas se utilizei este termo, fui injusto. Ou muito redutor no meu comentário. Chico era exigente, o que muitas vezes a gente pode tomar por azedume, mas ele era mais cioso e atento ao seu trabalho do que qualquer outra coisa. Trabalhei pouquíssimo com ele, e ele já estava no final da vida e da carreira, então é normal e perfeitamente compreensível também que ele estivesse um pouco mais impaciente. Ainda idoso, Chico tinha uma memória e um tempo de piada impressionantes. Lembro que adorávamos escrever o “Bento Carneiro” e ele reclamava bastante para fazer. “Pô, você não gosta do personagem, Chico?”. Ele dizia “O que eu não gosto é de ficar duas horas na maquiagem. Vamos de Pantaleão.”. Compreensível também.   

8- Meu primeiro grande sucesso no teatro, “Lolitas”, foi primeiramente escrito pra o cinema, mas na falta de condições, adaptado para o teatro. Com você já ocorreu algo parecido, você já pensou em ter uma carreira também atuante no teatro, como tem no cinema e na TV?

Escrevi apenas uma peça para o teatro, um musical, “Os Duelitas”, uma encomenda do André Segatti e que foi dirigida pelo Jorge Fernando. Achei divertido, ganhei dinheiro, ficou um bom tempo em cartaz, mas não a ponto de querer fazer de novo. Sempre quis fazer mais cinema, mais do que TV, mais do que tudo. Meu barato sempre foi a tela grande. Não digo que nunca escreverei uma peça ou um romance, pode ser que aconteça. Mas se eu puder fazer só filmes, já me dou por satisfeito.

9- Como você enxerga o fenômeno dos influenciadores e das estrelas instantâneas da Internet? Como escritor, não dói as vezes ver que gente sem nenhum conteúdo, roteiro, nada, apenas ligando uma câmera e contando o dia, muitas vezes de forma até que bastante medíocre, atinja milhões de seguidores? A que se deve este fenômeno na sua opinião?

Eu não me incomodo muito não, pelo contrário, gosto de vários. Mas é que eu, de fato, não os vejo como concorrentes ou mesmo fazendo algo semelhante ao que faço. Não acho nem melhores e nem piores, são diferentes. Eles fazem algo completamente novo e é normal, neste primeiro momento, o despreparo e a falta de conteúdo da maioria, já que a maioria é muito jovem. Tem alguns que eu vejo que até tem boas ideias, até tem talento, mas pecam miseravelmente na execução e na falta de cultura. Mas acredito que adquirirão com o tempo. Eu também fiz muita bobagem quando mais jovem. O momento agora é de explosão, é o momento da quantidade. Mas somente a qualidade garantirá vida longa à maioria e ela virá com o tempo. A coisa mais interessante de se estar há muito tempo na área é que você consegue identificar quem vai ficar e quem não vai, quem vai conseguir viver de criar e quem não, quem tem talento e quem não tem. Eu já vi tanta gente bombada desaparecer do mercado que nem me impressiono mais quando surge algo novo, uma nova estrela. O grande sucesso hoje não garante nada amanhã. Carreira é para quem tem bala na agulha e a maioria não tem, isso não é de hoje. Pode reparar e pesquisar: metade dos Youtubers que bombavam em 2013 e 14 hoje já não são mais tão queridos ou pararam naturalmente. Em menos de dez anos muitos já jogaram a toalha. De novo: isso é normal.

10-Eu gostei de “Tudo bem no Natal que vem”, mas não pude deixar de notar que a crítica foi extremamente hostil com  o filme. A crítica, em geral, influencia na sua forma de criar, de compor, você chega a pensar, quando escreve, se a plateia ou a crítica vão apreciar?

Se eu fosse me preocupar com crítica eu nem pagaria minha conta de luz. Eu me incomodava no início, mas depois relevei quando percebi que não vendia um mísero ingresso a mais ou a menos por conta da crítica. Elas são inócuas. Não me afetam antes e nem depois. A gente até se diverte com isso. Às vezes, no set, a gente brinca dizendo “essa piada vai incomodar aquele viadinho da Folha” e gargalhamos e fazemos mesmo assim. A única coisa que me incomoda é quando mentem ou são desonestos com o filme, aí faço questão de explanar e expor o erro, até para que a mentira seja corrigida. No geral, a crítica brasileira tem muita quantidade e pouquíssima qualidade. Conto nos dedos da mão esquerda do Lula os críticos que realmente prestam. A maioria da crítica cinematográfica brasileira cai naquilo que chamo de “Crítica 3D”: desinformada, despreparada, e desonesta. Muito raramente um crítico brasileiro não cai em algum desses “D”. Ignoro mesmo.

11-Você, além de roteirista, também atua como produtor, a grande maioria deles sendo realizados através das leis de incentivo. Qual a sua opinião sobre as leis e o que você mudaria, caso fizesse parte do governo?

Eu sou a favor das leis de incentivo, mas não da forma como foram administrados até hoje. Eu estou tentando ajudar. Faço parte do atual Conselho Superior de Cinema e do Comitê Gestor do Fundo Setorial, que são parte da administração do estado, não do governo. Eu acho que o foco principal é enxergar o audiovisual em geral de forma mais industrial, equilibrar com o aspecto cultural e artístico, com uma divisão melhor de recursos. Para mim é inconcebível um país como o nosso produzir e financiar mais documentários e filmes de arte do que cinema de entretenimento. Por mais que documentários e filmes de arte sejam importantes, é o entretenimento que mantém a indústria funcionando como se deve. É ela que gera emprego, forma mão de obra, dá dinheiro, e realimenta TODO o setor, inclusive o de documentários e filmes de arte. Sei que para muitos é difícil entender ou assumir isso, mas o cinema de entretenimento existe sem o cinema arte, mas o cinema de arte não existe sem o de entretenimento. Quem mantém as salas funcionando são os filmes comerciais. Se dependêssemos do cinema arte teríamos um oitavo das salas de hoje. Um filme do Paulo Gustavo garantia a sala para que dez “Medidas Provisórias” sejam exibidos. Era isso o que a gestão pública do nosso cinema deveria entender. Um estado que invista apenas no aspecto cultural e artístico acaba fazendo com que este mesmo tipo de produção não cresça e se sustente por si mesma. Repito: sou a favor das leis de incentivo e as defenderei SEMPRE. Mas não da forma como ainda estão hoje. Não é um problema de conceito, mas de execução.

12-Qual a maior dificuldade que, como produtor, você encontra para a realização de seus filmes?

Isso varia de época para época também. A maior dificuldade hoje, por exemplo, não é dinheiro, um problema que era recorrente até dez anos atrás. Hoje temos gargalos sérios em termos de gente para dirigir, atuar, fazer pós-produção. A maior dificuldade, hoje, de fato, é agenda. Está todo mundo pegado. É um bom sinal que gera um mau aproveitamento do que a gente faz. Note bem que não é uma reclamação. Prefiro assim do que o contrário. Mas é a maior dificuldade hoje para mim.

13- Você concorda com a posição de Juca de Oliveira que, em mais uma entrevista recente à Jovem Pan, afirmou que a Rouanet fez com que os atores do teatro parassem de depender do dinheiro da bilheteria e com isto o estímulo para novas criações foi minado?

Concordo muito. Ele tem toda razão. A Rouanet foi um desastre para o teatro e uma fonte de mamata eterna para muita gente. Conheço atores e produtores que se especializaram em ganhar dinheiro pela Rouanet e só. O texto, o espetáculo, e o público que se danem. O teatro brasileiro está em coma por conta disso. Há um monte de artista de quinta categoria culpando o atual governo por todas as mazelas da nossa cultura, mas a maioria é desonesta DEMAIS e não se lembra de que a maioria dos teatros foram fechados durantes os governos do PT. Disso eles não gostam de lembrar, claro. Nem dá pra levar a sério essa gente. O fato é que houve uma desistência meio que geral da classe artística de tentar alcançar o público. É artista da Zona Sul fazendo peça para o vizinho da Zona Sul que irá elogiá-lo no jornal da Zona Sul. Fecharam-se nessa e acham que suas opiniões estão acima dos artistas do resto do país. Qualquer coisa que faça sucesso fora deste círculo não é levado em conta. Não vejo muita saída para isso. A nossa classe artística é muito jeca e mesquinha. Acho que meu desânimo com o teatro vem daí.

14-O secretário nacional de cultura, Mario Frias, também numa entrevista à Jovem Pan, disse que 500 mil reais era muito dinheiro para se fazer um filme. O que acha de tal postura e, caso sinta-se à vontade, o que você achou da gestão dele à frente da pasta mais importante da cultura?

Eu gostei da gestão do Mario Frias. Não foi perfeita, mas foi além do que era possível. O salto foi positivo e digo isso como integrante do Conselho Superior e do Comitê. Acompanhei de perto todas as dificuldades e desafios que ele enfrentou. Ao contrário de 90% do pessoal da área, eu sei do que falo e sou honesto. O presidente Bolsonaro teve muita dificuldade, bateu muita cabeça, errou muito, até acertar o secretário da cultura. Acho que nem preciso lembrar de Roberto Alvim e Regina Duarte. Ou mesmo a passagem da Secretaria da Cultura para o Ministério do Turismo. Mario Frias enfrentou o boicote sistemático da classe artística que resolveu não ajudar, ou mesmo atrapalhar deliberadamente, por questões políticas. Quando Mario chegou ele tentou ser o mais contemporizador possível, com todas as suas qualidades e limitações. Mas logo de cara enfrentou uma militância, uma má vontade intransponível e extremamente ignorante da classe. Não é preciso ir longe: na primeira matéria sobre a sua entrada no governo, a Folha de São Paulo publica uma foto do cara nu em um material de divulgação antigo. Qual a necessidade? Por quê? Simples: porque não gostariam que ele desse certo. Esta turma nunca admitiria qualquer acerto. O governo Bolsonaro poderia inaugurar um teatro novo por dia, um museu por semana, aumentar a capacidade produção a trezentos filmes por ano, que a classe artística continuaria jogando contra. Ninguém “largaria a mão de ninguém”. Eu lamento muito por este estado de coisas, trata-se de uma polarização que foi alimentada por ambos os lados. Não deveria ser assim. Claro que não dá pra dizer que o governo não errou. Mas TODOS os governos erram em muita coisa na área da cultura. Faz parte. Porém, digo sem medo de errar e com toda honestidade possível: nenhum outro governo encontrou beligerância maior, má vontade maior, e ignorância maior, de toda classe artística, do que o governo atual. Não há o que discutir. Ignorar este fator, ou justificá-lo, é falta de caráter.

15-Já pensou em realizar uma obra autoral, na qual você escreva o roteiro, produza e também dirija o filme? Há algum projeto deste em andamento?

Sim, muito. Tenho vários projetos assim em andamento ou apenas idealizados. Acontecerão. Inclusive me pedem isso o tempo todo. Só não botei na praça ainda por falta de tempo ou mesmo disposição. Uma hora conseguirei conjugar as duas coisas.

16-Assim como eu, você tem uma paixão declarada por Billy Wilder, um dos maiores diretores e roteiristas do cinema mundial, mas além dele, quais seriam os cinco maiores roteiristas na sua opinião e os cinco maiores diretores?

Não consigo mais fazer listas assim, desculpe. Já dei várias entrevistas e cada hora aumento um ou esqueço um. É muita gente. Não quero parecer incongruente, minha memória deu uma piorada. Consigo falar mais de influências. Eu acho que minha maior influência como roteirista, além de Billy Wilder, é Ben Hetch, Dalton Trumbo, e talvez a maior influência de todas, John Hughes. Na comédia não tenho como deixar de fora caras como Blake Edwards, o trio Zucker Abrahams Zucker, os irmãos Farrely. Mas você encontra ecos de Mario Monicelli em meu trabalho, ou mesmo Jerry Lewis. Tenho fascínio pela condução de histórias do Richard Curtis e do John Hodge. Ninguém da minha geração passou incólume por Quentin Tarantino ou Paul Thomas Anderson. Enfim, muita gente. Se começar, não paro mais.

17-Qual o primeiro filme que você assistiu no cinema? Qual o filme que mais lhe inspirou a ser roteirista?

O primeiro filme que assisti no cinema foi “Digby, o maior cão do mundo”. Lembro até hoje de muita coisa do filme – que é bem divertido – e até da pipoca com queijo do Cine Palas em Taubaté. Fui apenas eu e minha mãe. Uma lembrança incrível. Acho que o filme que mais me inspirou a ser roteirista foi “Superman – o Filme” de 1977. Eu achei muito legal, claro, não tem como não, eu tinha oito anos. Mas fiquei incomodado com algumas soluções da história e saí de lá falando “eu faria diferente”. Lembro que meu pai me achou meio metidinho falando isso e perguntou o que eu faria diferente. Eu disse que o final não fazia sentido. “Se o Superman podia girar o planeta ao contrário e voltar o tempo, por que ele não voltava antes de todos os problemas do filme acontecerem?”. Meu pai pensou por segundos e disse que eu tinha entendido o filme bem demais e que isso não era bom, era só uma diversão. Até hoje levo isso comigo e me equilibro entre esses dois polos: eu quero fazer as coisas do meu jeito, mas também levo em conta que é só diversão. Acho que encontrei aí uma medida. Acho que decidi escrever histórias a sério ali.

18-Temos praticamente a mesma idade, referências muito próximas, portanto como ambos viemos de uma época onde o acesso a filmes não era tão largo e fácil como hoje, onde dependíamos quase que exclusivamente do mercado de vídeo e das locadoras, os diretores desta era provavelmente muito inspiraram o seu trabalho? Qual a influência, por exemplo, das comédias de John Hughes na sua obra?

Hughes era um cara que trabalhava com carinho em todas as ideias, cenas, filmes que fazia. Ele parecia nunca ter preguiça. Ele partia de um princípio que era de que o público percebe o trabalho e a dedicação ao que você faz. Então ele concebia da melhor forma possível. Seus high-concepts eram ótimos. Ele sempre conseguia extrair o melhor de seus elencos, ainda que trabalhasse com gente novata e limitada. Ele conseguiu fazer sucesso com nulidades como Molly Ringwald e Andrew McCarthy. Tinha um talento absurdo para cenas e diálogos e todos os filmes tinham uma marca, um estilo. Tento manter o mesmo padrão em tudo que eu faço, claro, mas não tenho nem de longe o mesmo talento, e nem pretendo igualar nada. Apenas tenho o cara como modelo. Se Billy Wilder tinha em sua sala uma plaquinha com a pergunta “O que Lubistch faria?”, eu poderia ter uma igual perguntando como Hughes trabalharia em uma cena. Para mim é o cara.

19-Você é um cara bastante ativo nas redes sociais e um provocador nato, o que aliás admiro muito, mas por ter uma visão antagônica àquela da maioria de atores e personalidades da TV,  qual seria a “mágica” para não engrossar a lista dos cancelados por esta turma dominante em ambiente tão agressivo e intolerante às opiniões contrárias?

A mágica de não ser cancelado pelos outros é se cancelar antes. Poupe o tempo deles e o seu. Eu não vendo minha liberdade de pensamento para me enturmar com ninguém. Não quero fazer parte de panelas e puxar saco de jornalistas justamente para poder dizer o que penso. Eu não conseguiria viver de outra forma. Eu jamais faria afirmações com as quais não compactuo apenas para sobreviver. Eu não quero isso para mim. Prefiro ficar na minha, perder trabalho, ficar fora das festas, fora das grandes redes, fora de tudo, e poder falar tudo o que eu quiser, do que o contrário. E nem sou tão ativo nas redes assim. Eu mal publico no Instagram – acho uma rede detestável – e utilizo o Twitter só para pegar notícias. Só escrevo mais para amigos, conhecidos e seguidores no Facebook, uma rede tranquila e sem tanta encheção de saco. A molecada já sumiu dali e deu sossego, está silencioso e de bom tamanho. Nunca quis ou pretendi ser influencer de ninguém. Se eu conseguir influenciar minha filha a comer mais brócolis, já me dou por feliz.

20-O politicamente correto está calando o humor no mundo?

Não. Nada cala o humor no mundo, nada fará o humor deixar de ser o que é, um fenômeno e uma necessidade humana. O politicamente correto está RECALCANDO o humor, é diferente. Está tornando-o invisível e inaudível, mas ele continuará a falar, ainda que aos sussurros. Todos os dias recebo piadas politicamente incorretas em meu whatsapp, ouço no taxi, nos bares, na vida. Recomendo a leitura do livro “Foi-se o Martelo” do Ben Lewis que mostra como o humor anticomunista sobreviveu por décadas sobre forte censura e repressão comunista. Acontecerá o mesmo com o politicamente correto. O humor é como a vida, sempre encontra uma saída, uma forma de sobreviver. A censura nunca funciona por muito tempo, até porque somente gente muito medíocre cede a ela e os medíocres nunca permanecem. Nunca conheci ninguém realmente talentoso que seja politicamente correto. O progressismo é a muleta dos artistas e criadores incompetentes. Quanto mais um artista lacra, mais inseguro ou sem talento ele demonstra ser. Quando alguém não tem uma idéia que preste, pode reparar, ele apela para o identitarismo, para a ecologia, para o discurso igualitário, para qualquer coisa que faça seu trabalho não passar em branco. Hoje, a possibilidade de uma comédia ruim ser vendida porque ela traz “uma causa nobre e necessária” é maior do que a de uma comédia boa que queira apenas fazer rir. Mas o que é ruim não fica, então é tiro n’agua. Até hoje não vi uma obra progressista que resista ao tempo. Tudo nasce datado, chato, sem sentido. Eu acredito que nos anos 30 e 40 deste século muita gente perguntará o que assistíamos nos anos 10 e 20 e não saberemos explicar o que víamos e do que ríamos. Vivemos hoje um período medíocre e vergonhoso para a cultura em geral e a comédia em específico. Mas é temporário. Uma hora essa onda passa.

21-O que você pensa a respeito do projeto de lei SB 1834, apelidada por ativistas na Florida como “Don’t say Gay Bill”, mesmo sem que tal palavra sequer tenha sido citada no projeto?  E como você vê a declaração  de Karey Burke, principal responsável pela criação de conteúdo da Disney, ao afirmar em  transmissão online que a empresa terá 50% de personagens LGBTs até o final desse ano?

Acho que respondi parte disso na resposta acima, nem conheço o caso. Mas me parece tão louco que acredito que seja sério. O meio está assim. Não tenho mais a menor paciência para isso. Melhor deixar passar. O progressismo é uma covid cultural. Uma hora irá embora também.

22- Como roteiristas, este tipo de imposição também não acaba limitando a criatividade do escritor?

Quanto mais imposições, mais limites, claro. Não há como enxergar isso de forma diferente. Somente autores muito limitados e mal informados encaram imposições como “desafios”. Porque tem muito disso. Muita gente sofreu lavagem cerebral e acha cerceamento e patrulhamento coisas positivas. Eu vejo autores jovens dizendo “ain, não devemos fazer piadas com minorias, precisamos nos desafiar, fazer piadas que não ofendam ninguém”. Ora, que pauta é essa? Eu ofendo e bato em quem eu quiser. Como dizia Millôr Fernandes, “todo homem é minha caça”. Eu é que não me restrinjo. Se eu tiver que ofender alguém, farei da forma mais caprichada possível. Quem não ofende nada, nem ninguém, é… inofensivo. E a pior qualidade de um humorista é ele ser inofensivo. Jamais serei assim. Toda vez que eu ouço esse tipo de sandice eu juro que respiro aliviado, pois sei que terei trabalho para a vida toda. Porque não adianta tentar abrir os olhos dessa gente. Estão totalmente comprados pela ideologia e não percebem o principal: essa coisa de não fazer piadas que não ofendam o grupo A ou B, ou de ter que bater “apenas no opressor” é uma forma de deixar o mercado menos concorrido, de pagar menos para autores, de baratear mão de obra. Sim, o progressismo e o politicamente correto pioram o salário dos autores mais jovens.

Porque pra fazer piada sem graça, qualquer um que saiba assinar o nome consegue. Criadores de verdade, que sabem ultrapassar limites, custam caro e cobram para fazer rir. A coragem é valiosa. Esse é o grande problema dessa geração de roteiristas: ela é covarde. Muitos acham que estão criando, acham que estão fazendo humor, acham que estão fazendo sucesso, quando, de fato, são apenas empacotadores de hambúrguer para delivery. Serão substituídos por alguém mais novo em breve, antes de estabelecerem seus nomes. Qualquer um faz o que eles fazem. Mas poucos sabem fazer o que eu faço.

23- O humor deve ter um limite, como impõem os novos censores moralistas? Se sim, qual seria? E o que você pensa sobre as pessoas que, por mais incrível que pareça, aplaudiram uma agressão ao vivo na cerimonia do Oscar, após uma piada, rotulada como “de mau gosto”?

Não. O humor não deve ter limite nenhum. Ele tem que se tratado apenas pelo o que é, como exercício de liberdade de pensamento voltado para o riso ou para a provocação pura e simples. Não me lembro quem disse que quanto mais inteligente e culto é um povo, menos importância ele dá às piadas de um comediante. Raciocínio corretíssimo. Alguns formadores de opinião no Brasil trilham um caminho perigoso quando começam a defender que se processem comediantes ou quando acham que uma piada ofensiva vale um milhão de reais de indenização. Não gostou da piada do sujeito? Critique, mude de canal, saia da sala, não vá ao teatro, não compre o livro, não recomende. Tentar socar o comediante – como estupidamente fez o Will Smith – ou mesmo processar na justiça é atitude de desinformados que não entendem que o humor não foi feito para ser agradável ou passar a mão na cabeça de um governo, classe social, ou minorias. Quem aplaude um tapa na cara do comediante deveria fazer o mesmo com políticos ou com outros profissionais que nos prejudicam tanto ou mais. Mas cadê a coragem de enfrentar os verdadeiros inimigos? Bater no palhaço e fácil, quero ver é entrar na jaula do leão só na mão também. No fundo, os defensores da atitude do Will Smith sofrem do mesmo problema dele, tentam compensar a falta de virilidade batendo em alguém menor e mais fraco. Como já brinquei várias vezes, essa gente se resolveria apenas colocando uma meia embolado dentro da cueca. Somente fracassados se identificaram ou se sentiram vingados. Como o número de homens assim é alto, então repercutiu bem. Foi bom, porque se alguém dissesse que em pleno século XXI ainda haveria quem se ofendesse e partisse para violência por conta de piada, ninguém acreditaria. Deu para dar uma dimensão de como nossa sociedade anda realmente doente.

24-Quem para você foi (ou ainda é) o maior contador de histórias que o mundo conheceu?

O meu falecido avô Zé. Mas entro em detalhes outra hora. Como diz o meme, o mundo não está preparado para esta conversa.

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