Em tempos de pandemia, especialistas e diversas pesquisas apontam que talvez, nas últimas décadas, nunca tenha se consumido tanto álcool, já que o setor teve crescimento de 93.6% durante as quarentenas.

Seja para contemplar momentos isolados com a família, agora mais unida, ou para relaxar o medo e a tensão que nos tem dominado, a frase “embriaguez sagrada, te afirmamos método”, erroneamente creditada a Jim Morrison, nunca fez tanto sentido.

Evidente que é sempre bom avisar que deve-se beber com moderação e jamais dirigir após qualquer dose de álcool. 

Vinícolas se beneficiaram bastante com as mudanças de hábitos e comportamentos da população, tornando o vinho a bebida oficial da quarentena.

E por falar na bebida de Baco, a vedete desta temporada enclausurada, vale divagar brevemente sobre parte da origem desta tão antiga e, por vezes, divina bebida.

Matriz das Vinículas

Foram encontradas vidências da mais antiga produção de vinho na Europa em sítios arqueológicos na Macedônia, cerca de 6.500 anos atrás. Alguns pesquisadores afirmam que a vinícola mais antiga do mundo foi descoberta na Armênia, mas evidências de sítios arqueológicos na Grécia, em forma de restos de uva também com mais de 6.500 anos, apontam para a primeira aparição conhecida de produção de vinho na Europa.

Uva xinomavro, típica da região de Naoussa – Macedônia – Norte da Grécia

O vinho grego era exportado por toda a bacia do Mediterrâneo, e foi o primeiro vinho a chegar no antigo Egito. 

Graças à figura mítica de Dionísio, deus grego da folia e do vinho, frequentemente citado nas obras de Homero e Esopo, era muito comum na Grécia e Roma antigas, a famosa  “Me-tu-wo ne-wo”, ou “festa do vinho”, tradicionalmente celebrada no mês do vinho novo, um evento regado a muita música, sexo e vinho, praticamente a bisavó da tríade “sexo, drogas e rock and roll”.

Na mitologia homérica, o vinho geralmente era servido em tigelas, e nunca consumido em estado puro, por isto levava então o nome de “Suco dos Deuses”. 

Já na Europa medieval, logo após o declínio de Roma, e com isto a derrocada de sua produção de vinho para exportação, a Igreja Cristã acabou tendo um papel de destaque como defensora do vinho, já que o “sangue de Cristo” havia se tornado necessário para a celebração da Missa Católica. 

Hoje, séculos e séculos depois,  França, Itália e Espanha são sinônimos de vinificação e cultura do vinho, assim como Chile e Argentina na América Latina, ou a região californiana dos EUA, descrita muito bem, aliás, no excelente filme “Sideways”.

Produção moderna

Porém, sem nenhuma dúvida, a França é quem reivindica as denominações de vinho mais famosas do mundo e suas célebres vinícolas são mais que renomadas, incluindo Bordeaux – a “capital mundial do vinho”.

Pertence aos franceses a maior variedades de vinhos populares do planeta, pois quem nunca se deliciou com uma garrafa de Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay, Champagne, Pinot Noir ou Sauvignon Blanc?

Por dominar muito pouco sobre a história do vinho, pois sou apenas um curioso apreciador, prefiro apenas me entregar a esta bebida sagrada e profana para aliviar o stress diário perante um mundo assustador e um futuro cada vez menos promissor para o nosso país. 

Máscara do Deus Dioniso com idade estimada em 2400 anos

Arrisco pensar que até o profano Dionísio teria vergonha do que costumam chamar de diversão por aqui… 

Imaginem então o sagrado Cristo, célebre degustador de vinho, o que pensaria sobre nossa atitude frente a seus irmãos que vem morrendo de frio, e até de fome, quando milhões de pessoas sem emprego, vivendo em condições precárias, são ignoradas, enquanto os governantes aumentam os próprios salários e encenam espetáculos pavorosos como uma falsa CPI em meio à uma das maiores crises de saúde que o país enfrenta? 

Vivemos uma ressaca sem fim de vinho “Sang de taureau”?

O jeito, amigos leitores, é no final de semana convidar amigos, ou apenas sua amada (o), para compartilhar momentos únicos enquanto se divide uma boa garrafa de um bom vinho, esta nobre histórica bebida, porque o Brasil anda cada vez mais difícil de engolir, mesmo com ajuda de  guaraná ou cerveja à base de milho transgênico.

Modelos de garrafas utilizadas para armazenar vinho ao longo dos séculos XVIII e XIX

A Grécia já ensinou, e os maiores produtores de vinho repassam a lição de que não é só com dinheiro, e nem apenas cultivando uvas, que se produz um bom vinho. 

Para chegar à essência desta nobre arte, há de tê-la correndo em seu sangue. É necessário aprender a crescer com o solo debaixo das unhas e o cheiro da uva no ar que se respira. Enfrentar o tempo respeitanto a natureza. 

O cultivo da videira é uma forma de arte e o refinamento de seu suco é uma religião que exige dor, desejo e sacrifício. E isto não seria uma bela metáfora para a boa política, se ela cá existisse? 

Organizar um governo forte e eficiente para se construir uma verdadeira nação exigem respeito e sabedoria, algo raro nos tonéis de Brasília. 

Difererente de nosso quadro politico, o vinho sempre evolui, pois cada vez que se abre uma garrafa, será diferente do que se ela tivesse sido aberta em qualquer outro dia, pois é um elemento vivo em constante evolução e  complexidade. 

No vizinho Chile, onde até então o diabo repousava no armário (Casillero) da vinícola Concha Y Toro, agora parece que foi liberto e está no comando do país.

A vinícula Concha y Toro, no Chile, é a maior da América Latina

Aqui no Brasil, o armário do tinhoso guarda também uma safra de homens azedos, todos de terno e gravata, que só nos dão ressaca, a pior delas. E eles estão sempre prontos para azedar qualquer festa.

Resta-nos apenas seguir o conselho do poeta Baudelaire

Para não serdes os martirizados e escravos do tempo

embriagai-vos sem tréguas

de vinho, de poesia ou de virtudes

como achardes melhor.

Enivrez-vous (Charles Baudelaire, Petits poémes en prose, 1869)
fim
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