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terça-feira, 21 setembro, 2021

ENSAIO丨Carlos Lacerda, o orador imbatível

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

Na antiga Grécia, desenvolveu-se uma nobre arte: a oratória. Naquele tempo os líderes políticos de maior destaque dominavam o discurso fundamentado na metodologia filosófica, um legado que foi assimilado como base da cultura ocidental e persiste na atualidade em raros nichos, que reúnem pessoas interessadas em cultivar o saber transmitido desde a antiguidade, passando os princípios e valores de pais para filhos, objetivando o conhecimento da verdade.

Demóstenes, um dos maiores oradores da Grécia antiga

No século passado as escolas básicas desta Terra de Santa Cruz ainda mantinham, por iniciativa de nobres mestres, o ensino da comunicação e interpretação gestual utilizando a poesia e o teatro despertando futuros oradores. Que nem fizeram os gregos na antiguidade. Da poética homérica à filosofia de Demócrito, Anaxágoras, Platão e Aristóteles, o ensino da cultura histórica que gerou a arte da oratória permanece vivo, tendo passado pelo Império Romano, tempo em que o Senado foi a instituição mãe de gigantes tribunos políticos.

Na igreja católica os sermões revelaram grandes mestres da fé na oratória de João de Ávila, Aquino, Agostinho e tantos outros, lembrando que o Brasil colonial contou com Vieira, o jesuíta que chegou à corte como conselheiro, a Roma como assessor do Papa e como missionário pregava contra a escravidão e em defesa dos índios. Conta-se que subiu ao púlpito numa ocasião e começou: “Maldito seja o Pai! Maldito seja o Filho! Maldito seja o Espírito Santo! Meus irmãos, estas são as imprecações que emergem das profundezas infernais…”  

Pe. Antonio Vieira

Parece uma lembrança útil para os dias atuais?

O saber incutido pelas famílias como tesouro inalcançável para os ladrões, estava presente na comunicação escrita e oral, nos ambientes onde as decisões políticas, objetivando a consolidação da democracia, eram tomadas observando o exemplo de grandes líderes que, no discurso, estabeleciam paralelos, desenhando a relação entre princípios e valores do passado, orientando a conduta em defesa da liberdade, da dignidade, da honra e do respeito entre “semelhantes” o que é diferente de “iguais”, separando o joio do trigo.

A alta cultura já esteve presente na oratória política brasileira. No passado remoto, alguns homens   empunharam a espada do saber expondo ideias redentoras.  Alguns ainda são lembrados por poucos que respiram e defendem os ideais conservadores: Bonifácio, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e mais recentemente Carlos Lacerda, que na infância não desejava abraçar as lides políticas, o que revelou em carta à sua mãe:

“Já escolhi minha profissão. Hei de ser engenheiro agrônomo. Não me meterei na política. Já fiz esse juramento. Não defenderei, mas também não atacarei. Sei que isto te desgosta por que foi com essa maldita política que meu pai se perdeu.”  (1)

O avô que foi Ministro do STF e o pai carregavam o histórico de carreiras políticas num ambiente “progressista” em que os tios “eram comunistas”, influenciando sua juventude com ideias coletivistas. 

 Quem não foi comunista aos dezoito anos, não teve juventude, quem é comunista depois dos trinta não tem juízo.

Carlos Lacerda

Abandonou a escola de direito e fez-se jornalista, sereno, comprometido e agressivo, focando sua experiência passada para incutir nos leitores a defesa da democracia plena, difícil no Brasil, onde o autoritarismo sempre esteve presente nas leis e na execução das leis. A defesa da liberdade foi uma constante em sua vida,  presente no discurso do palanque como nas páginas escritas, discurso e texto marcados pelo saber das normas da retórica e oratória mais elevada, privilegiando a desconstrução da imagem moral dos opositores, ensinando como alternativa para o bem comum a prática ética e moral legada pela cultura superior que, a partir dos mosteiros, serviu de alicerce à civilização ocidental – como ensina Olavo de Carvalho atualmente.

Na construção das páginas, como nos discursos gravados, como aquele que Lacerda pronunciou, quando deputado federal, em defesa própria diante da Comissão de Constituição e Justiça durante 10 horas, o profundo saber literário emerge das citações e o filosófico segue a metodologia normativa ancestral (Grécia e Roma) com influência aristotélica, como expõem as obras tradicionais que ensinam os passos da oratória e da retórica.

Lacerda tomava a CAUSA sempre associada aos anseios da população ou imediatamente após um fato significativo afetivo do bem comum; passava à ACUSAÇÃO associando a conduta do autor, o caráter e as consequências do momento e futuras. Os que o ouviam ao redor do palanque ou pelo rádio figuravam como JUDICIÁRIO. Sua oratória seguia o modelo ateniense transportado para as audiências do Senado Romano e descrito com detalhes nas Partições Oratórias de Cícero. No final o ACONSELHAMENTO – direção a seguir – e a ESPERANÇA – persistência. Discurso enquadrado na disciplina filosófica e histórica.

O verbo do orador imbatível era adaptado a cada contexto: palanque, rádio, jornal ou no congresso nacional, encadeando o passado, presente e futuro com a responsabilidade e o respeito à tradição, herança transmitida pelos pais, valores, princípios, crenças, comportamentos éticos e morais que dignificam ou danificam, marcando o caráter e ação de cada homem. Segundo Cícero, “não nascemos apenas para nós mesmos”. Lacerda nasceu para construir-se como voz de uma nação, num momento em que, em suas palavras, “o regime democrático no Brasil ainda é uma promessa há muito adiada”. Continuamos esperando a construção de um ambiente democrático pleno e nos faltam tribunos, mestres e líderes como Lacerda.

No exercício político dos nossos dias, como as escolas superiores e básicas que adestraram as pessoas nos últimos cinquenta anos, formaram-se representantes analfabetos funcionais coletivistas. Carecemos de pessoas cultas, agressivas na defesa da coisa e do espírito público. Carecemos de postura, honestidade, hombridade, determinação e fé, vibração, para alcançar a senda do bem comum. Lacerda construiu-se como o orador exemplar na arte política, respirando e proclamando controvérsias fundamentadas em ideias e amor à Pátria e aos cidadãos, primando pela exaltação da liberdade e autonomia do homem sobre o Estado.

Como jornalista, fundou em 1949, no Rio de Janeiro, então capital da república, A Tribuna da Imprensa para enfrentar o Getúlio Vargas candidato à presidência nas eleições que aconteceram em 1950:

O Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.

Eleito, Getúlio   financiou Samuel Wainer para fundar o jornal Última Hora, que seria o defensor do governo. No ano de 1953, Lacerda abriu o verbo denunciando governante:

Ora, muito bem, até que enfim o Sr. Getúlio Vargas pretende punir corruptos e corruptores! Mas onde, onde estava ele quando a corrupção campeava? Que fez ele quando as portas do Banco do Brasil se abriram para dali sair o dinheiro com que um estrangeiro e um aventureiro se locupletaram? Que ele compreenda! Que ele compreenda que se a maioria relativa dos brasileiros lhe deu um respeitável voto de confiança, já que ele não pode corresponder a essa confiança, corresponda ao menos ao seu sentimento de respeito por si mesmo, e não se desrespeite. Nós não queremos desrespeitar no senhor Getúlio Vargas a figura do presidente da República. Para isso é indispensável que ele tire o seu filho dessa sujeira! É indispensável que ele promova imediatamente a punição daqueles que envolveram seu filho nessa sujeira! É indispensável que ele deixe de panos quentes e ele, que não teve escrúpulos para rasgar uma Constituição, rasgue a ‘Última Hora’!

Com personalidade forte e autoritária, consciente de sua missão em defesa da liberdade e honestidade para fortalecer a cambaleante democracia, Lacerda sofreu o atentado na Rua Toneleiros, quando foi atingido e assassinado o oficial da aeronáutica que o acompanhava. A polícia prendeu os sicários que denunciaram Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas como mandante.  Oficiais da Aeronáutica manifestaram-se pela deposição do presidente, logo houve a adesão dos Almirantes e no dia 23 de agosto, 37 generais do Exército assinaram um documento favorável à renúncia. Sem apoio das Forças Armadas, Getúlio suicidou-se na madrugada do dia 24 de agosto de 1954. (3)

Lacerda transformou-se em alvo e seu jornal foi atacado. A comoção popular levou-o a afastar-se da cena até a posse de Juscelino, para tornar-se o crítico maior da construção de Brasília. Em 1960, deu-se a mudança da capital federal para Brasília e a cidade do Rio de Janeiro passou à categoria de estado da Guanabara. O território do Rio de Janeiro ganhou nova capital, Niterói. Lacerda candidatou-se e foi o primeiro Governador do Estado da Guanabara. Mobilizou grandes obras urbanas:   remodelação da zona sul, túnel Rebouças, aterro do Flamengo, parque da Catacumba. Construiu a Universidade Estadual da Guanabara (atual UERJ) e a estação de tratamento de água e esgoto do Guandu.

A figura política de Lacerda esteve sempre ligada ao patriotismo e responsabilidade da família, o que empolgava toda a classe média. Mas o governo marcado por grandes obras, foi atacado por iniciativas polêmicas como a remoção de favelados para os conjuntos habitacionais que hoje são conhecidos como Cidade de Deus e Vila Kennedy. A polícia foi acusada de assassinar mendigos e jogar os corpos no Rio Guandu. Lacerda demitiu o Secretário da Segurança Pública e nada ficou provado.

“O futuro não é o que se teme. O futuro é o que se ousa.”

“A impunidade gera a audácia dos maus.”

Anticomunista ferrenho, Carlos Lacerda foi um dos governadores mais ativos em 1964, denunciando o compadrio de Goulart com a Confederação Geral dos Trabalhadores dirigida por comunistas que, mobilizando greves sucessivas prejudicavam a nação.   Com a fuga de Goulart e a sequência de acontecimentos que levaram à eleição de Castelo Branco à presidência, Lacerda visitou os EUA onde   deu uma série de entrevistas defendendo as Forças Armadas, declarando que a Revolução   havia devolvido ao Brasil à normalidade e à ordem. 

Castelo Branco   deveria cumprir o mandato de cinco anos iniciado por Jânio Quadros em   1961. Havendo eleições em 1965 Lacerda seria o candidato da União Democrática Nacional. Mas as eleições foram anuladas com a prorrogação do mandato de Castelo até 1967. Logo os partidos políticos foram extintos. Lacerda concluiu seu mandato em janeiro de 1966, insatisfeito com os rumos políticos implantados pelos militares no poder, com muitos ataques a Castelo Branco. Entre outros atos conclamou o povo a fazer uma “revolução de verdade”. 

A intensa mobilização de governadores e ex-presidentes numa Frente Ampla agravou as relações políticas com o governo. O ministro da justiça proibiu a presença de Lacerda em programas de televisão devido aos ataques ao governo de Costa e Silva e em dezembro de 1968, os direitos políticos de mais de 300 pessoas foram cassados, entre elas Carlos Lacerda, que foi preso no dia seguinte, entrou em greve de fome e foi liberado uma semana depois. 

Lacerda morreu em 1977, no Rio de Janeiro, vítima de um infarto.  O jornalista Helio Fernandes o descreveu como um homem que havia desejado e exercido “o Poder com devoção, com grandeza, com seriedade, com a consciência de que estava preparado para exercê-lo” em direção ao bem comum. O Brasil perdeu a consciência pátria na política. Perdeu o mais valente e persuasivo orador. Perdeu um homem de ideias. Desde então, os terrenos da política se tornaram áridos, mesquinhos, vazios de patriotas carentes de estadistas apaixonados pela nação. A população foi enjaulada em currais mentais. A defesa da liberdade prezada e ensinada por líderes como Lacerda foi reduzida. Mas a esperança que ele anunciava, se conserva no coração de cada brasileiro. A gratidão é devida a Carlos Frederico Werneck de Lacerda, que disse:

“… o que podia fazer, eu fiz. Algumas coisas tenho certeza de que fiz bem. Outras, mais ou menos, e em outras errei” (4)  

LACERDA, 1977, ano em que morreu.
  1. “Rosas e Pedras no meu Caminho”, reunião de escritos autobiográficos publicados na Revista Manchete entre 1967/77.
  2. “Carlos Lacerda”, Mônica Heinzelmann Portella de Aguiar, publicação da Universidade Cândido Mendes, janeiro 2020. 
  3. https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/EleVoltou/Militares
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