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terça-feira, 28 junho, 2022

ENTREVISTA | Diogo Fontana fala sobre seu novo livro

Revista Mensal
Leônidas Pellegrini
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

Fico imaginando como seria se esse livro fosse traduzido em espanhol. Acho que provocaria algum barulho.

Quatro anosdepois de seu romance de estreia, A exemplar família de Itamar Halbmann, Diogo Fontana retorna com Se houvesse um homem justo na cidade, mais um tijolo para a muralha de livros que o professor Olavo de Carvalho defendia ser necessária para o resgate da inteligência nacional.

A trama é focada em memórias e reflexões de um exilado venezuelano no Brasil, e os fragmentos de seu caderno reconstroem todo o processo de destruição de seu país natal com a revolução chavista que lá se operou. Sem nunca ter estado na Venezuela ou em Roraima, Diogo consegue colocar-se na pele de um refugiado e transmitir a experiência real do drama daqueles fugitivos da grande fome venezuelana. Pelos “exames de consciência” do narrador, com seus remorsos, mágoas, dúvidas e questionamentos do tipo “e se?”, o autor reconstrói o destino de tantas civilizações que atingem seu apogeu material em dissonância com seus valores espirituais e morais: a mais profunda decadência em todos os sentidos.

É interessante notar que em seus dois livros Diogo retrata a revolução socialista na América Latina em dois diferentes estágios: em A exemplar família de Itamar Halbman, o autor mostrou os rumos a que pode chegar um país moral e espiritualmente adoecido; agora, com Se houvesse um homem justo na cidade, ele expõe profunda miséria a que leva esse adoecimento. Se há obras literárias da atualidade que podem nos servir de alerta para os rumos a que nos encaminhamos, são estes romances de Fontana.

Confira um pouco mais sobre a obra na entrevista abaixo.

Esmeril News: Como se deu a motivação para escrever seu romance?

Diogo Fontana: Curioso você empregar a palavra motivação. Nunca parei para pensar no que me motiva a escrever o que quer que seja. Talvez o meu trabalho de escrita seja também um trabalho investigativo. Eu acredito nisso. Acredito que a literatura é uma forma de conhecimento. Quando eu escrevo algo estou ao mesmo tempo pesquisando, tentando descobrir alguma coisa, escavando a realidade.

Comecei a escrever esse novo livro em 2017, antes mesmo de publicar o meu primeiro. Puxando agora pela memória, creio que eu buscava responder algumas perguntas, a principal dela era saber como ocorre o processo de degradação de uma sociedade, como é a experiência de quem atravessa por um colapso como este que aconteceu na Venezuela e está acontecendo hoje na Argentina. Era uma coisa que me intrigava, eu queria entender como é estar na pele de uma vítima da situação. E acho que consegui. Ao longo da escrita outras perguntas foram surgindo, emergiu a questão do sentido, do propósito da situação. Afinal, de que vale todo aquele sofrimento? E essa pergunta acabou incorporada ao livro, acabou formulada explicitamente pelo próprio protagonista.

Esmeril News: Explique a relação do título de seu livro com sua trama.

Diogo Fontana: Está relacionado ao dilema que acabei de mencionar. Por que a Venezuela mergulhou na miséria? Por que aconteceu tudo aquilo? Não é a primeira vez que isso acontece, outros povos prósperos também caíram na pobreza e na degradação. Cuba já foi rica um dia, o Líbano era um país muito bom de se viver, o Irã também, a Argentina nem se fala…

Veja a França, por exemplo, estive em Paris em 2012 e depois em 2018. Já tinha estado antes em 2001. O processo de corrupção é visível, não para de piorar, o país está cada vez mais deteriorado. Acontece o mesmo com o Rio de Janeiro. Aí fica a pergunta: por quê? Por que Deus permite essas coisas, o colapso, a destruição? O título é uma referência ao diálogo de Deus com Abraão antes da destruição de Sodoma. Abraão tentava negociar com Deus, que havia dito que destruiria a cidade. Perguntava: “mas se houver gente justa na cidade, o Senhor mesmo assim a destruirá?”.

Esmeril News: Vejo uma clara relação de “continuidade” entre Se houvesse um homem justo na cidade e seu romance anterior, A exemplar família de Itamar Halbmann, no sentido de que ambos, cada qual à sua maneira, abordam diferentes estágios da atual revolução socialista na América Latina. Isso foi feito de maneira consciente?

Diogo Fontana: Não pensei nisso em nenhum momento. A unidade, se unidade há, provém da própria autoria, os dois livros foram escritos pela mesma pessoa e por isso refletem as minhas dúvidas e investigações.

No primeiro livro eu estava tentando entrar na cabeça do petista apoiador da Dilma em 2016, aqueles 3 ou 4% de recalcitrantes que ainda teimavam em acreditar naquela débil mental. De certo modo foi fácil, eu conheci muito petista na minha vida, fiz um tour por quatro universidades curitibanas (não terminei nenhuma), então pude conhecer de perto dezenas e dezenas de comunistas do meio universitário. Alguns deles eram ricos, gente com renda familiar alta, na casa das dezenas de milhares de reais. Eles não eram um grande mistério pra mim, a investigação sociológica e psicológica foi mais fácil.

Já para este segundo livro a coisa foi bem mais difícil. Nunca pisei na Venezuela e nem em Roraima. Deu uma trabalheira reconstituir a experiência do protagonista. Mas acho que funcionou. Fui lido por um querido amigo venezuelano que aprovou o romance. É um aval importante. Fico imaginando como seria se esse livro fosse traduzido em espanhol. Acho que provocaria algum barulho.


Diogo Fontana revela a a grande e óbvia ameaça que atormenta o nosso tempo: um regime que corrompe as mentes para escravizar os corpos e condenar as almas de toda a humanidade.”

– Paulo Briguet


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